Manuel Neto da Costa, BDA: “Vamos reduzir o tempo de avaliação dos processos para 97 dias”

(Foto: Carlos Augusto)

Em entrevista exclusiva ao Semanário Económico, o PCA do Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), Manuel Neto da Costa, avançou que a instituição que dirige pretende avaliar os processos para financiamento em 97 dias. Em relação ao crédito, este responsável disse que ronda os 50 mil milhões de Kwanzas

Durante a conversa com o SE, no seu gabinete na antiga marginal de Luanda, antes do Fórum Empresarial do BDA que acontece hoje na capital angolana, Manuel Neto da Costa disse que o seguro agrícola é o instrumento que falta para uma maior segurança entre bancos e agricultores.

Qual é o objectivo da realização do Fórum do BDA que arranca hoje?

O objectivo da realização do Fórum consiste na troca de experiência do BDA ao longo de nove anos e que intervém no processo de diversificação da economia financiando projectos de investimento privado, sobretudo do sector não petrolífero. Queremos partilhar essas experiências, quer sejam negativas, quer sejam positivas, e demandar das autoridades com responsabilidade para isso a intervenção para remoção dos constrangimentos que tenham sido identificados. E, naquilo que é positivo, partilhar com os nossos parceiros.  Há também a ideia permitir aos clientes do banco manterem contacto de negócio pois o Fórum vai conter três elementos: um simpósio, uma mesa redonda e uma exposição que vai contar com cerca de 20 expositores.

Então será uma aproximação entre o banco e os clientes?

Vai haver a participação do banco, clientes e actores públicos e privados que têm intervenção na vida económica nacional e, entre eles, analistas e críticos. Por isso, contamos com autoridades políticas que definem a política económica, o sector financeiro – sobretudo os bancos como disse – analistas, estudantes, académicos, enfim, um universo variado de participantes. Portanto, será uma interacção entre o banco, clientes e a sociedade.

O Executivo aprovou quatro novas linhas de crédito para apoiar o empresariado angolano. Os recursos já estão disponíveis?

Essas linhas de crédito foram aprovadas no âmbito do financiamento indirecto do BDA à economia, pois o BDA tem uma modalidade que consiste no financiamento directo, através da qual concedemos crédito de forma directa aos financiadores que demandam este crédito. E, há a via indirecta em que o BDA abre linhas de crédito para a banca comercial que, por sua vez, concede créditos ao investidor final. Essas linhas, em princípio, estão destinadas para investidores médios com crédito até cinco milhões de dólares. Uma das linhas destina-se à agricultura, pecuária e pescas, a outra para a indústria transformadora, a terceira é para infraestruturas, e a quarta, destina-se ao comércio e serviço. Importa referir que concepção do crédito pelo BDA depende da manifestação de interesse por parte dos bancos, que depois assinam um acordo e, na base do acordo quadro, estabelece-se um limite do valor que os bancos comerciais devem levantar. Mas, a disponibilização de fundos depende da apresentação, por parte dos bancos, da lista dos projectos. Os projectos são avaliados, assim como os respectivos valores. Só depois é que acontece a disponibilização dos fundos. Neste momento, temos acordos de financiamento assinados com o Banco de Poupança e Crédito e com o Banco Sol, de tal modo que estes bancos deverão estar a trabalhar na avaliação dos projectos, para que, quando tiveram um número de processos aprovados, possam então vir levantar o dinheiro.

Os mutuários destas quatro linhas de crédito terão a possibilidade de beneficiar de garantia pública e uma taxa de juros bonificada, à semelhança do que acontece, por exemplo, com o Programa “Angola Investe”?

Os mutuários do BDA serão os bancos comerciais e os bancos comerciais negociaram livremente a taxa de juro com os seus clientes. A taxa de juro que o BDA vai praticar já é subsidiada pelo Estado. Repito, as taxas a definir pelos bancos serão livres, mas os clientes poderão depois negociar e beneficiar das facilidades de juros praticadas no âmbito do “Angola Investe” e que são na ordem de 5%. É, digamos, o acesso ao Fundo de Garantia de Crédito que cobre o risco até 70% do capital. Estes instrumentos estão alinhados de tal modo que devem ser complementares, refiro-me ao “Angola Investe” e às linhas de crédito do BDA.

O crédito malparado tem sido um sério problema para os bancos. A propósito, qual é o valor do crédito malparado? E que tratamento lhe será dado?

É realmente um problema que nos preocupa e tem merecido a nossa abordagem. Temos que conter a degradação desta carteira ao mesmo tempo que constituímos uma carteira sã. Por isso estamos a realizar acções de cobrança mas, como o desempenho desta carteira, na maior parte dos casos, resultou de processos de avaliação e projectos deficientes, demos início a um processo de reavaliação.

Se bem percebi, está a admitir que houve erro no processo inicial de avaliação?

Não diria erro. Os processos e procedimentos careciam de revisão. Essa é a verdade. As insuficiências que existiam nestes projectos, enfim, permitiam que nem sempre se acautela-se o risco. A revisão que estamos a fazer visa tornar mais criteriosa a nossa avaliação, quer do ponto de vista dos riscos, quer do ponto de vista da qualidade. É por isso que vamos reavaliar esses projectos no sentido de adequarmos os seus níveis de risco à realidade e, com base nisso, constituirmos as provisões que se impuserem. Portanto, pensamos que vamos estabilizar o ritmo de crescimento e os custos das provisões. Neste ano, por exemplo, o crédito bruto aumentou em 19%, mas o nível de provisões cresceu 111%. Portanto, isso revela a má qualidade desta carteira. Neste contexto, lançámos mãos à nova ferramenta de avaliação dos projectos de risco que vai permitir superar algumas dificuldades. É claro que os projectos nunca são perfeitos mas, com isto, vamos mitigar os riscos.

Qual é o valor do crédito concedido até agora?

Estamos com perto de 100 mil milhões de créditos.

Em função deste crédito quantos postos de trabalho foram criados?

Este é o outro problema que temos, a falta de obrigatoriedade dos clientes fornecerem informação sobre isso, mas estamos a trabalhar para a correcção. É com base nisso que o banco pode ter estatística para avaliar o desempenho, criação de emprego, comparar com aquilo que se antecipou e com o que aconteceu, assim como em termos de valor acrescentado bruto. Respondendo à sua pergunta: dizer que não lhe posso dar, dando, pois os mecanismos de controlo destes elementos só agora estão a ser implementados. Mas, o potencial de emprego em função dos projectos financiados ronda aos 15 mil postos de trabalho.

Com a actual crise, o BDA prevê diminuir os empréstimos -em valor e quantidade – principalmente agora que apenas aprovam investimentos acima de cinco milhões de dólares?

Não. O limite do crédito que o banco concede é acima de 500 milhões de Kwanzas, pois a estratégia do Executivo é de nós financiarmos só projectos estruturantes. Na verdade, na altura, 500 milhões de Kwanzas era equivalente a cinco milhões de dólares, portanto, essa é a política aprovada até 2017.

Na opinião de muitos especialistas que o objectivo de diversificação da economia angolana não foi atingido. Podemos dizer que o BDA também falhou, pois tem um papel decisivo neste processo?

Não é isso. A diversificação da economia é um processo que dura o seu tempo. Na verdade, a crise cria uma oportunidade, oportunidade essa que podemos considerar de ouro. Senão vejamos: senão importamos nada, nós Angola, teríamos que viver, vestir e nos alimentar, facto que nos obrigaria a produzir localmente. Então a redução de cambiais no país vai nos levar a suprir as deficiências com produção nacional. Todavia, é necessário que o mercado cambial se ajuste rapidamente.

O mercado informal contra a economia?

A taxa de câmbio do mercado formal deixou de ser relevante para a formação dos preços dos bens e serviços no mercado, pois quem demanda legitimamente divisas, para operações legítimas, não encontra.

O economista Alves da Rocha afirmou numa entrevista ao Semanário Económico que os empresários nacionais dependem muito de favores do Estado. Concorda com esta afirmação?

O Estado ainda é um grande consumidor. Por exemplo, o Estado tem os órgãos de defesa e segurança cujos efectivos precisam de calçado, de alimento, produtos de higiene e outros. O mesmo acontece com os serviços de saúde que precisam de materiais e as escolas que são fonte de demanda. Ora, há negócios que não foram viabilizados, pois algumas entidades públicas tinham como preferência importar.

A partir do momento em que a contratação é feita localmente isso vai criar oportunidade de negócio. As políticas das compras do Estado são relevantes para a diversificação da economia, isso pelo peso que o Estado ainda tem enquanto um consumidor.

 A ENSA e parceiros estudam para breve a implementação do seguro agrícola. Abrem-se aqui boas perspectivas para o BDA que, aliás, é essencialmente virado para o crédito para o sector agrícola?

Temos riscos que não é possível mitigar com provisões, portanto, os seguros são importantes. Associar, no negócio agrícola, nas contas do Estado, o seguro era um outro elemento em falta. É um instrumento que faz falta cujo anúncio vem em boa hora.

Há muitos empresários que se queixam de não obterem respostas do BDA às suas solicitações de crédito. Afinal o que se passa, senhor PCA?

Eu, pessoalmente, na altura em que assumi funções nesta instituição, em Novembro de 2013, encontrei processos que eram de 2008. Muito tempo. Por isso, temos vindo a efectuar reformas que nos permitiram uma revisão em todo o processo de crédito. Mas, como disse recentemente, temos que resolver ainda os furos existentes para depois voltarmos a encher o tambor. Ao mesmo tempo que fomos dando vazão aos processos, fomos igualmente fazendo a revisão, de tal modo que o ritmo de decisão foi reduzido. Ultrapassado que está este problema, vamos agora poder fazer uma avaliação adequada dos projectos e dos riscos de crédito para que possamos atender em tempo razoável. Da forma como o nosso processo está desenhado, a aprovação deve durar 97 dias, contando com o momento em que o cliente dá entrada e até à decisão final. Agora temos que trabalhar até chegarmos lá. Portanto, anteriormente os processos esperavam até 12 meses, mas encontrámos, como disse, processos de 2008. É muito tempo. Aqueles processos, com ideias válidas e que não estejam completos, vamos trabalhar com os clientes, mas aí deixa de contar. Esse é o nosso objectivo.

Pontualidade e serenidade

manuel neto da costa1A  entrevista que publicamos fica marcada pela pontualidade e pela serenidade demostrada pelo PCA do Banco de Desenvolvimento de Angola, Manuel Neto da Costa. Desde o primeiro contacto que a entrevista ficou agendada para as 15 horas. E, dito e feito: saímos de Talatona, onde se situam os escritórios do Semanário Económico, pouco depois das 14 horas e chegámos ao BDA, na marginal de Luanda, quando faltavam pouco menos de 10 minutos para as 15 horas, a hora marcada e a que teve início a entrevista. É obra, diga-se. Numa sala virada para a marginal de Luanda, fomos convidados a sentar e assim começou uma entrevista cujo pano de fundo foi o crédito concedido pelo BDA no processo de alavancagem da economia, “já demos muito apoio ao sector agrícola, o processo vai continuar, mas será melhor fiscalizado”, avançou. E sobre a diversificação, Manuel Neto da Costa não demorou em responder: “é um processo que leva o seu tempo, mas a crise pode ser decisiva. Pode ter um peso de ouro, sobretudo para nós”.

Ainda na senda da diversificação, o gestor parece gostar do tema. Aliás, não podia ser diferente, estando ele à frente do banco líder neste processo através da concessão de crédito aos sectores agrícola, das pescas e da pecuária. Enfim, a pessoa certa para abordar o tema. Para se criar um ambiente mais familiar, e até de negócio entre os clientes, o BDA realiza hoje um Fórum. Muito animado com a iniciativa, Manuel Neto da Costa acredita que, além da troca de experiências, será uma oportunidade para os clientes abrirem os seus horizontes e ouvirem sugestões de académicos e de críticos do sector económico.

Do seu gabinete virado para o mar, o gestor do BDA tem um sonho: reduzir o tempo de aprovação dos projectos e dar em 97 dias resposta aos empresários que querem saber se os seus projectos podem contar, ou não, com o financiamento do banco que dirige. Antes da realização deste desejo, o PCA do BDA quer tornar realidade o sonho de muitos empreendedores, cujas esperanças foram atiradas para o fundo do mar: “encontrámos processos que datam de 2008. Estamos a analisar, melhorar alguns e a aprovar. Vamos dar solução”, garantiu. Com essa promessa, colocámos um ponto final numa conversa que, pelo interesse suscitado, podia ter decorrido até ao cair da

Perfil :

Um quadro da economia

Nascido em Cabinda em 1964, o gestor principal do Banco de Desenvolvimento de Angola, Manuel Neto da Costa é Mestre em Assuntos Internacionais e Gestão de Políticas Económicas pela Universidade de Columbia, Nova Iorque, EUA, e licenciou-se em Economia pela Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto em 1989.

Em 2002 fez o curso de “Gestão Macroeconómica para Estabilidade Financeira e Redução da Pobreza” ministrado pelo Banco Mundial e Instituto de Pesquisas Económicas da Universidade de São Paulo, Brasil.

Dois anos antes, em 2000, concluiu o curso “Orçamento e Gestão Financeira no Sector Público” do Instituto Harvard de Desenvolvimento Internacional e Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, Cambridge, Massachusetts, EUA.

Da sua folha de formação consta ainda a conclusão, em 1998, do curso “Políticas para o Crescimento Económico em África” pelo Instituto de Desenvolvimento Económico Internacional do Banco Mundial, Fundação para Estudos Avançados do Desenvolvimento Internacional do Japão e Instituto de Gestão Macroeconómica e Financeira da África Oriental e Austral, Kadoma, Zimbabwe.

Em 1994, cursou “Gestão Macroeconómica para a Estabilização, Ajustamento Estrutural e Crescimento Económico” do Instituto de Desenvolvimento Económico do Banco Mundial, Instituto do Fundo Monetário Internacional e Instituto de Administração de Portugal, Lisboa, Portugal. (semanarioeconomico)

Por: Miguel Kitari

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