Mia Couto: “Um escritor torna-se uma voz de outros”

(Foto: D.R.)
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Galardoado com o Prémio Camões em 2013 e o primeiro autor em língua portuguesa a figurar numa lista de finalistas para o Man Booker International Prize, o escritor moçambicano Mia Couto revela que o sucesso e a fama não o deixam deslumbrado, pois, para ele, quem se entrega à arte sabe que são coisas efémeras e ilusórias

Em entrevista exclu­siva, o romancista moçambicano mais traduzido e divul­gado no exterior revela que sempre aspirou ter vários destinos de forma a não ficar captura­do numa única identidade. E, acredita que “o sucesso é uma meta apenas para quem não é realmente artista”.

Lançou recentemente o pri­meiro volume da trilogia “As Areias do Imperador”, o livro “Mulheres de Cinza” que narra os últimos dias do Estado de Gaza. Qual foi a necessidade de recuar até esse tempo e à figura de Ngungunyane?

Não sinto ter recuado assim tanto. Na verdade, os proces­sos que retrato ficcionalmente ocorreram há mais de 100 anos. Mas eles foram sendo recria­dos de acordo com os interes­ses mais recentes de Portugal e de Moçambique. Os chamados “factos” foram reinventados para se encaixarem na história oficial de cada uma das nações. E, os personagens principais (de um lado, Ngungunyane e, do outro, Mouzinho de Albu­querque) foram mistificados de modo a apoiarem os mitos fun­dadores de um e do outro lado. É por isso que esse período da chamada – pelos portugueses – campanhas de “pacificação” é tão rico e inspirador. Porque esse passado não chegou real­mente a passar.

Esta trilogia é uma analogia ao momento político de Moçam­bique uma vez que parece favorecer os vários paralelis­mos com a actualidade do país mencionado?

Não exactamente. Não procurei provar coisa nenhuma. Existem conflitos do passado que não ficaram historicamente resol­vidos mas não tenho ideia que essa seja a principal explicação dos conflitos do presente. O que sucede é que somos vítimas de um passado construído a uma só voz. Somos vítimas de uma única História, se quisermos retomar o aviso da nigeriana Chimamanda Adichie. É pre­ciso reconciliarmo-nos com o nosso próprio tempo. Porque, há nessas versões diferentes autores, diferentes memórias que disputam o retrato oficial de quem somos.

Pensa em apresentar a obra cá, em Angola?

Gostaria muito, mas para isso terá que haver uma editora que me publique aí.

Mia CoutoAntes de se formar em Biolo­gia, chegou a enveredar pelo jornalismo, tornando-se, com a independência, repórter e director da Agência de Infor­mação de Moçambique (AIM), mas é como escritor e poeta que tem feito carreira. Até que ponto foi importante para a sua trajectória profissional inves­tir e optar por carreiras que o levassem a novos desafios?

Foi uma mistura de acidentes e de decisões. E é sempre as­sim afinal na vida de todos nós. Mas, eu nunca quis ser apenas uma coisa só, sempre aspirei ter vários destinos de forma a não ficar capturado numa úni­ca identidade. Quero ser mui­tos, quero manter abertas vá­rias janelas que me permitam ver o mundo de vários ângulos. Uma coisa que aprendi da min­ha militância partidária foi o quanto se pode ficar prisioneiro de uma única abordagem. Fa­zemos, primeiro por disciplina, continuamos a fazê-lo depois por medo e uma certa cum­plicidade com o que já fomos. Nenhuma verdade é assim tão simples de captar, nenhuma verdade pode ser capturada por um olhar que seja único e linear.

O facto do seu pai, Fernan­do Couto, ter sido jornalista e poeta influenciou-o de alguma forma a escolher que carreira seguir?

Marcou-me muito. Ele foi um professor daquilo que não se pode ensinar senão por via do que não se diz. Não me recor­do nunca de ele nos ralhar, de ser normativo. Nem sequer em relação aos livros, que ele tan­to amava, nos obrigou a que fossemos aplicados na sua lei­tura. Mas o empenho que ele colocava nas coisas que amava (a poesia e o jornalismo foram dois exemplos) actuava co­mo uma silenciosa orientação. Nós queríamos experimentar o mistério dessas áreas que tan­to prazer lhe davam. Mas foi sobretudo a importância que ele dava às pessoas comuns, o tempo que despendia com jo­vens escritores que eram, na maior parte das vezes, filhos de gente humilde.

O seu pai também foi militante. Geralmente, costuma redigir textos de intervenção que abordam temas que vão da política à literatura. Para si, é fundamental que um escritor seja um militante?

Depende do que chamamos “militante”. Mesmo que ele não se assuma como interveniente em assuntos explicitamente políticos ou cívicos, a verdade é que a escrita literária não está à margem das grandes questões éticas.

Na carta aberta que escreveu ao Presidente da África do Sul, Jacob Zuma, sobre o genocídio de moçambicanos naquele país, chegou a afirmar que artistas e escritores estão dispostos a apoiar a construção de uma vizinhança que não nasce da geografia mas de um parentesco que é da alma comum e da história partilhada. Enquanto escritor, acredita que quem segue a carreira artística consegue reverter as dores e as vergonhas de uma nação ou povo, como o caso da África do Sul?

Mesmo sem o querer, um escritor torna-se uma voz de outros. O que ele diz não lhe pertence apenas a ele, embora seja o único responsável. Seria de uma grande arrogância um escritor acreditar-se como “porta-voz” de uma nação. Mas, de algum modo, ele não é uma entidade solitária. E, já que assim é, ele deve ser uma voz solidária.

Porque é que sentiu necessidade de escrever esta carta aberta ao Presidente da África do Sul, Jacob Zuma?

Por uma questão de consciência. Não podia fi car calado perante a desumanidade do que se estava a passar. Às vezes, fazemos coisas sem medir se são eficientes. Fazemo-las porque temos um dever de coerência connosco mesmos.

O que achou da resposta do presidente sul-africano à sua carta aberta?

Ele não me respondeu exactamente a mim. Fiquei, no entanto, muito comovido com a atitude de quem se digna a dar resposta a um desafio feito por um escritor.

Leonardo Padura, romancista e um dos nomes mais forte da literatura cubana actual, declarou em entrevista a um periódico brasileiro que detesta fazer previsões sobre o futuro, ainda mais sobre Cuba. “Fazer previsões sobre Cuba não é um exercício recomendável”, afirmou. No seu caso, qual é o seu ponto de vista em relação ao processo de prosperidade do continente africano?

Os últimos dez anos mostraram que fazer previsões é um acto falhado não apenas para África mas para qualquer continente. Quem poderia adivinhar o que se está hoje a passar em regiões da Europa? Quem poderia imaginar o lugar central da China nos destinos da economia e da política mundial? Eu creio que existem tendências que podem fazer sugerir que o nosso continente ainda vive balançando entre as mãos de interesses de pequenos grupos e as mãos de um destino mais justo, mais equilibrado e equitativo.

É recorrente ouvirmos em entrevistas escritores afirmarem que a literatura africana está a ser “descoberta”. Actualmente, acha que esta tese ainda se justifica?

Não digo “descoberta” pois nós já a conhecíamos. Os outros estão menos preconceituosos e mais disponíveis para conhecerem os escritores africanos, não porque sejam “africanos” mas porque são escritores e, muitos deles, são bons escritores. Essa foi uma grande vitória que não fi cou a dever-se à intervenção de qualquer solidariedade ou condescendência. Os africanos impuseram-se pela qualidade e universalidade do seu trabalho. Não pedimos quotas, não reclamamos o papel de vítimas. Conquistámos esse lugar de dignidade.

E, no caso específico dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa?

O processo é o mesmo. Estamos a viver esse direito de não sermos reduzidos a um estereótipo que nos obrigava a ser parecidos com aquilo que os outros – e às vezes nós mesmos – achavam que era ser “autenticamente” africano. Nós escrevemos. E ponto. A africanidade irá surgir naturalmente dos nossos textos. Sem que tenha que ser na forma de proclamação ou de qualquer outra bandeira.

Julga que esta questão da “autenticidade da africanidade” era uma forma de prejuízo para a nossa literatura?

Sim, já respondi parcialmente a esta pergunta. Mas esse preconceito, sendo criado fora da África, acabou sendo indigenizado, foi incorporado pelas nossas elites. Essas elites, na pressa de procurarem o “tipicamente africano”, acabaram estreitando e mutilando aquilo que é mais rico no nosso continente: a sua espantosa diversidade.

Alguns dos grandes nomes da literatura angolana têm apresentado suas obras primeiro no exterior, principalmente, em Portugal e no Brasil. Alega-se que a falta de editoras e patrocínios são as razões para tal. Em Moçambique tem ocorrido situações parecidas?

Por via e regra eu publico primeiro em Moçambique. O último lançamento (deste último romance, “Mulheres de Cinza”) foi de tal modo concorrido que tivemos que fechar as portas do local onde se realizou o evento. Venderam-se nessa noite mais de 700 livros. Falo disto porque não é apenas o meu caso. Há um interesse crescente dos jovens urbanos pela literatura do nosso país.

O que pode dizer sobre a nova geração de escritores? Há alguém que recomende?

Há muito jovens moçambicanos que não apenas prometem mas que irão ser, muito em breve, autores de obra respeitada. Muitos deles irão publicar ainda em livro. E são quase sempre do domínio da poesia. Há aqui uma herança histórica que vem centrar a produção moçambicana na poesia e a angolana na prosa.

Actualmente é o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. Alguma vez o sucesso e a fama o deixaram trémulo ou deslumbrado?

Trémulo sim, deslumbrado não. O sucesso é uma meta apenas para quem não é realmente artista. Aquele que se entrega a uma arte sabe da coisa efémera e ilusória que é a fama. É mesmo preciso desconfiar se algo não está errado quando o sucesso é demasiado (semanarioeconomico.ao)

Por: Magdala Azulay

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