MORTOS VIP no cemitério do Benfica

(Foto: D.R.)
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No novo cemitério do Benfica, em Luanda, as famílias que pagam mais vêm os seus entes queridos enterrados na área VIP. Para as menos capazes financeiramente são reservados a área normal e sem algum tipo de serviço fúnebre senão a cova.

Em funcionamento há um ano, o novo campo santo, conhecido como cemitério do Benfica, localizado no bairro com o mesmo nome, regista cerca de 600 funerais mensais. Com uma extensão de 110 hectares, dispõe de duas zonas de sepultamento: uma normal e outra VIP. Nesta última, que oferece um conjunto de serviços fúnebres diferenciados, o privilégio de lá ser enterrado não é para todos. É para quem paga mais. De acordo com fontes entrevistadas pelo O PAÍS, na zona VIP, os familiares desembolsam um valor de 50 mil kwanzas para enterrarem os seus entes queridos. Na zona normal os enterros custam 6 mil kwanzas. A cerimónia fúnebre é feita de forma simples, sem nenhum tipo de serviço. Os familiares pagam pelo buraco e com a ajuda dos coveiros fazem o sepultamento. Já na zona VIP, para além do buraco, o pagamento da direito a equipamentos sonoros, tendas, um velório, uma suite presidencial, uma sala para café, casas de banho privativas, um quarto para viúva (o) e dois quartos para familiares mais próximos.

Do pacote VIP consta ainda um carro eléctrico para o transporte de urna e uma entrada especial que é usada nos dias em que se regista grande afluxo de pessoas no cemitério. Essa distinção está a causar repulsa a muitas pessoas que, baseando-se em princípios cristãos, têm o cemitério como o único espaço onde pobres e ricos encontram-se e são depositados sem distinção. Contactadas pelo O PÁIS, diferentes vozes acreditam que é na circunstância da morte onde tudo que é material fica para atrás e todos são iguais. É o caso de Sizaltina António, que critica a distinção que é feita no cemitério do Benfica. “Quando viemos enterrar o meu irmão tínhamos interesse em sepultá-lo na parte de frente. Mas estavam a pedir caro. Então decidimos enterra-lo mais atrás. É de facto um absurdo, não faz sentido essa desigualdade num cemitério. É triste e repugnante”, lamentou a funcionária pública. Também Diogo Manuel, que recentemente perdeu um filho de 22 anos de idade vítima de electrocussão, fez saber que teve de pagar 50 mil kwanzas. “Tivemos de pagar porque queríamos vê-lo nesse lugar. Todavia, mesmo desembolsando os valores para o tal lugar onde foi sepultado já não teremos de volta o menino. Por isso não faz sentido. Prefiro esquecer o que passou. Preciso seguir em frente”.

Direcção admite existência de zona VIP

manuel direccao do cimiteiroA direcção do referido cemitério, na voz de Manuel António Manuel, admitiu existir no espaço uma zona VIP destinada à quem paga mais Relativamente ao preço, o responsável fez saber que não são 50 mil kwanzas como afirmam certas pessoas. Tal como explicou, todos os serviços fúnebres VIP custam 32 mil e quinhentos kwanzas. Já o básico anda a volta dos 6 mil kwanzas. “Cobramos esse valor porque usamos materiais descartáveis e que devem ser substituídos”. Segundo ainda Manuel António Manuel, apesar desse preço, que é destinado às famílias com maior poder financeiro, a sua instituição pratica outros serviços de baixos preços e que se adequam ao bolso do cidadão comum.

Estamos abertos à qualquer pessoa, até porque este é um cemitério estatal. Só para ter uma noção, já realizamos funerais sem a família pagar nada. Estamos aqui também para ajudar”, esclareceu. Por outro lado, o responsável avançou também que, para além das áreas já criadas, em breve o cemitério vai contar com uma zona específica para o sepultamento de militares, polícias, funcionários prisionais e missionários. Até ao momento a maior parte dos enterros foram feitos na área normal.

(opais.ao)

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