Eleutério Sanches: Tenho saudades da minha Luanda, do meu povo e das ‘Bessanganas’

Eleutério Sanches (Foto: José Valentim Peixe)

Há 17 anos que não estava com o meu amigo Eleutério Sanches. Soube que estava doente e decidi ir até Benfica (periferia de Lisboa), para festejar os seus 80 anos, feitos no dia 29 de Setembro (18 dias depois do aniversário dos 40 anos de independência da República Popular de Angola). Na sua casa fui recebido com um “Kandandu” do tamanho da baía de Luanda. Choramos de alegria.

Respirava-se africanidade. Ouviu-se a Serenata Luanda II, sobretudo a “Muxiluanda” e recordou-se a voz fabulosa da sua mana Lilly Tchiumba (Maria Olívia).

Eleutério Sanches (Foto: José Valentim Peixe)
Eleutério Sanches (Foto: José Valentim Peixe)

Eleutério Sanches é talvez o artista angolano que melhor domina a cultura “Axiluanda”. Para além de pintor, cantor, declamador e escultor, Eleutério com a sua aparente “mangonha” e serenidade de um velho imbomdeiro, continua a tocar violão como ninguém e a escrever poesia única sobre Luanda e Angola. A ilha de Luanda, o mar, os pescadores e as “Bessanganas” fazem parte do seu sangue e a “kizomba” marca o pulsar do coração do artista.

Portal de Angola – Numa altura em que se assinalam os 40 anos de independência de Angola, o Eleutério tem alguma mensagem especial que gostaria de assinalar sobre este momento histórico?

Eleutério Sanches – Quero dar um abraço fraterno a todos os cidadãos angolanos por estes 40 anos de liberdade em Angola. Numa altura em que eu mesmo já fiz 80 anos, quero dizer que Angola vai afirmar-se como um dos países mais prósperos do século XXI. Sei que ainda falta fazer muita coisa no meu país, mas Angola está no bom caminho.

P.A – Saudades de Angola existem?

E.S – Muitas. Tenho imensas saudades da cidade de Luanda e da ilha. Do meu povo, da terra avermelhada, dos pescadores e das bessanganas. Tenho saudades de rever amigos e dos aromas de um país que está impregnado dentro do meu ser. Saudades do mar e dos coloridos da frutas. Do sorriso dos meninos e do olhar dos artesãos que esculpem troncos de pau-preto. Saudades da minha gente.

P.A – Na sua casa moram falas, mãos e pés, tambores musculados e respira-se cores de Angola. Dá para perceber que alguns projectos estão em andamento. O que está a preparar neste momento?

E.S – Estou a trabalhar numa exposição que gostava de fazer no próximo ano em Portugal e em Angola. Uma exposição que consiga juntar a pintura com a música e a poesia. Gostava de concretizar este projecto mas não sei se terei força para o concluir. Trabalho todos os dias para tentar concluir algumas pinturas e vou escrevendo poemas para depois serem musicados pelo meu irmão Carlos. Ou seja, gostava que se organizasse um grande concerto que reunisse vários cantores portugueses e angolanos. Que fosse um dia de festa luso-angolana.

Eleutério Sanches (Foto: José Valentim Peixe)
Eleutério Sanches (Foto: José Valentim Peixe)

Aproveitando esta deixa, o pintor Eleutério Sanches pede para declamar um poema e depois põe um CD de música do angolano Mário Gama, intitulado “O meu peregrinar”. E a conversa prossegue.

P.A – Mas o Eleutério já tem apoios para essa exposição e esse concerto que o faz escrever e sonhar?

E.S – Primeiro quero concluir os trabalhos de pintura e só depois envidarei esforços no sentido de conseguir apoios para levar por diante esse meu sonho. Tenho amigos que estão dispostos a ajudar-me na procura acertada desses apoios e só espero que consigamos fazer essa exposição e esse concerto que ficará na história da cultura angolana.

P.A – Quais é o segredo para chegar aos 80 anos com toda essa energia e pujança, para “atacar” as telas com toda essa energia jovial?

E.S – O segredo é simples. Baseia-se no amor incondicional que eu tenho a Angola e sobretudo a Luanda. Todos os dias sonho com a baía de Luanda e com os pescadores da ilha. E é esta mística que faz com que eu não quebre o ritmo.

Para concluir aqui fica um dos poemas de Eleutério Sanches dedicado a Luanda:

Luanda

Da fortaleza em penhor

Na expressão de uma aguarela

Que o artista com fervor

Magestosa e bela

Luanda

Debruçada sobre o mar

Onde as ondas uma a uma

Vêm desfazer-se em espuma

À tua ilha beijar

Luanda

Do batuque pela noitinha

E as acácias em flor

És tu Luanda a Rainha

Senhora do meu amor.

 

Por José Valentim Peixe

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