Rússia rejeita resposta militar contra Turquia, mas adopta represálias económicas

(AFP)
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Dois dias após um caça-bombardeiro russo ter sido abatido pela aviação turca na fronteira com a síria, a Rússia anunciou nesta quinta-feira que prepara medidas de represália económicas contra Ancara.

Desde esse incidente, o mais grave para Moscovo desde o início da sua intervenção militar na Síria, em 30 de Setembro, os líderes dos dois países prometeram evitar uma escalada militar na região.

Mas as autoridades russas pretendem replicar economicamente a morte de dois militares russos – um dos dois pilotos do caça abatido e um soldado das tropas de elite que participava da operação de resgate do segundo piloto.

A tensão entre a Rússia e a Turquia ocorre no momento em que o presidente francês, François Hollande, tenta estabelecer uma coligação antijihadista após os ataques de Paris, que fizeram cerca de 130 mortos em 13 de Novembro.

Antes de receber nesta quinta-feira no Kremlin o presidente francês, Putin atacou Ancara, que “não apresentou qualquer pedido de desculpas, nem uma proposta para compensar o mal e os estragos causados, nem promessas de punir os responsáveis”.

“Temos a impressão de que os líderes turcos conduzem conscientemente as relações russo-turcas a um impasse”, acrescentou o presidente russo.

O ministro das Relações Exteriores turco, Mevlut Cavusoglu, respondeu com firmeza ao excluir qualquer pedido de desculpas à Rússia.

Seguindo as ordens de Vladimir Putin, o primeiro-ministro Dmitry Medvedev reuniu seu governo, a fim de preparar dentro de dois dias uma série de medidas de retaliação após o “acto de agressão” da Turquia.

Sem entrar em detalhes, ele sugeriu que projectos conjuntos podem ser suspensos, leis aduaneiras endurecidas e ligações aéreas sujeitas a restrições.

O uso da mão de obra turca na Rússia também poderia ser afectada.

Estas medidas poderiam pôr em perigo a construção em curso da primeira usina nuclear turca em Akkuyu (sul) e enterrar o projecto de gasoduto TurkStream, que Moscovo queria fazer de porta de entrada para o gás russo no sul da Europa.

Biliões em jogo

O ministro russo da Agricultura, Alexander Tkachev, anunciou por sua vez um reforço dos controles sobre os produtos agrícolas e géneros alimentícios importados da Turquia.

Num comunicado, Tkatshev denuncia “as repetidas violações das normas russas por parte dos produtores turcos”, que poderiam afectar 15% dos produtos agrícolas importados de Turquia.

Tkatshev citou a presença de “substâncias proibidas e prejudiciais”, assim como doses excessivas de pesticidas ou nitratos.

Mas há vários anos, a Rússia é acusada de tomar decisões de ordem sanitária com base em suas posições geopolíticas. Desde o ano passado, Moscovo impõe um embargo sobre a maior parte dos produtos alimentares dos países ocidentais que adoptaram sanções contra o país em função do conflito na Ucrânia.

As importações turcas para a Rússia ultrapassaram três biliões de dólares nos três primeiros trimestres deste ano.

De acordo com a imprensa russa, as alfândegas russas já inspeccionam escrupulosamente todas as mercadorias que chegam da Turquia, causando atrasos e bloqueios.

A máquina foi colocada em movimento poucas horas depois do caça ter ser abatido, quando Moscovo recomendou aos russos que não viajem à Turquia, potencialmente privando o país de mais de três milhões de turistas por ano.

As manifestações de descontentamento também se multiplicaram na Rússia: pedras foram lançadas contra a embaixada da Turquia em Moscovo, enquanto um projecto de lei para penalizar a negação do genocídio arménio ganha força.

Luta incontestável

Furiosa após a perda de seu avião, a Rússia chegou a acusar a Turquia de manter laços com o EI, com Putin denunciando aqueles que “acobertam o tráfico de petróleo, seres humanos, drogas, obras de arte e armas”.

Por sua vez, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, respondeu nesta quinta-feira às acusações de complacência com os jihadistas lançadas por Vladimir Putin, dizendo que o compromisso de seu país com a luta contra o grupo Estado Islâmico é “incontestável”.

“A posição de nosso país contra o Daesh (acrónimo em árabe do Estado Islâmico) tem sido clara desde o início”, afirmou Erdogan em Ancara.

Erdogan também desafiou a Rússia a provar que a Turquia compra petróleo do EI.

“Aqueles que nos acusam de comprar petróleo do Daesh são obrigados a provar as suas acusações”.

Sobre as circunstâncias na qual caças F-16 turcos abateram o Su-24 russo, Moscovo e Ancara defendem suas versões diametralmente opostas.

Ancara afirma que a aeronave voava em seu espaço aéreo e que advertiu “dez vezes em cinco minutos”, e que a nacionalidade do avião era desconhecida. Moscovo assegura que o caça sobrevoava a Síria e que não foi alertado antes de ser atingido.

Um dos dois pilotos foi morto a tiros quando descia de para-quedas, segundo Moscovo. O segundo foi resgatado após duas operações de resgate que custaram a vida a um soldado russo. (afp.com)

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