Moradores buscam o pouco que restou na tragédia de Minas Gerais

(AFP)
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Leninha Fernandes recuperou seu violão; Maria Aparecida dos Santos, sua adorada bíblia. Suas casas resistiram milagrosamente ao rompimento de duas barragens de rejeitos que destruiu um distrito de Minas Gerais.

As duas moravam em Bento Rodrigues, devastado por um tsunami de lama cobre composta de milhões de litros de resíduos de minério de ferro e água, após o rompimento de duas barragens que continham os rejeitos.

Duas pessoas morreram, segundo o último balanço da prefeitura de Mariana, e 25 estão desaparecidas, enquanto as chances de se encontrar sobreviventes diminuem.

A AFP sobrevoou o local e visitou neste domingo o que foi um distrito tranquilo da cidade histórica de Mariana, em Minas Gerais (sudeste). O silêncio na área só era interrompido pelo canto de algumas aves. O mau cheiro, que os moradores descrevem como uma mistura de “barro com ferro”, também invade o local.

Telhados derrubados com antenas de satélite; paredes cobertas de lama; a marca das rodas dos tratores que abrem caminho em meio ao lamaçal dão a sensação de uma cidade alvo de um bombardeio. Um ursinho de pelúcia azul é o único ponto colorido em meio à paisagem em tom cobre.

Os pedestres em Bento são agora bombeiros e alguns galos e galinhas que passeiam, destemidos, pela cidade arrasada. Só é possível reconhecer a escola por um muro que permaneceu de pé.

A única pessoa que passa todo o dia em Bento é Edirleia Marques de Santos, de 38 anos, que atende em sua casa o corpo de socorristas do local. À noite, ela vai dormir no centro de Mariana, distante 23 km, para onde foram levados os desabrigados.

Margeando a cratera, no que se conhece como a parte alta, as casas estão de pé, limpas até, em contraste com as construções que ficaram no caminho da enxurrada.

Ali, os bombeiros habilitaram um local para reunir os animais resgatados, principalmente cães.

É ali também que viviam Leninha e Maria. Quatro dias depois da tragédia, com algumas estradas reabertas, as autoridades levaram várias vítimas ao povoado para buscar documentos e algum outro bem de valor e, ao mesmo tempo, ver o que restou.

“Horrível, horrível!”, repetiu Leninha, ao descer de um carro da polícia que a levou de um dos abrigos temporários onde estão os mais de 500 desabrigados.

“E agora?”

A bíblia de Maria Aparecida é um livro grande e aparentemente pesado. A capa é preta e a borda das folhas, prateada.

“Fui buscar a minha bíblia, um travesseiro, meus documentos, uma bolsinha. Quando saímos aquele dia, não deu para levar nada. Foi bom poder voltar, pude alimentar minhas galinhas”, contou, satisfeita de ter deixado em ordem a casa em meio a tanta tragédia.

“Não posso morar nela” e “não sabemos onde vamos viver”, disse, preocupada.

“Não quero ficar longe da minha família, dos meus filhos, dos meus netos, queremos ficar juntos, afinal todos nesta cidade eram praticamente parentes”, acrescentou.

Essa é a mesma dúvida daqueles que perderam tudo. Por enquanto, as operações se concentram nas buscas por sobreviventes, mas os que já estão nos refúgios começam a questionar sobre o futuro.

Em um dos hotéis onde várias vítimas estão abrigadas, a pergunta se repete: “E agora?”

“Não sabemos o que vai acontecer conosco, ninguém diz nada de concreto. Só sabemos que estamos vivos. E daí?”, desabafou uma jovem, que se identificou apenas como Eliana.

A ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, Nilma Gomes, visitou vários abrigos, levando o “abraço da presidenta Dilma” Rousseff. “Esperamos resolver isto rápido para que volte para a sua casa”, disse a ministra a uma idosa no refúgio.

Mas os sobreviventes da enxurrada de lama querem que a empresa Samarco, uma joint venture entre a gigante brasileira Vale e a australiana BHP Billiton, responda pelos danos causados.

“Assim como destruíram tudo, queremos uma cidade nova para nós”, disse Eva da Souza, de 45 anos, coincidindo, sem saber, com o desejo de Maria Aparecida: um novo Rodrigues. (afp.com)

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