Dionísio Rocha: “Foram os maus tratos que causaram a revolta contra os colonos”

O artista Dionísio Rocha (Foto: Angop)

Os músicos Prado Paim e Dionísio Rocha afirmaram ao Jornal de Angola que foram os maus tratos e a repressão infligidos pelos colonialistas que levaram os angolanos a pegar em armas para conquistar a Independência Nacional.

“O povo angolano sofreu na mão dos colonialistas. Éramos espancados, as rusgas eram feitas de manhã cedo ou à tardinha e, quando não aguentávamos o sofrimento, a solução era fugir para não sermos massacrados”, disse Prado Paim, 73 anos.
O autor de “Bartolomeu” acrescentou: “Os colonialistas arranjavam sempre formas de nos prender e cobrar o imposto mínimo. O cartão de serviço tinha de ser assinado todos os dias pelo patrão ou éramos presos imediatamente. Mas isso tornou-nos homens fortes.”
Dionísio Rocha, 70 anos, recordou que “os indígenas, como eram chamados os naturais da terra, foram muito discriminados pelos colonialistas” e referiu também a obrigatoriedade do pagamento do imposto.
“Para deixarem de ser tratados dessa forma, tinham de estudar e o estudo era a dobrar em relação aos colonos”, disse. “Tínhamos de fazer a primeira classe atrasada, a primeira classe adiantada, assim sucessivamente. Na escola, tínhamos a obrigação de conhecer toda a História de Portugal”.
Para serem admitidos na função pública os angolanos “eram obrigados a assinar uma declaração, designada 2003, em que se comprometiam a votar no Governo de Salazar sempre que as eleições fossem realizadas. O nosso voto era válido a dobrar”.

Actos discriminatórios

Natural de Benguela, Dionísio Rocha, que veio para Luanda em 1957, lembrou que os angolanos estavam confinados, sobretudo, nos musseques, onde, por serem a maioria dos clientes dos comerciantes brancos, tinham uma relação mais próxima com estes. “Mas, no centro da cidade, éramos discriminados. Eu apanhei nas mãos do branco”, disse.
Dionísio Rocha narrou um episódio ocorrido na praia: “Eu e os meus amigos tínhamos o hábito de, todos os domingos, irmos dar um mergulho junto à Marinha de Guerra, na Ilha de Luanda. Esse local era muito frequentado pelos jovens do Bairro Operário e Marçal, como os músicos Bonga, Murimba Show e o Morgado. Num belo domingo, decidi ir para a Floresta da Ilha, zona dominada pelos colonos. Quando me apanharam a fazer praia naquele local, fui expulso a pontapé”.
Prado Paim acrescentou que, após os ataques realizados por nacionalistas às cadeias de Luanda, a 4 de Fevereiro de 1961, “os moradores do Sambizanga, Cazenga e Rangel foram muito massacrados, porque os colonos achavam que os terroristas estavam concentrados nesses bairros”.
Diante dos maus tratos, aumentava o sentimento de revolta. “Sempre que um compatriota fosse maltratado, os colonos recebiam o troco”, disse Dionísio Rocha. “Ainda me lembro de alguns amigos que foram ao bar América, no São Paulo, abriram as torneiras dos lavatórios, taparam o sifão e passados alguns minutos a casa de banho estava toda alagada. Quando os colonialistas se aperceberam quem ­tinha feito aquilo, agrediram-nos”.  Para ele, “o início da Luta de Libertação Nacional não foi surpresa para nós por causa das marcas causadas pelos colonos”, afirmação com que corroborou Prado Paim: “O sofrimento era tanto que tínhamos de reagir a qualquer momento. Tivemos de nos preparar para avançarmos na luta contra os colonialistas e conquistarmos a independência”.

Resistência pela música

Antes ainda da luta armada, uma das formas de resistência foi a música. Dionísio Rocha frisou que esse movimento começou muito antes. “Essa coragem não partiu de nós, mas da geração anterior, a que pertenceu o Ngola Ritmos e os Quimbandas do Ritmo. Esses foram mais corajosos do que nós”, afirmou.
“Muitas vezes, cantávamos em festas particulares o “Caputo Muangole Uandala Cutugiba”, uma versão directa dos Ngola Ritmos, que significa “os brancos em Angola querem matar-nos”. O músico fez ainda menção aos espectáculos realizados na baixa da cidade, como o “Chá das Seis”, no Cinema Restauração, aos quais era muito difícil o acesso de artistas angolanos.  “No Cine Teatro Nacional, os colonos, embora em maioria, aceitavam partilhar a sala com os pretos. O grupo Ngola Ritmos cantou no Nacional as músicas “Bimri Bimri” e “Muxima”. A plateia não gostou das interpretações em quimbundu e foram expulsos”. O grupo passou a fazer os seus espectáculos no musseque, onde o empresário Luís Montez teve um papel importante no incentivo aos músicos e à música do país. “O grupo Ngola Ritmos voltou a cantar no Cine Teatro Nacional e foram muito aplaudidos pelos portugueses”, recordou.

Cultura nos musseques

Nos bairros, os angolanos criaram os seus próprios centros de rebita, “onde os músicos se sentiam à vontade”. Os locais de espectáculos de maior referência, em termos de música nacional, “eram o Marítimo da Ilha e Maria da Esquerquenha, no Bairro Operário. Foram também criados os centros recreativos e culturais Bota Fogo, Maxinde e Sapalo dos Anjos, no Sambizanga”. O Bairro Operário era “a área com mais centros recreativos”, disse o cantor, que citou o local criado por Idalina Costa, já falecida, junto à Escola do Funje, além do Ginásio, no Sambizanga. “Volta e meia, a polícia estava nestes centros e muitos éramos espancados”.
Prado Paim recordou, a esse respeito, a canção “Etu Twambundo” (Nós os Negros), que escreveu em 1961. “Ia a caminho do trabalho quando me deparei com um tiroteio na Rua da Brigada e três pessoas morreram à minha frente. Continuei o percurso até ao serviço, mas, mesmo a trabalhar, não me sentia bem. Agarrei numa caneta e uma folha e escrevi a letra a música”. Escrever era uma coisa e apresentá-la em público outra. “Preparei essa música para cantá-la no Ngola Cine, num espectáculo promovido pelo empresário Rui Montez. O meu amigo Tino Dya Kimuezo disse: “Mano vais cantar essa música? Não tens medo de ser preso ou morto?” Respondi-lhe que não fazia mal porque muitos já tinham sido presos e não ia ser o primeiro. Ganhei coragem e cantei, o público gostou e aplaudiu de pé. Ao sair do palco, tive medo de ser apanhado pela PIDE e ser preso. Felizmente, nada aconteceu”.

Gozar a liberdade

O artista Prado Paim (Foto: Angop)
O artista Prado Paim
(Foto: Angop)

Prado Paim acabou por ser preso em 1962, após ter colaborado na fuga de três companheiros, entre os quais o general Mona, para o Congo. “Fiquei contente quando ouvi pela rádio que “as pombas tinham voado bem e já se encontravam no ninho”. Na cadeia onde estive, encontrei muitos companheiros do Nambuangongo, Quibaxi e do Congo”.
Na prisão, os maus tratos eram constantes. “Os colonos, por volta da uma ou duas da madrugada, tiravam os presos da cela para serem mortos em Quicabo e no Úcua”. Ainda assim, teve ajuda: “Havia um soldado que pedia aos colegas para não abrir a minha cela porque eu já tinha prestado declarações e o responsável da cadeia dissera que eu não podia ser tocado. Isso foi sempre a minha salvação”.
Para o músico, a juventude “não está a aproveitar a liberdade” que hoje possui e foi conquistada com muito sacrifício. “O homem tem de trabalhar e ser disciplinado. É essa disciplina que pedimos aos nossos filhos, mas eles acham que estão a ser oprimidos”, afirmou Prado Paim.
“Estes “barulhos” que estão a a­contecer fazem-nos perder a cabeça e morrer mais cedo. Nós, os que fizemos a revolução naquele tempo, soubemos agir com cabeça tronco e membros”, concluiu Prado Paím. (jornaldeangola.com)

Por: Arcângela Rodrigues e Pereira Dinis

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