Futuro indefinido do “Crédito Formação” na Universidade de Belas

(Foto: D.R.)
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Eufrazina Neto (Foto: D.R.)

A Universidade de Belas é a única Instituição de Ensino Superior que instituiu o sistema de Crédito Formação para os estudantes carenciados. Neste ano, 819 estudantes encontram-se a estudar nestas condições, um benefício que os próximos estudantes podem não vir a ter devido à crise

Em entrevista ao SE, a Vice-reitora da Universidade de Belas (UNIBELAS) para área académica, Eufrazina Mouzinho Neto Zau, fala do futuro do Crédito Formação e analisa os problemas que têm causado assimetrias entre estudantes e técnicos das universidades. Segundo esta responsável, a Universidade tem um universo de 3.020 estudantes dos quais 620 frequentam o primeiro ano e 316 são bolseiros do Instituto de Bolsas de Estudo de Angola (INABE).

A UNIBELAS é a única universidade que adoptou o Crédito Formação. Quantos estudantes se formaram nestas condições e quantos estão a beneficiar deste crédito?

Neste momento temos um total de 819 estudantes em crédito de formação. Desse número 428 estão no sistema de crédito a 100% e 391 estão a 50%. Quando o INABE abriu as bolsas internas em 2008, nós apanhamos as províncias do Sul, Cuanza-Sul, Huambo e algumas do Norte, para trazer os jovens cá e candidatarem-se às bolsas do INABE.

E…

Fizemos este trabalho. Mas nem todos foram absolvidos pelo INABE. No primeiro ano, o INABE absolveu uma parte e alguns não conseguiram. Entretanto, para que eles não regressassem às suas províncias e parassem de estudar, a entidade promotora e a reitoria da universidade tomaram a decisão de mantê-los aqui a estudarem para voltarem a candidatar-se nos anos seguintes. Tudo aconteceu, mas nem por isso todos foram absolvidos. Aqueles que não foram absolvidos mantiveram-se aqui a estudar já no sistema de Crédito Formação de uma maneira não oficial e abrangente a todos os estudantes.

E quantos foram na altura?

Não lhe posso precisar neste momento porque não tive o cuidado de tomar nota do registo, mas permita-me dizer que, depois daquela fase, estendeu-se o Crédito Formação a todos os jovens carenciados, aqueles que demonstravam vontade de estudar mas que não tinham possibilidade de pagar a formação. Só que, desta vez, alguns a 50% do valor da propina para pagar os outros 50 % após a formação e, outros, a 100%, o que quer dizer que não pagam nada até terminarem a formação.

Temos registos de estudantes que, após a formação, não chegaram a amortizar o crédito?

Não. Até porque não têm como porque os estudantes assinam um termo de responsabilidade. Nestes casos cativamos a documentação do estudante.

A crise económica não compro­mete a continuidade do Crédito Formação?

De certeza que compromete, apesar de termos estudantes que pagam 50% das propinas. Para o próximo ano, nós apresentamos uma proposta à promotoria sobre o cancelamento ou não do Crédito de Formação. Entretanto caberá à promotoria decidir se vamos con­tinuar ou não.

Está a dizer que vão cancelar o Crédito Formação para os que já aderiram?

Não. Propusemo-nos a dar Crédi­to Formação e sabemos que se os estudantes aderiram é porque não têm condições de pagar. Entre­tanto, não temos como dizer que a partir de hoje vão ter que pagar. Vamos chegar até ao fim com os estudantes que já estão no sistema de Crédito Formação.

E então?

Referimo-nos aos novos estudan­tes que quererão aderir no pró­ximo ano. Como disse, ainda está em análise.

Mas, vão ou não dar crédito?

A iniciativa da criação do Crédito Formação foi da promotoria então, somente ela vai decidir. Os que es­tão já dentro do sistema continu­am mas, quanto ao próximo ano, ainda não temos nada adiantar.

A UNIBELAS não tem accionis­tas. Que estratégia vai imple­mentar para garantir a continui­dade dos créditos e o seu pleno funcionamento?

Temos estado a estudar, a anali­sar e a procurar soluções. Acredito que não somos os únicos a res­sentir os efeitos da crise. Todas as instituições, não só as de ensino, estão a viver o peso da crise. Cada uma procura solucionar conforme lhe for possível. Então nós temos estado a estudar e, só depois, va­mos tomar as devidas soluções. De momento, ainda não lhe posso adiantar nada.

Hoje, o que se espera dos estu­dantes é que, após a formação, sejam potenciais empregadores mais do que potenciais empre­gados. Como tem a universidade procedido em termos de orien­tação profissional dos estudantes – que, aliás, precisam criar em­prego para liquidar o crédito?

Claro que a universidade não é a única fonte da promotoria. Muitos estudantes após a formação foram absolvidos e começaram a traba­lhar aqui mesmo e foram amor­tizando as suas dívidas. Alguns já terminaram e outros continuam a pagar. Não temos uma área própria de orientação profissional. Isto cai­ria mais para os nossos estudantes da área de gestão porque o curso é direccionado já nesse sentido.

Quantos estudantes foram absol­vidos?

Bem, não posso precisar porque não tenho aqui estes dados, mas alguns são docentes e outros tra­balham na área administrativa.

Não acha que ao adoptar o Cré­dito Formação a universidade poderia criar incubadoras de em­preendedorismo?

Nós já participamos em alguns eventos dessa natureza. Conside­ramos ser um projecto a ter em consideração.

O presidente da Associação dos Empreendedores de Angola re­clamou recentemente da falta de interesse por parte de algumas universidades em criar parcerias. A UNIBELAS foi já alguma vez solicitada?

Que eu saiba não. Recebemos apelos em determinados encon­tros em que participamos, mas um convite direccionado à UNIBE­LAS, que eu me lembre, não. Em tempos apareceu o INAPEM (Ins­tituto Nacional de Apoio às Micro, Pequenas e Médias Empresas) e visitou-nos para um encontro com estudantes sobre o empre­endedorismo. Parceria como tal ainda não, mas aguardamos.

E em que pé ficou o encontro do INAPEM com os estudantes?

Foi uma palestra dirigida aos es­tudantes e visava o incentivo ao empreendedorismo.

Muitos estudantes reclamam de falta de qualidade por parte de alguns professores na transmis­são de conhecimentos. A reitoria da UNIBELAS já recebeu recla­mações do género?

Os estudantes nunca deixam de reclamar, até dos bons professo­res eles reclamam. Só para lhe dar um exemplo: nós tivemos casos de reclamações de estudantes porque o docente mandou fazer um trabalho de pesquisa. Quer dizer que o estudante reclama de tudo e nós nem sempre nos in­clinamos na reclamação do estu­dante. Aliás, nós acompanhamos directamente o trabalho dos nos­sos docentes. Só para lhe dar outro exemplo: estamos a fazer visitas às aulas dos docentes e dessa ma­neira acredito que conseguimos verificar in loco os factos. No ensi­no superior temos as diárias pro­fissionais que muitas vezes não têm agregação pedagógica e que muitas vezes aprendem na práti­ca e, em geral, é que apresentam algumas dificuldades.

E como avalia essa reclamação dos estudantes sobre o trabalho de investigação científica?

Penso ser alguma preguiça. Ele sa­be que para o trabalho de pesquisa vai ter que se deslocar, buscar ele­mentos e, às vezes, no primeiro ano da universidade o estudante vem com a ideia que o trabalho só será feito na sala de aula. Quando se confronta com outra realidade, faz um pouco de algazarra para ver se o professor desiste da ideia, o que é negativo. No ensino su­perior o que se pretende é que os estudantes investiguem.

Os estudantes queixam-se ainda da falta de profissionalismo por parte do pessoal administrativo e asseguram que essa é a razão que está a levar a que muitos deles se sintam insatisfeitos com os serviços que as universidades oferecerem. O que dizer da UNI­BELAS?

Como disse as reclamações sem­pre existem até das coisas que se fazem para o bem. Costuma-se dizer que o ser humano não é perfeito. É passível de haver bons atendimentos nalguns dias e maus noutros dias. Mas, o que nós fazemos é criar mecanismos de preparar o nosso pessoal. Damos pequenas formações em técnicas de atendimento.

Tem resultado?

Sim. Porque, de contrário, não contamos com eles.

Alguns trabalhadores queixam-se de salários baixos e que, mui­tas vezes, recebem tardiamente. E, acreditam que este desiderato está na base dos problemas da má qualidade de ensino por parte de algumas universidades. Quer co­mentar?

Posso adiantar que na nossa ins­tituição não há salários em atraso.

O problema do desaparecimento das notas é outro assunto tam­bém referido pelos estudantes. Qual é a realidade da UNIBE­LAS?

Estamos constantemente a nos rever para podermos prestar me­lhores serviços. Temos um siste­ma informático, as pautas que afi­xamos não são únicas porquanto temos sempre os duplicados nas coordenações dos cursos onde a direcção académica tem acesso a elas. Portanto, não temos como as notas desaparecerem.

Segundo apurou este jornal, as pautas são afixadas ao ar livre, o que permite a qualquer estu­dante rasgar a folha quando se sente insatisfeito com o resulta­do. Que soluções estão previstas para contornar essa situação?

Temos as nossas vitrinas, mas co­mo temos muitas turmas vimos a necessidade de afixar noutro lu­gar. Como disse as que afixamos não são as únicas.

A biblioteca da universidade está com limitação de computa­dores e acesso à internet. Como andam os trabalhos de investi­gação científica na universida­de?

Não temos um centro de inves­tigação científica como tal mas, temos prevista a implementação do nosso centro de investigação científica. Nesta fase da crise aca­bamos por recuar um pouco por questões financeiras. Enquanto demora temos estado a realizar frequentemente jornadas cien­tíficas.

Mas há previsão de se reaver a internet?

O lugar que nos situamos não fa­cilita muito o acesso à internet. Há sempre quedas de sinal, mas nós estamos para sair daqui. Temos a previsão do novo campus univer­sitário e, aí então teremos outras condições.

Está para quando?

Ainda não posso avançar a data.

Como é que a universidade está em termos de laboratórios?

Temos 15 laboratórios funcionais na área da saúde e engenharia, nomeadamente, o laboratório de medicina dentária, o de anatomia, o de fototerapia, o de biologia, o de pediatria, o de física e química, o de informática, o de sistemas di­gitais e informação e o de campos de petróleo, entre outros.

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