José Manuel Durão Barroso: “Angola é vista de uma maneira especial”

(Foto: D.R.)
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A apresentação da revista Forbes e a participação na conferência sobre as perspectivas da economia angolana nos próximos 10 anos foram o pretexto para a presença no país, nos últimos dias, de José Manuel Durão Barroso, com quem OPAÍS conversou sobre a crise económica, a relação entre Angola e Portugal e com a União Europeia

Porque é que tem sido sempre tão optimista em relação ao futuro de Angola?

Por uma questão de perspectiva histórica de médio e longo prazo.

Angola é um país que conquistou recentemente a Independência, fez agora 40 anos, e é preciso não esquecer que só alcançou uma situação de paz e relativa tranquilidade em 2002, ou seja, é muito pouco tempo.

E precisamente eu, porque estive envolvido na procura da paz para Angola, nomeadamente através dos chamados Acordos de Bicesse, que viriam a dar a oportunidade para as primeiras eleições livres em Angola, recordo-me de ver Angola numa situação de quase destruição.

Um país completamente parado, em que não havia esperança em determinados sectores.

E Angola foi capaz de se erguer, se consolidar como país soberano e de crescer economicamente.

Hoje em dia Angola é uma das quatro maiores economias de África, a terceira economia da África subsariana.

É um país que tem, com certeza, grandes desafios pela frente, e dificuldades, mas se pusermos estas coisas numa perspectiva de médio prazo, pensando também no sofrimento extraordinário por que Angola já passou, temos razões para ser confiantes e não cair no pessimismo.

Pode explicar melhor?
Mais importante que ser optimista, ou pessimista é ser-se determinado.

Ter-se vontade de fazer as coisas e conseguir sucesso para os nossos países.

Por isso, porque já vi Angola em situações muito mais difíceis, é que tenho confiança, sinceramente, no futuro de Angola.

Angola vive um momento particular devido à baixa do preço de petróleo. Como pensa que será o país nos próximos 10 anos?

Eu acho, sinceramente, que é a oportunidade para finalmente Angola fazer aquilo que já se fala que deve ser feito: que é a diversificação da economia.

O petróleo, que tem sido uma das componentes essenciais do crescimento angolano, é, sem dúvidas, importante, e espero que continue a ser, mas tem tido um peso excessivo no conjunto do produto da produção angolana. Ora, Angola tem muitas mais possibilidades e potencialidades.

Junto ao petróleo, e também aproveitando a riqueza gerada por isso, foi possível desenvolver em Angola um sector de serviços que é importante e em muitos aspectos competitivo.

Desde a banca, as telecomunicações, a própria construção.

Mas outros sectores, como a agricultura, o agro-alimentar, industrial e a própria indústria continuam incipientes.

Como disse na minha conferência, hoje, crescimento e desenvolvimento normalmente andam juntos, mas a relação não é unívoca ou simples.

É possível Angola, com menos crescimento, porque não tem hoje o input tão importante do petróleo, ter mais desenvolvimento.

Ou seja, conseguir, através de uma diversificação maior da sua produção, gerar riqueza que atinja outras partes da sua população.

Progressivamente ir gerando uma classe média, desenvolver pequenas e médias empresas nos domínios industrial e agrícola e também investindo na educação.

Conseguir maiores competências da sua população para gerar riqueza.

Por isso, se isto der certo – e acho que há condições para dar certo -, Angola pode estar daqui a 10 anos melhor do que está hoje.

Mesmo admitindo que o preço do petróleo não vá voltar aos níveis que tinha antes da crise, porque vai gerar riqueza em sectores que até agora estavam sub-aproveitados.

E foi muito interessante o que se passou no debate organizado hoje pela Forbes África, porque vimos testemunhos concretos e não foram apenas conferências académicas. Vimos lições concretas de criação de riqueza a partir da agricultura angolana.

Angola hoje está excessivamente dependente de importações. Ora, dada a crise que há em termos de divisas, Angola não vai conseguir manter este ritmo de importações.

Portanto, a pressão para Angola investir mais nestes sectores que geram riqueza, como a agricultura, vai ser maior.

Pode ser que a crise, que é obviamente desagradável, seja quase que um mal que venha para o bem, na medida em que vai permitir que se explore o potencial de áreas económicas que até agora estão muito subaproveitadas. A agricultura, as condições naturais da produtividade agrícola angolana são fortíssimas. Angola já foi um dos maiores produtores mundiais, por exemplo em algumas áreas como o café. Depois, houve a guerra e uma situação em que muita população teve que abandonar o campo. Aliás, muita gente veio para Luanda. Com as condições de paz e tranquilidade, agora, sabendo investir com técnicas e técnicos adequados, Angola pode crescer de maneira mais equilibrada.

Disse em tempos que os africanos quando se referem a Angola fazem- no de maneira especial. Recorda- se?

Disse.

Como é que o resto do mundo, particularmente a Europa vê hoje Angola?

A minha experiência angolana dizme que Angola é vista de uma maneira especial.

Eu fui, como talvez saiba, secretário de Estado da Cooperação de Portugal durante seis anos.

Eu não estive apenas nos países de língua portuguesa.

Fui à República Democrática do Congo, que na altura se chamava Zaíre, ao Congo Brazaville, em toda a região da África do Sul, com e depois do apartheid.

Fui à Zâmbia, Zimbabwe, Tanzânia, Gabão, mais acima no Senegal, Benin, Quénia, Somália e Etiópia.

Estive em cerca de 25 países africanos e vi que Angola era olhada como um país africano que tinha também uma componente grande de ligação à Europa.

Pode especificar?

Quando houve aquele campeonato de juniores, em que Portugal ganhou na final contra a Nigéria foi muito curioso, porque de acordo com opiniões que tive na altura, pareceu que os angolanos estavam com Portugal e não com a Nigéria.

Quando o conjunto da África estava com a Nigéria.

O que mostra que o factor cultural e linguístico continua a ter um papel muito curioso.

Angola, presentemente foi candidata ao lugar de membro não permanente do Conselho de Segurança e teve um resultado melhor que algum país já teve.

É um bocado surpreendente porque estava a concorrer com países muito importantes como a Espanha e a Turquia.

Angola teve um resultado que alguma vez outro país teve.

O que mostra que Angola, que não é muito conhecida em alguns meios, talvez por ter uma posição muito equilibrada, sendo um país que se dá bem com os países da região, mas é um país que faz parte de dois sub-grupos regionais, nomeadamente da África Austral e, de certo modo, da África Central.

É um bocadinho o eixo de articulação. Enquanto a República Democrática do Congo e o Congo Brazaville fazem parte da África Central, a África do Sul da África Austral, Angola, de certa forma, faz parte dos dois espaços. Tem uma funcionalidade muito curiosa.

É membro da SADC, mas é hoje em dia considerada um país essencial para a África Central.

Angola tem uma ligação boa nos dois contextos regionais, é respeitada pelos países africanos, tem uma relação positiva com a Europa, excelentes relações com os Estados Unidos da América e com o mundo ocidental, mas mantém relações históricas com antigos países do chamado bloco socialista, desde a Rússia, China e até Cuba.

Isto leva a que tenha um good will diplomático que, se bem aproveitado, pode ser um trunfo importante.

Pela experiência que tem ao nível da diplomacia, passou pela presidência da Comissão Europeia, acha que há muitos países que não são amigos de Angola, porque hoje se fala muito em ingerências externas no país?

Esse é outro assunto. É preciso compreender que no mundo de hoje tudo está ligado a tudo.

Por isso, é perfeitamente normal que num país A as pessoas discutam o que se passam num país B.

Isso é normal. Os conceitos, hoje, de soberania, têm que se tratar neste contexto.

Veja o que se passa na Europa: na Alemanha discute-se o que se passa na Grécia e na Grécia o que se passa na Alemanha.

E às vezes em termos muito duros. Mas isso não quer dizer necessariamente ingerência nos assuntos internos.

Quer dizer que estamos todos ligados, no mundo de hoje.

É normal e deve ser visto com naturalidade que se expressem opiniões diferentes.

Eu acho que é um erro estarmos a dramatizar excessivamente quando alguém nos critica, porque numa sociedade aberta toda a gente é livre de criticar toda a gente.

Eu fui presidente da Comissão Europeia, por exemplo, em relação ao Parlamento Europeu alguns países ficam muito susceptíveis e muito magoados quando há algum comentário que venha do Parlamento Europeu que é negativo.

Bom, posso dizer que como presidente da Comissão Europeia fui talvez mais atacado pelo Parlamento Europeu do que qualquer um destes países.

Porque faz parte do debate pluralista e democrático haver as críticas e as acusações, às vezes injustas.

Mas o meu ponto é este: hoje em dia não podemos ter, na minha opinião, uma visão estreita e dogmática de soberania como valor absoluto.

Houve um exagero por parte do Executivo no debate com a eurodeputada socialista Ana Gomes?

Exactamente, não quero entrar nesta questão porque conheço susceptibilidades e não me vou pronunciar sobre isso.

O que estou a dizer, em tese geral, é que, para mim, Angola e Portugal são muito fundamentais um para o outro.

O senhor dizia, há um ano, que havia necessidade de uma “relação descomplexada” entre Angola e Portugal…

Exacto.

Já existe essa “relação descomplexada”?

Acho que vai existir.

Acho que aquilo que é fundamental para o povo português e o povo angolano é muito importante.

Há feridas do passado?

Claro que há. Houve uma situação colonial? Com certeza que houve.

E por isso é que compreendo uma susceptibilidade especial que existe de Angola a qualquer pronunciamento que venha de Portugal.

Ao mesmo tempo, acho que é importante que de ambos os lados – do lado angolano e do lado português – se tenha a inteligência e a sabedoria que aquilo que une o povo angolano e o povo português é muitíssimo forte, independentemente dos regimes ou dos partidos políticos, deste ou daquele deputado.

E é nesta perspectiva que sempre defendi as relações entre Portugal e Angola.

Quando eu era um jovem secretário de Estado de Portugal e queriam, por exemplo que o meu partido ou o Governo tomasse partido a favor de uma facção, sempre disse que o nosso interesse português é com Angola e com o Estado.

É a relação entre Estados, pôr os interesses entre os países acima das conjunturas político-partidárias.

É por isso que acho que não devo entrar nestas polémicas.

Faço apenas um apelo a todos, de um lado e do outro, que não procurem criar problemas entre o povo português e o povo angolano.

Porque é muito importante o que está em causa e é importante que haja uma cumplicidade cada vez maior entre Portugal e Angola.

Portugal na Europa, Angola em África.

Mas há interesses conjuntos. Nós, às vezes, somos olhados com grande inveja.

Angola e Portugal?

É. Há gente que diz: porquê que Angola vai investir em Portugal?

Por exemplo, nas relações de alguns países europeus e as ex-colónias não há o mesmo tipo de relação.

É muito diferente.

Não se vê as antigas colónias a investir nos países que eram os antigos colonizadores.

Hoje em dia temos entre Angola e Portugal uma relação muito mais equilibrada do que aquela que outros países europeus têm com países africanos que foram colonizados por eles.

Perfil

José Manuel Durão Barroso, 59 anos, é um político e professor português, ex- Presidente da Comissão Europeia, cargo que ocupou entre 2004 e 2014.

Em Portugal, foi subsecretário do Ministério dos Assuntos Internos, em 1985, e ministro dos Negócios Estrangeiros em 1992.

Entre 2002 e 2004 ocupou o cargo de primeiro-ministro da República Portuguesa.

A 23 de Novembro de 2004 Durão Barroso assumiu as funções de Presidente da Comissão Europeia, tendo sido reconduzido no cargo em Novembro de 2009, após ter sido reeleito pelo Parlamento Europeu a 16 de Setembro. (opais.ao)

Por: Dani Costa

 

 

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