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Jorge Baptista: “Pequenos empreendedores são marginalizados pela banca”
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Jorge Baptista: “Pequenos empreendedores são marginalizados pela banca”

(Foto: D.R.)

(Foto: D.R.)

O gestor afirma, por exemplo, que é preciso combater a “doutormania” que se está cultivar nos estudantes e passar-se para o bem fazer

O presidente da Associação dos Empreendedores de Angola (AEA), Jorge Baptista fala, entre outros assuntos, da relação dos empre­endedores com a banca, do fac­to de até aos dias de hoje, haver estudantes cujos sonhos é bater à porta do Estado após a forma­ção, em vez de criarem as suas empresas.

A lei de investimento diz que os negócios precários devem ser pa­ra os nacionais, mas na realidade são maioritariamente controla­dos pelos estrangeiros. Qual é o seu entendimento?

As leis só podem surtir os efeitos desejados se, para além da von­tade, existir o interesse prático de fomentar e incentivar os nacio­nais para o empreendedorismo. O sector informal cobre cerca de metade da população angolana e posso garantir que o negócio precário está dominado pelos ci­dadãos nacionais com volumes substanciais de movimentações comerciais, de onde advêm o garante do sustento das famílias. Posso afirmar que as condicio­nantes para que este movimento de empreendedores não seja visí­vel é sem dúvidas o acesso ao mi­cro crédito, serviços de apoio, ex­cesso de fiscalização e falta de po­líticas coesas e viáveis bem como espaços para trabalhar. As bar­reiras que desincentivam a for­malização das actividades é sem dúvidas a disponibilidade dessas pessoas em pagarem impostos. Sendo um sector que movimenta quase metade da população an­golana não nos esqueçamos que sobrevive muito com anuência das autoridades muito pelo factor social e por ser considerado como uma forma de combate à pobreza e exclusão social já que o Estado não encontra alternativas para a integração desses cidadãos em massa no sector formal.

Até aos nossos dias vê-se que os estudantes almejam terminar a formação para ingressar no apa­relho de Estado. Quer comentar?

É triste, mas é a pura realidade e penso que um país como o nos­so não depende de quadros su­periores e na maioria das vezes mal formados para garantirem o desenvolvimento e melhorar a competitividade de que necessi­tamos. A ‘doutormania’ que es­tamos a cultivar nesses cidadãos deve ser combatida com informa­ção competente e especializada. O país carece de técnicos especiali­zados e afinados para podermos colmatar as necessidades reais que nos afligem. A era pós- petro­lífera já começou e contudo temos tudo por fazer e o país precisa de técnicos especializados e não ex­clusivamente de licenciados sem nenhuma competência ou algu­ma especialização.

Acredita que as escolas superio­res poderiam trabalhar no senti­do de orientar os estudantes a se­rem potenciais empregadores em vez de potenciais empregados?

Sim, mas tudo depende daquilo que as escolas superiores têm co­mo objetivos, se é formar o que for necessário almejando os lucros ou se o ensino deve ser diferenciado e virado para o mercado e ao em­preendedorismo.

Como deve AEA ajudar neste sentido?

Temos feito o possível e o impos­sível, mas como é sabido, o Estado ainda não se apercebeu da impor­tância dos parceiros sociais. Te­mos alertado as autoridades sobre qual o melhor caminho para o país no capítulo do empreendedoris­mo, mas nem sempre somos tidos em conta, e mesmo discordando de acções que são feitas por enti­dades públicas e cujo resultado é o fracasso bem como o desperdício de fundos públicos prejudican­do assim etapas importantes do desenvolvimento do país. Mas, sendo o país uma responsabili­dade de todos continuaremos a exercer o nosso papel na expec­tativa de que um dia Angola possa ser mais empreendedora e o papel do Estado possa ser orientado para questões primordiais. Estou com isso a querer realçar a indefinição, a desorganização e multiplicidade entre as entidades públicas e pri­vadas com responsabilidades de apoio ao sector privado, e a ine­xistência ou mesmo a insuficiên­cia de programas de desenvolvi­mento ao sector privado Ango­lano e também de programas de suporte à capacitação e formação profissional, estágios profissionais de acordo com as necessidades do mercado e das empresas.

AEA tem parcerias com institui­ções de ensino?

Temos, infelizmente, com algu­mas estrangeiras. As nacionais quase que nunca demonstraram interesses em fazermos algo em conjunto, posso afirmar que pro­curamos falar com quase todas, mas não passou de intenções… Também temos programas espe­cíficos de formação para empre­endedores, programas compor­tamentais, e de formação técnico-profissionais bem como formação para executivos.

“Promover a formação de jovens e estimular o espírito de liderança e empresarial e participação do empreendedor do país” figura-se entre os objectivos da Associação. Quantos jovens a AEA formou desde que foi fundada?

Sim é o nosso mais nobre objeti­vo e contudo temos feito através das Tertúlias (reunião de mais ou menos regular) da AEA, seminá­rios, reuniões, palestras e visitas guiadas a empresas e projetos no território nacional.

Têm o registo de quantos che­garam a criar o seu negócio, dos formados?

Se analisarmos a pergunta que me faz num prisma real tenho a dizer que para criar o seu próprio negócios não é necessário estar formado e se esperar se formação superior para ter seu próprio ne­gócio então esse empreendedor pode correr sérios riscos de ter um negócio fracassado, a forma­ção trás competências, mas não é a base para ser empreendedor. E em Angola são raros os casos de licenciados que aplicam a sua formação para o mundo dos ne­gócios e quando o fazem nor­malmente exercem actividades comerciais diferentes daquilo por que se formaram.

Este jornal divulga regularmente histórias de pequenos empre­sários. Muitos deles começaram os seus negócios com sete mil kwanzas, e outros ainda com menos. Nesta fase, ainda é pos­sível começar um negócio com estes valores?

Claro que sim, mesmo com me­nos valor é possível começar­mos o nosso negócio desde que tenhamos foco naquilo que pre­tendemos fazer, saber aquilo que queremos tudo depende da von­tade e da determinação de cada um, o nosso país é uma nação de oportunidades onde quase tudo se vende e quase tudo se precisa sem esquecermos que quase nada produzimos e somos autos-sufi­cientes. Dai começar um negócio pode ser até vender rebuçados mas, precisamos estar bem pre­parados para os problemas em torno do mundo dos negócios que são muitos.

A AEA tem as portas abertas para as receber e dar as respectivas instruções?

Sempre e posso afirmar que o fi­zemos frequentemente sem fins lucrativos, penso que devemos passar a experiência a quem ne­cessite mesmo que esta pessoa não tenha como pagar algo em troca.

Como encara a relação entre a banca e os pequenos empreen­dedores?

Não podemos encarar somente a relação entre a banca e os peque­nos empreendedores, o pilar do desenvolvimento económico de Angola passa pelo sector priva­do onde são identificados vários constrangimentos que passo a referir nomeadamente transpor­tes, eletricidade, acesso ao cré­dito e taxas de juros aplicadas ao dimensionamento do mercado, mercado de trabalho e recursos humanos justificados, impostos, infraestruturas, burocracia, pro­priedade de terras, entre outros. O acesso ao crédito é um constran­gimento transversal em todo ter­ritório nacional e posso destacar alguns factores: O sistema garan­tístico é avesso ao risco com obri­gações de garantias reais acima dos 100 por centos do valor solici­tado. O sistema financeiro precisa urgentemente de inovação e dei­xar de ser conservador, produtos são maioritariamente tradicionais e os juros muito elevados. Acabar com a concentração oligopolística do sector bancário, os pequenos empreendedores são marginali­zados pela banca e são pouco exi­gentes quanto ao sector.

Em 2011, a AEA promoveu em Luanda um fórum denominado “Promover capacidade empre­endedora em Angola”. Na oca­sião, o senhor defendeu a criação de um fundo de risco de apoio à classe empreendedora e de uma incubadora de produtos e ser­viços inovadores nacionais por parte do Estado. O Estado acolheu a sugestão?

Como frisei anteriormente infe­lizmente não há concertação en­tre o sector público e o privado.

O INAPEM tem estado a criar incubadoras para empreende­dores. Acha que é resultado do trabalho da AEA com os seus par­ceiros? Alías, a AEA tem parceria com o INAPEM?

Infelizmente, lançamos as pedras e outros tentam fazer o nosso pensamento. Assuntos do INA­PEM sou eles podem responder e cabe aos senhores e a sociedade avaliar o seu desempenho.

“Estamos a preparar novida­des para novos empreende­dores”

Segundo consta, em 2011 a AEA promoveu um troféu para pre­miar a classe e previa realizar workshop internacional para captação de interesses e de em­preendedores na cidade do Porto, em Portugal, em parceria com empresários angolanos. Passa­dos quatro anos, que resultados podem ser apontados?

Naquilo que temos desenvolvido podemos augurar bons resulta­dos. Continuamos a promover o ambiente de negócios para Angola com ações práticas todos os dias. Não obstante a crise financeira que vivemos, acreditamos em dias melhores e também estamos a preparar novidades para novos empreendedores, um projeto que pensamos poder a vir a ajudar vá­rios empreendedores em Angola.

Nesse mesmo ano, a Associação já contava com 350 associados e era vossa pretensão atingir uma cifra de cinco mil membros. Quantos são até a presente data?

Estamos na casa dos 1000 e pen­samos que podemos crescer se o estado repassar responsabilidades que assume ao sector privado e as associações.

Entre a AEA e Didáxis, coopera­tiva de ensino de Portugal pesa uma sinergia de esforços para que Angola e Portugal estejam mais perto na educação e no empre­endedorismo. Em que passo está este desafio?

A Didáxis pretende abrir aqui uma escola. De salientar que é a maior cooperativa de ensino privada de Portugal, mas questões ligadas a burocracia, o projeto ainda nem sequer arrancou.

Numa mesa redonda na Univer­sidade Independente de Angola, o senhor foi desafiado a revelar a sua ideia, depois de falar das 10 ideias que revolucionaram o mundo. Em resposta, o senhor disse que se considerava o pai do empreendedorismo em Angola. Quer defender?

Sim me considero porque fui o pioneiro a trazer a necessidade do empreendedorismo em Angola. Não conheço outro registo sobre o assunto estou a falar de vir a fa­lar da necessidade de transformar Angola num país empreendedor a cerca de 13 anos atrás na altura fa­zia parte de uma organização ju­venil partidária e mesmo levando a ideia as pessoas achavam piada no termo “ Empreendedorismo” e mal sabiam pronunciar a fra­se. Fui persistente e as primeiras acções foram feitas por mim, dai que me considero o idealista da transformação da ideia que existia uma diferença entre empresários e empreendedores.

Que projectos a Associação tem em carteira, para os próximos tempos?

Vários e inovadores, não paramos de inovar e de projectar novos de­safios. Como vivemos numa so­ciedade onde muitos vivem rou­bando as ideias dos outros prefiro não descrever o que vamos fazer, mas no momento oportuno sa­berão. (semanarioeconomico.ao)

Por: Camilo Lemos

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