Marcus Fernandes: “Lava Jato” não afecta investimentos da Odebrecht em Angola

Marcus Fernandes (Foto: D.R.)
Marcus Fernandes (Foto: D.R.)
Marcus Fernandes
(Foto: D.R.)

Em entrevista exclusiva ao SEMANÁRIO ECONÓMICO, o director do gabinete de Planeamento e Relações Institucionais da Odebrecht afirma que os processos judicias que pesam sobre executivos da construtora, no Brasil, não irão comprometer os investimentos e projectos desenvolvidos em Angola

Marcus Felipe Fernandes conta numa perpesctiva histórica as principais intervenções da Odebrecht no processo de reconstrução e construção nacional, desde 1984 até ao ano em curso. O responsável afirma que o actual cenário económico do país não irá dificultar as obras em curso, uma vez que as exportações da empresa dependem exclusivamente do Banco de Desenvolvimento Económico e Social do Brasil (BNDES). O gestor conta que a empresa emprega 24 mil trabalhadores.

Angola celebrou os 40 anos da sua independência. Após o alcance da paz, em 2002, o país tornou-se num canteiro de obras e, hoje, é quase impossível falar-se do processo de reconstrução nacional sem citar o nome da Odebrecht. Recorde-nos os primeiros contactos que a vossa a empresa teve com o país.

A Odebrecht está em Angola há 31 anos. No ano passado registámos as três décadas de actuação no país. Chegamos em Angola em 1984 para construir a barragem de Capanda, na província de Malanje. Na altura, viemos para construir o que fosse necessário, mas depois mudamos a nossa visão, começamos a investir. Durante alguns anos nos concentramos na construção de Capanda, posteriormente começamos a investir em outros sectores, como das Minas, com os projectos ‘Luzamba’ e ‘Catoca’.

Nos anos 90 o conflito armado era intenso no país. Muitas obras tiveram de parar…

Houve um período em que não tivemos como continuar com as obras na barragem de Capanda devido ao conflito armado que se viveu na altura. Nessa época participamos de alguns projectos importantes para o Estado. Demos, por exemplo, todo o apoio logístico à Missão de Paz da UNAVEM em 1995. Devido à intensidade dos conflitos começamos a desenvolver uma série de projectos de urbanização em Luanda. Projectamos o Talatona, na altura era chamada de Luanda Sul.

Recorde-nos as principais obras do país com o selo da Odebrecht.

Trabalhamos nas obras de saneamento de Luanda no município da Samba, no Bairro Mártires do Kifangondo, reconstruimos a Avenida 21 de Janeiro e trabalhamos no projecto Vias de Luanda que visou a reurbanização de várias avenidas de cidade capital. Nesta senda, introduzimos um sistema de colecta de lixo diferenciado, fizemos novas calçadas, construímos as denominadas paragens do brilho para aqueles rapazes que engraxavam sapatos nas ruas. Colocamos postos de iluminação e jardins nas principais ruas da cidade de Luanda. Participamos na construção do aeroporto do Namibe. Em Benguela construímos o Aeroporto da Catumbela, trabalhamos na regularização dos rios, fizemos o troço de estrada Benguela-Baia Farta, Benguela-Dombe Grande e Benguela-Catengue. Fizemos vários quilómetros de estradas nas províncias de Malange, Huambo, Huila, Lunda-Norte e Luanda.

A vossa marca também é visível no comércio.

Também fizemos a primeira etapa do Nosso Super, que era um projecto do Estado no qual fomos contratados para construir uma loja em cada província e operar por um certo período. Depois essas lojas foram entregue a Odebrecht em forma de concessão e hoje somos investidores. Contamos actualmente com 34 lojas.

Agora também na energia!

Somos sócios da Biocom, um grande investimento que temos em Malanje para produção de açúcar e de energia através da biomassa. No sector da energia, depois de terminarmos os trabalhos na barragem de Capanda trabalhamos na recuperação e reestruturação na barragem do Gove, que se encontrava bastante danificada devido aos conflitos que o país viveu. Ainda no sector da energia, actualmente contamos com duas grandes obras no sector da Energia que são a construção da barragem de Laúca que, por sinal, será a maior do país. Estamos a fazer obras de ampliação da barragem de Cambambe. De recordar que Cambambe era uma barragem construída na época colonial e que tinha uma série de problemas e fizemos a reabilitação, o loteamento e a construção da central. Cambambe vai gerar 960 megawatts a partir de 2016. Antes da modernização gerava apenas 90 megawatts.

Qual vai ser a capacidade de produção da barragem de Laúca?

A barragem de Laúca é uma obra de raiz que vai gerar quatro vezes a energia que gera Capanda e tem uma capacidade para produzir 2070 megawatt.

A Odebrecht chegou em Angola nove anos depois da proclamação da independência. Hoje quando olha para atrás qual é o sentimento que tem, tendo em conta a vossa participação no processo de reconstrução nacional?

É um sentimento de orgulho. Nos sentimos muito orgulhosos de ter estado aqui nestes 31 anos ininterruptamente. Quando começamos a operar em Angola em 1984, o país tinha apenas nove anos de independência, hoje celebre 40 anos. Isso demonstra o tempo da nossa relação com Angola. Nos orgulhamos de ter construído obras importantes, focadas para construção de estradas, que são fundamentais para o desenvolvimento do país. Mesmo dentro de Luanda, quando vemos a Samba, a Avenida 21 de Janeiro, o Talatona, tudo tem um pouco da nossa participação.

A Odebrecht é das poucas empresas a operar em Angola que desenvolve projectos de cariz social em todas as províncias aonde leva a cabo determinada obra. Fale-nos um pouco sobre o vosso programa de responsabilidade social junto das populações?

No que se refere à responsabilidade social, há um propósito nosso de fazer um trabalho nas comunidades circunvizinhas com o foco na sustentabilidade. Só para citar alguns, temos o programa “Kukula Ku Moxi”, que traduzido em português significa “crescemos juntos” quem tem, entre as várias acções, um projecto de agricultura familiar, desenvolvido pela Sociedade de Desenvolvimento do Pólo industrial de Capanda, no âmbito do desenvolvimento social do Pólo Agro-Industrial de Capanda em parceria com a Maersk Oil, Sonangol e a Biocom.

Na comunidade da Hanha do Norte, no Lobito, à margem das obras da Sonaref, apoiamos a Associação Tuyula Lomunga, que hoje emprega directamente 25 pessoas e abrange 1200 famílias beneficiadas pelas acções e programas desenvolvidos. Factura mensalmente cerca de 13 mil dólares, e, nos últimos 15 meses, produziu 92 mil barras de sabão, comercializou 100 toneladas de produtos agrícolas. Na província do Cuanza Norte, por exemplo, desenvolvemos o programa social “ Xaleno Kyambote”. É um projeto de agricultura familiar que tem permitido muitas as famílias a obterem um rendimento através da correta exploração das terras. Temos vinte estudantes angolanos a estudar no Brasil com bolsas de estudos fornecidos pela Odebrecht.

A Odebrecht é conhecida como a maior empregadora do país. Qual é o actual número de trabalhadores da empresa?

Entre trabalhadores efectivos, subcontratados, e somando com outras pessoas envolvidas noutros investimentos da empresa, geramos trabalho para mais de 24 mil pessoas. Significa que geramos um benefício para mais de 100 mil famílias.

Algumas empresas de construção civil tem sido acusadas de não passarem contratos de trabalho aos seus trabalhadores, sobretudo, aos jovens ajudantes de pedreira e electricidade. É o caso da Odebrecht?

Não. Aqui ninguém trabalha sem contrato. Até aos estudantes que apoiamos ou em fase de estágio na nossa empresa, assinam contrato e recebem uma ajuda financeira mensal.

Em termos de investimentos qual é a previsão financeira para 2015.

Não lhe posso adiantar exactamente o valor dos nossos investimentos, temos uma área responsável pelos investimentos da empresa. Mas lhe posso adiantar que vamos produzir em termos de execução de obras cerca de 1,5 mil milhões de dólares. Continuamos a buscar novos projectos e a nossa expectativa é puder continuar a servir o país. Temos clientes privados, mas o nosso principal cliente é o Estado. Queremos crescer com Angola e com os angolanos.

O actual contexto económico-financeiro do país tem retraído de alguma forma a execução dos vossos projectos?

Eu não sou economista, mas dizem que para se falar em crise precisávamos ter o país em recessão. Angola não é um país em recessão. Os economistas dizem que o país vai crescer cerca de 3,5 por cento. Apesar de Angola ser afectada com a queda do preço do petróleo, procuramos dar ritmo nas obras principais como se a crise não houvesse. Naturalmente que essa situação tem afectado de alguma forma em alguns pagamentos, mas nada significativo.

Explica-nos como a Odebrecht consegue manter a execução das suas obras numa altura em que o país regista sérios problemas nas exportações devido aos problemas cambiais?

O financiamento das nossas obras são feitas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social, o BNDES, que é uma instituição financeira que trabalha com estimulo a exportação de bens e serviços no Brasil. Portanto, compramos muita coisa no Brasil dentro desta linha de crédito e os produtos entram em Angola sem nenhuma dificuldade.

E quantos aos despedimentos?

Sempre somos confrontados com essa questão. A construção civil obedece à um ciclo normal. A Odebrecht mantém, só de trabalhadores efectivos cerca de 12 mil funcionários. A nossa actividade é cíclica, com o fim de uma obra podem sair alguns trabalhadores mas entram outros. Por exemplo, quando em Laúca construímos os estaleiros da obra, no fim da construção, grande parte dos trabalhadores passaram para as obras de construção da barragem. Todas as empresas admitem novas pessoas e terminam contrato com os seus colaboradores, é um ciclo normal. O processo de recrutamento na Odebrecht é em função das necessidades das obras. A Odebrecht vai continuar a empregar pessoas e gerar riquezas.

Olhando para o sector da construção civil nesses 40 anos da independência do país, o que gostaria de destacar?

Eu estive aqui em 1992 em Capanda e, por força das circunstâncias, saí de Angola e fui trabalhar na América Latina. Voltei em Angola em 2007 e fiquei impressionado com o que vi. Luanda se tornou num verdadeiro estaleiro de obras. Há novos edifícios, houve a ampliação e modernização do Aeroporto 4 de Fevereiro. Portanto, penso que para os engenheiros civis, arquitectos e outras profissões, Angola é um país de grandes oportunidades. Durante muito tempo o país dependeu muito da força de trabalho dos expatriados mas cada vez mais Angola começa a depender menos dos expatriados porque o nível de formação dos nacionais tem aumentado. É por isso, que nós lançamos o programa jovem parceiro para que Angola possa depender menos dos expatriados e aumentar a força de trabalho dos nacionais.

Os processos judiciais que pesam sobre Marcelo Odebrecht, no Brasil, denominado ‘Lava Jato’ poderão comprometer os investimentos em Angola?

Não. É um assunto de natureza judicial, esperamos que as coisas se resolvam por lá. Justiça é justiça e vamos ver como as coisas se resolvem. Mas a própria empresa nos convida cada um a fazer a sua parte, os que estão na obra têm que continuar a trabalhar. Aquele é um assunto que os advogados tem de resolver, aqui nós continuamos a fazer a nossa parte e as coisas continuam a andar.

Então, as obras não param?

Não.

Perfil

Há 28 anos a servir a Odebrecht

Marcus Felipe de Aragão FernandesMarcus Felipe de Aragão Fernandes nasceu em Setembro de 1959, em Vitória da Conquista, na Baia, Brasil. É formado em Engenheira Civil pela Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (1982). Foi estagiário do Laboratório Nacional de Engenharia Civil de Lisboa no período 1983-1985. É quadro da Odebrecht desde 1988. Marcus Felipe Fernandes esteve em Angola no ano 1992 a fim de trabalhar no projecto de Construção da Barragem de Capanda na província de Malanje, aonde foi responsável pelo programa de controlo da qualidade.

Ainda em Angola, foi o responsável pela assinatura do contrato que deu lugar à construção do terminal de passageiros do Aeroporto Internacional da Catumbela, na província de Benguela e da duplicação da rodovia de acesso a Benguela, desde o quilómetro zero da Rodovia Benguela-Catengue até o início da cidade, uma estrada de aproximadamente 5 km. Vive fora do Brasil há 23 anos. Do seu curriculum consta trabalhos de engenharia civil realizados em países como Portugal, Brasil, Bolívia, Equador e Perú.

Na Odebrecht já desempenhou as funções de director de contratos, director técnico, responsável pela produção e responsável pelo controle da qualidade. Actualmente é director de Planeamento, Pessoas e Relações Institucionais da Odebrecht em Angola. Casado e pai de dois filhos, Marcus Fernandes diz ter-se tornado num bom apreciador da gastronomia angolana, principalmente do funje de bombom.

Não gosta muito de futebol, por isso, diz que a goleada sofrida pela selecção brasileira por 7-1 diante da Alemanha, no Mundial 2014, não lhe fez sofrer. Ainda assim, o engenheiro diz que tem simpatia pelos Clubes Bota Fogo do Rio de Janeiro e o Vitória da Bahia. Marcus Felipe de Aragão Fernandes fala três línguas: Português, inglês e espanhol. (semanarioeconomico.ao)

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