Economia 100 Makas: Quem avisa, amigo é!

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

Como sugere o FMI, a manter-se a actual pressão sobre a moeda nacional, o banco central precisa de deixar desvalorizar mais o kwanza reduzindo o diferencial face ao mercado informal.

O kwanza está entre 10% e 30% mais forte do que devia. O alerta é do Fundo Monetário Internacional (FMI) e vem expresso no relatório relativo às consultas do artigo IV com Angola.

Admitindo que a instituição de Washington está correcta, as contas do Expansão apontam para uma taxa de câmbio no intervalo 150-175 Kz por USD, em vez dos actuais 135 Kz por USD.

Embora reconheçam que os intervalos de confiança dos resultados a que chegaram são em geral muito grandes – a ponto de não se poder descartar a conclusão contrária, isto é, que o Kz está mais fraco do que devia -, os técnicos do FMI acreditam que a moeda nacional está mesmo sobrevalorizada porque todos os modelos utilizados apontam nesse sentido.

“Os desequilíbrios no mercado cambial persistem”, garante o FMI dando como exemplo o diferencial entre taxas de câmbio no mercado paralelo e oficial que aumentou “de cerca de 15%, em Setembro de 2014, para aproximadamente 65%, no início de Outubro de 2015”.

Tudo indica que a desvalorização de quase 30% do kwanza face ao dólar no último ano não foi suficiente.

A ‘culpa’ é do Banco Nacional de Angola (BNA), que “utilizou as reservas internacionais para atenuar a desvalorização”.

A descida do preço do petróleo, praticamente a única fonte de angariação de divisas, diminuiu consideravelmente a oferta de dólares enquanto a procura se manteve forte.

Num regime de câmbios livre, o kwanza desvalorizaria até ao ponto em que a oferta e a procura voltassem a equilibrar-se. Num regime de câmbios administrado como é o angolano, a moeda não desvaloriza tanto mas em contrapartida o País perde reservas.

A resistência do BNA em desvalorizar ainda mais o kwanza tem que ver com receios inflacionistas, sendo que a tarefa do banco central é a estabilidade dos preços. Os receios são fundados.

“Através” da desvalorização do kwanza, a inflação homóloga praticamente vai duplicar de 7,5% em Dezembro de 2014 para 13,8% no final deste ano. A boa notícia é que os efeitos nocivos da queda do kwanza sobre o ritmo de crescimento dos preços parece estar a diminuir, devido, “provavelmente, à desdolarização da economia”. De acordo com o fundo, no período 2005-2010, uma desvalorização de 1% do Kz conduziu a um aumento de 0,63% no índice de preços, percentagem que diminuiu para 0,49% no período 2008-2015 e 0,34% entre 2011-2015.

Embora compreenda os receios inflacionistas do BNA, sou adepto de uma maior desvalorização do Kwanza.

O kwanza forte torna os produtos estrangeiros mais baratos em moeda nacional e os produtos nacionais mais caros em moeda estrangeira. Isso favorece as importações e prejudica as exportações.

No caso de Angola, os efeitos nocivos da apreciação do kwanza nas exportações não são importantes. O raciocínio é simples. Angola exporta praticamente um único produto, o petróleo, cujo preço é fixado internacionalmente. Assim sendo, eventuais apreciações do kwanza não aquecem nem arrefecem as exportações angolanas.

Como exporta um único produto cujo preço não depende do valor do kwanza, Angola não fica a perder no mercado externo. Contudo, o mesmo não acontece no mercado interno. Os produtos feitos em Angola concorrem com os produtos estrangeiros no mercado nacional. O que quer dizer que o kwanza forte torna os produtos estrangeiros mais baratos em moeda nacional, prejudicando a produção nacional e com ela a diversificação da economia.

Se este argumento não é suficiente para convencer os adeptos do kwanza forte a aceitar um kwanza mais fraco, temos outro, o do desemprego.

A curva de Phillips, desenvolvida pelo neozelandês William Phillips, ensina-nos que, no curto prazo, existe um trade-off entre inflação e desemprego. Em termos simples isso quer dizer que para termos mais emprego no curto prazo temos de aceitar mais inflação e vice-versa.

Parece-me ser esta a situação em que se encontra a economia angolana. Como referi, ao tornar os produtos estrangeiros mais caros, um kwanza mais fraco abre oportunidades de investimento ao feito em Angola. Mais investimento gera mais emprego.

Há seis anos, aquando do choque petrolífero de 2008, o banco central resistiu em desvalorizar o kwanza e só o fez obrigado pelo FMI, que condicionou o empréstimo de ajuda à balança de pagamentos de Angola à desvalorização do kwanza.

Desta vez, o BNA já deixou o kwanza desvalorizar quase 30%. É um progresso mas não chega. A manter-se a actual pressão sobre a moeda nacional, o banco central precisa de deixar desvalorizar mais o kwanza reduzindo o diferencial face ao mercado informal. Sob pena de a situação se tornar insuportável. (expansao.ao)

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