Papa devolve esperança aos muçulmanos da República Centro-Africana

(Foto de GIANLUIGI GUERCIA/AFP)
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Refugiados no bairro PK5, sob ameaça constante das milícias armadas cristãs, os muçulmanos da capital da República Centro-Africana receberam triunfalmente o papa, nesta segunda-feira, que os deu de volta a esperança.

“Pensávamos que todo o mundo havia nos abandonado, mas não. Ele também ama os muçulmanos. Estou muito feliz”, confessou Idi Bohari, um elegante ancião com uma túnica branca brilhante, apesar da poeira levantada pelos carros blindados da ONU.

Milhares de pessoa se reuniram ao longo da avenida, alguns mostrando a bandeira amarela e branca do Vaticano em uma mão e segurando um terço na outra, sob a vigilância de dezenas de soldados das Nações Unidas da Minusca (missão da ONU para a estabilização da República Cetro-Africana) encarregados de controlar a área.

A etapa em Bangui era especialmente delicada devido aos confrontos realizados com frequência por jovens muçulmanos da ex-rebelião Seleka e por milícias cristãs anti-Balaka, que causaram mais de 100 mortes na cidade desde o fim de Setembro.

‘Fazer as pazes definitivamente’

“Chegou o momento de fazer as pazes definitivamente”, depois de dois anos de caos que devastaram a República Centro-Africana, afirma Ousmane Abakar, porta-voz da comunidade muçulmana de Bangui.

“Não devemos aceitar que nos manipulem”, adverte, “pois não se trata de um conflito confessional, são os políticos que instrumentalizam nossos compatriotas e no final é o povo centro-africano quem perde”.

Praticamente a cada dia, histórias de jovens muçulmanos e cristãos assassinados pelo grupo contrário se repetem na cidade. A tensão aumenta de imediato nos bairros envolvidos, barricadas são feitas com pneus e paletas de madeira, que impedem a circulação, paralisando toda a capital.

Na avenida Barthelemy Boganda, que leva ao PK5, há uma parte deserta que margeia casas com telhados carbonizados, separando os bairros cristãos das posições dos grupos de autodefesa muçulmanos. A maioria, com idade de apenas 20 anos, vigiam a entrada de cada rua de terra vermelha.

“Devemos proteger os habitantes, muçulmanos e cristãos. Pelo menos aqui vivemos bem juntos, enquanto lá não pode viver nenhum muçulmano (na zona cristã), inclusive sair do PK5 é um problema”, assegurou Faiçal Amadou, um dos responsáveis dos comités de autodefesa.

‘Condenados a viver juntos’

Aproximadamente 100 católicos e protestantes – entre 300 e 500, segundo as fontes – convivem com os muçulmanos do PK5.

É o caso de Lazare Ndjadder, de aproximadamente 60 anos. “Há sempre momentos de medo, especialmente por causa de pequenos bandidos e assaltantes, mas eu nunca me senti inseguro aqui, é minha casa”, disse com um grande sorriso.

“Muitos somos ‘mestiços’: minha mãe é cristã e meu pai muçulmano”, afirmou Amadou Kolingba, que leva o sobrenome do antigo presidente (cristão) André Kolingba (1981-1993).

Quanto a Ibrahim Paulin, porta-voz dos deslocados instalados no pátio da mesquita, ele explica que se “islamizou” (converteu) depois de diferentes experiências religiosas.

Rebecca Tounsou, que frequenta uma igreja evangélica, afirma que “jovens (cristãos) não estão em segurança. Meus filhos fugiram do bairro, é perigoso, pois há armas a circular”, apesar do mandato das forças internacionais Minusca (10.900 homens) e francesas Sangaris (900) para desarmá-los.

Cristãos e muçulmanos estão “condenados a viver juntos”, reafirmou, nesta segunda-feira, o grande imã Nahib Tidjani, diante do Papa Francisco. Não é por casualidade que o pontífice decidiu realizar uma visita imprevista à escola primária de Koudougou, reaberta somente há duas semanas, onde crianças das duas religiões estudam juntas. (afp.com)

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