Lokua Kanza: “Minha maior preocupação com a nova geração reside nas músicas electrónicas”

(Foto: D.R.)
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Em entrevista exclu­siva ao Semanário Económico, revela que o furor das mú­sicas electrónicas e dance music feitas pela nova geração são suas maiores pre­ocupações, ao contrário de se cantar ou não na língua nacio­nal.

Enquanto músico, o que lhe vai a alma quando retorna aos lu­gares por si conhecidos?

É sempre uma honra. Acredito que as pessoas que vão aos nos­sos concertos não estão lá pela questão financeira. Elas estão ali porque amam o nosso tra­balho. E, quando isto acontece, pessoalmente, sinto-me agra­decido. Rever e conferir novos rostos torna o momento muito particular e especial.

Por já cá actuar, sente-se em casa?

Sem dúvida, estou em casa! Não posso negar que já fiz imensos concertos ao redor do mundo. Mas, actuar em Angola é muito especial por conta do carinho e da atenção que recebo do públi­co angolano.

Como avalia o consumo do jazz no continente africano?

A sua questão é muito perti­nente, pois julgamos que o Jazz não é tão popular no continente. Mas, de facto muitas estações de rádio preferem repercutir as músicas mais dançantes. E, assim, muitas pessoas esque­cem-se que o Jazz veio de raízes africanas. Tal como a música gospel. As bases do Jazz são as nossas raízes, mas claro que o estilo sofreu algumas trans­formações ao longo do tempo. Nas nossas aldeias, quer sejam angolanas ou congolesas, as músicas são muito fortes! Não me refiro que sejam fortes para tão-somente serem dançadas, mas muitas delas representam, por exemplo, o começo da vida. Acredito que, nós africanos es­tamos prontos para ouvir mais vezes Jazz. Mas, como é óbvio, é preciso que as oportunidades surjam para que se oiça mais. Julgo que Angola é um dos paí­ses que consome vários estilos de música.

Começou a ganhar visibilida­de fazendo coro para Youssou N’Dour e tocando para Ray Le­ma, Mano Dibango e Miriam Makeba. Acredita que estes primeiros trabalhos influen­ciaram na sua forma de cantar?

Sem dúvida alguma. Pois, quando tinha 13 anos de idade vi a Miriam Makeba a actuar em palco. Este momento marcou e mudou a minha visão sobre a música. Quando vi aquela mul­her a actuar, naquele momento decidi que queria fazer música como ela. Ela cantava música africana, mas trazia outras va­riantes. Era como se fosse uma casa cheia de flores diferentes, vindas de muitos outros luga­res. Eu sentia nela o espírito da música africana, mas também visualizei uma porta que estava aberta aos demais ritmos.

Suas músicas conquistaram um vasto mercado mundial. Países que desconhecem o lingala e o swahili, ouvem com entusias­mo suas músicas. No começou teve algum receio que isso não fosse possível?

Tratava-se da minha identi­ficação. Os americanos ou os chineses ouvem todo tipo de música. Mas, isto não significa que os meios de comunicação social tocam determinada mú­sica, apenas por ela ser comer­cial. Quando a música vem do coração, ela toca corações! E, quando cantamos músicas que as pessoas entendem, claro que isto pode ajudar nas relações humanas.

As suas músicas são uma fusão de jazz e música africana. Ou seja, você une a tradição musi­cal ocidental à música africana. Foi uma estratégia que adoptou para alargar o seu leque de pú­blico?

Não. Primeiramente, a música refere-se à arte. Não compon­ho ou faço músicas a pensar no que vai acontecer. Faço música a pensar no melhor que posso oferecer. Tento sempre elevar o nível do meu trabalho, ou seja, procuro melhorar a cada dia. Por exemplo, vemos Usain Bolt e não pensámos que todo o ja­maicano consegue correr qua­tro quarteirões em 12 segun­dos. Pois, para se ser o homem mais rápido do mundo temos que trabalhar para isso! Se que­res ser um bom músico, tens de trabalhar muito para que isso aconteça.

Apesar das inúmeras parcerias e duetos com músicos brasilei­ros, a música africana, naquele país e não só, ainda é associado à percussão. Para si, isto é um estereótipo criado pelo mundo Ocidental?

Isto é uma questão muito deli­cada. Mas, pode soar meio lo­uco o que vou afirmar… Não é habitual um japonês pergun­tar por que não se ouve a mú­sica do seu país de origem em Angola. Então, por que vamos questionar o facto de o Brasil não ouvir com frequência mú­sica africana?! Se eles amarem a nossa música, será óptimo, e se não, é perfeitamente normal. No Japão não tocam músicas do Mbanza Congo ou doutro lugar. Mas, se você quiser conquistar público naquele país, talvez de­vemos pensar diferente… É um processo que deve ser seguido para se atrair mais pessoas que não se resumam aos que estão ao seu redor.

Sendo assim, acredita que a música africana já é melhor aceite além-fronteiras?

Acredito que o nosso continente é incrível. África é um sonho de continente! Muitas pessoas querem consumir mais da mú­sica africanas, mas por vezes, tal como acontece connosco, as outras culturas não são fáceis de serem assimiladas. Por exemplo, imagina-me a ir ao Palanca e perguntar se conhe­cem um músico da Singapura. Certamente, dirão que não, mas também poderei encontrar uma ou duas pessoas que conhecem e que adoram a música daquele país. Ou seja, isto requer esfo­rço, agradar outras culturas não é uma tarefa fácil.

Acredita que seja importante para a nova geração dos músi­cos africanos cantarem nas lín­guas nacionais dos seus países de origem?

Pessoalmente, o idioma nunca me foi um problema. Por exem­plo, nós os dois somos africa­nos, mas estamos a comunicar-nos em inglês. E, ainda arrisco umas palavras em português. O idioma do meu país é o lingala, e se eu falar agora nessa língua não irá entender nada. Precisa­mos de um idioma para tornar a nossa comunicação compreen­sível. Por isso, o idioma nunca constituiu um problema. Ho­je, a minha maior preocupação com a nova geração reside nas músicas electrónicas e dance-music. Gosto desses estilos de música, porque fazem mexer todo o nosso corpo. Mas, não pode ser toda essa geração a fazer esses estilos de música. Também, precisamos de mú­sicas feitas do coração, da alma e que levem a nossa juventude a pensar e a criar. Músicas que elevem a auto-estima do nosso povo, pois essa é uma das nos­sas missões enquanto artistas. Temos que dar o nosso melhor. Muitas pessoas acham que fazer música implica comprar gran­des carros e ter mulheres lindas ao teu redor, mas isso está longe de ser verdade! Por exemplo, um estudante universitário que quer aprender e estar concen­trado, vai ficar pela kizomba ou por um músico que canta dombolo. Ele vai perguntar por Felipe Mukenga, Djavan ou Nat King Cole. Para as próximas ge­rações, precisamos de todas as dicas desse tipo de música. É importante fazer arte. Nos Es­tados Unidos da América (EUA) quando fazem dance-music, ela é feita de forma extremamente dedicada e profissional. É im­portante frisar que primeiro fa­zemos arte, não é uma piada! Seja qual for o seu estilo. Se for jazz, samba ou dance music é preciso ser feita de forma pro­fissional.

Em 1997 você afirmou a uma publicação brasileira que a ‘Música africana é o futuro’. Ainda pensa da mesma forma?

Definitivamente, mais do que nunca! Se ouvirmos com atenção a muitos hits norte-americanos vamos identifi­car muitos ritmos africanos. Se ouvirmos com atenção às músicas de Michael Jackson, também vamos reconhecer as nossas batidas. Algumas pes­soas não reconhecem por conta de todo o processo de mixagem e sonorização. O que afirmo não é pelo facto de ser africano. A música do nosso continente está a receber influências de outras, isto porque, antes, nunca teve outras oportunidades. O nosso continente tem muito para dar e compartilhar. Por isso, digo que a música africana é o futu­ro, incluindo a dance-music. Temos imensos talentos e todos são muito criativos. Num só país africano podem existir 20 estilos de música. Enquanto, na Euro­pa existe apenas Jazz, R&B, Hip Pop, Opera, e outras poucas. Por, isso África ainda tem muito para oferecer.

E, da música angolana, o que mais gosta?

Adoro os verdadeiros músicos. Quando somos artistas da mú­sica temos que introspectar a nossa arte. A música tem que vir do coração, para tocar as pessoas.

Quais seriam os cantores an­golanos com os quais gostaria fazer um dueto?

São tantos! Vocês têm músi­cos como a Irina Vasconcelos, Kyaku Kyadaff, Paulo Flores, Dodó Miranda… Tenho muitos amigos por cá, e adoro todos eles. São muito talentosos.

Quais são os seus próximos pro­jectos?

Estou em estúdio a gravar o meu sétimo álbum discográfico. Es­tou há dois anos em estúdio. Ele está a ser gravado em Paris. E vai ser do estilo groovy. (semanarioeconomico.ao)

Por: Magdala Azulay

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