Angola, 40 anos-Cantor Santocas: A música fez aquilo que as armas não podiam fazer

Santocas, estrela da música angolana nos anos 75 e 80 (Foto: D.R.)
Santocas, estrela da música angolana nos anos 75 e 80 (Foto: D.R.)
Santocas, estrela da música angolana nos anos 75 e 80
(Foto: D.R.)

Santocas, aliás, António Sebastião Vicente, uma das vozes que vergou o seu canto penetrante ao serviço da canção política e que conseguiu fazer dela uma arma que o tornou famoso no seio de soldados, políticos e cidadãos atentos no desabrochar da independência, é de opinião que houve uma clara influência do legado dos nossos antepassados, e fala exactamente da nossa franja real, com casos grandíloquos como de Njinga Mbande, Mandume e outros que a defesa da pátria exigiu maiores sacrifícios na luta contra a ocupação do país e deturpação da nossa cultura. “Precisamos fazer imaginações possíveis e pontos de reflexão para tentar entender o sofrimento dos nossos antepassados escravos para construírem, por exemplo, a Fortaleza de São Miguel. Nós somos apenas a continuidade de uma luta. A juventude deveria saber reviver o passado para encontrar o seu grau cultural”, pontifica.

O Bairro Indígena Ao rebuscar as suas memórias, viu-se no Bairro Indígena e lhe assaltaram memórias de nomes importantes que fizeram parte na vizinhança deste pedaço inesquecível de terra do actual Nelito Soares, onde os nacionalistas e músicos engajados circulavam com certo à vontade e ali maquinavam tácticas de luta contra a opressão colonial.

Um dos pontos que rebusca é a Cadeia Hospital São Paulo, que desta nos diz: “ Era uma das cadeias que o colono tinha como uma das mais repressivas deste país. É lá onde eram levados vá- rios nacionalistas. Muitos saíram daí deportados para outros países e outros acabaram por morrer aí mesmo. Era na calada da noite que os carrascos mais atacavam os nossos pais e irmãos, e nós, ainda miúdos, ouvíamos tudo isso.

Era também por aquele caminho onde nós passávamos, aos sábados ou domingos, para irmos ao cinema São Domingo e à missa e tínhamos um contacto com os presos, que muitos das fazes chamavam por nós aos gritos e choros”, recorda. Esse cenário despertou em Santocas e miúdos do seu tempo uma consciência mais efectiva. À mistura com as brincadeiras de criança, viviam o dia-a-dia com todas essas situações, com a administração do Poeira e a PIDE no encalço dos nacionalistas e sempre prontos a ouvirem notícias de prisão ou de morte de um mais velho irmão ou pais.

Contudo, este bairro era já bastante angolano: “Qualquer um dos nacionalistas que conseguisse fugir adentro do bairro, os cipaios encontravam muitas dificuldades em segui-lo porque não podiam entrar naquele bairro”. Nasceu neste bairro e são situações que viam todos os dias.

Nos dias de lazer, recorda a lendária cacimba, onde dificilmente acabava a água, e sempre que chovesse os meninos não resistiam e viam como certa a possibilidade de irem dar uns mergulhos, apesar de ter as suas lendas, que era uma zona de tratamento e que tinham lá sereias, e as senhoras iam lá tratar os kitutes, e cruzavam o bairro até chegar à Macambira, a grande fábrica com tudo e todos da indústria têxtil, que ficava a passos da sua antiga escola, e recorda que eles, os meninos negros, às vezes, com alguma inocência à mistura, iam invadir a creche dos meninos brancos à hora do almoço, que ficavam em bairros chiques como a Vila-Alice, ali vizinha.

Matriz Foi essa realidade a matriz fundamental, toda essa necessidade de liberdade ajudou a despertar nele a canção política. Quando toma conhecimentos das transformações em Portugal, com o 25 de Abril, isso deu-lhe mais ousadia para exteriorizar a opinião angolana sobre o aparelho colonial português.

Contudo, a sua veia artística, aponta, já remonta desde os seus 6 anos, partindo ainda dos tempos das turmas. A sua avó era dona de um canto elogioso, e ele era um dos netos que estava sempre atrás da avó. Foi ouvindo muito as suas experiências. Os seus tios e a sua mãe (embora não estivesse ligada a grupos) foram dando a experiência necessária e o hábito do canto.

Marca como início o Centro Recreativo Botafogo, que tinha outras orientações escondidas para além da simples intenção cultural, pois criava condições para transmitir aos vários nacionalistas a forma como eram explorados e consciencializa-los para a luta. Mas depois o aparelho colonial foi se apercebendo das coisas e procurou dar um fim.

Mas foi crescendo até que apareceu o Maxinde e depois aparece nos “Kutonocas” e no programa Chá das Seis. Hoje, dando importância da música para a consolidação da independência, embora com as suas dificuldades, dá como certo que foi a arte que mais penetrou e a que mais motivou e mobilizou o pessoal para luta que vinha sendo mantida: “Antes do Ngola Ritmo, o mais notório, deve haver outros que a história um dia fará a justiça de trazelos à tona.

Mas a música, importa salientar, teve um papel muito importante. E, mesmo a partir do Angola Combatente, nós podíamos ouvir várias canções também interpretadas por figuras distintas da luta de libertação”. Voltando ao Bairro Indígena, recorda um episódio passado em sua casa, já quando mais crescido:

“Numa altura em que estava a jantar, dou conta do vulto de alguém lá fora e vou a correr a abrir a porta e encontro um dos meus amigos de infância a tentar enfiar debaixo da porta um panfleto. Mesmo entre nós jovens a clandestinidade já era uma questão que se levantava e não podíamos dar informações. A nossa mutamba era mesmo defronte a Avenida Brasil, mas não sabíamos ao detalhe o que um ou outro fazia, como forma de prevenir que caso fosse pego pela PIDE jamais saberia identificar os outros, a não ser que de tanta tortura dissesse algo só por dizer.

E estávamos organizados por grupos, e as mutambas serviam para fazer o diagnóstico do dia-a-dia”. Todo este cenário foi de facto a mola impulsionadora para o amadurecer da mente política, independentemente da contribuição de alguns familiares. Enveredar para a canção política não foi uma questão só do momento mas de estar documentado com um historial do que se passava a largo anos.

Santocas nos diz: “A música fez aquilo que as armas não podiam fazer. A música é que arrastou muita gente a manusear todo este instrumental que foi determinante para a derrocada do colonialismo e consequente independência de Angola. Não se pode negar o papel preponderante que a música teve neste processo de libertação.

É tanto assim que quando se começou a cantar música de cariz político, todo mundo queria saber quem era o Santocas, tanto brancos como negros. Ainda encontro-me com muita gente que está nas FAPLA e que confessam que foram para guerra devido aos efeitos causados pelas canções, e mesmo em frente de combate ouviam registos como ´Massacres de Kifangondo´ e ´Heróis Serão Vingados´, ou ´Valódia´”.

Quarenta anos depois, hoje não consegue fazer uma avaliação de tudo aquilo que fez, enquanto músico, para o bem comum do seu país. Mas sabe que é de valor inequívoco e que também tem uma pedra sua na grande parede da construção da história moderna de Angola:

“Quando, entre amigos, passávamos o Bairro Indígena e olhávamos para a cidade onde vínhamos, o nosso pensamento era sempre no amanhã: seriamos diferentes e poderíamos viver dentro de um país onde poderíamos dizer que fizemos uma luta e viver um pouco dela. Porque quando nos comprometemos não houve nenhum compromisso da minha parte, houve apenas vontade, entrega e princípio revolucionário que nos norteava para a luta”, recorda hoje Santocas, que quando se deu o grito de independência estava sediado numa casa na Vila Alice, rua da Liberdade, sob direcção do camarada Pacavira, coadjuvado pela camarada Zé Gama, irmã do cantor Mário Gama. (cultura.ao)

Por: Matadi Makola

 

 

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