Benguela: Cidade das acácias recupera mística

Caminho-de-Ferro de Benguela (Foto: Lino Guimarães)
Caminho-de-Ferro de Benguela (Foto: Lino Guimarães)
Caminho-de-Ferro de Benguela (Foto: Lino Guimarães)

Benguela é a segunda cidade mais antiga do país. Fundada em 1617, resiste há quase quatro séculos ao desgaste do tempo, em busca de um futuro comprometido, por largas décadas, pela destruição da guerra.

Chamam-lhe a cidade das acácias rubras, famosa pelas belas praias e infra-estruturas coloniais do ramo têxtil e ferro portuário. Figura entre as mais estratégicas e industrializadas províncias de Angola. É um território em franco crescimento.

O antigo Reino de Benguela caminha firme na consolidação do desenvolvimento económico e social, deixando para a história um passado de guerra e destruição que lhe “consumiu”, sem piedade, as principais infra-estruturas.

A província soma e segue, em toda a sua extensão. Desde 2002, regista animadores sinais em sectores estratégicos, como a educação, saúde, habitação e a indústria.

Benguela tem história e busca recuperar o estatuto de produtor em grande escala, criando recursos tecnológicos para voltar a ter o mesmo dinamismo da era colonial.

O esforço, empenho das autoridades e comunidades centram-se num objectivo comum: diversificar a economia, aumentar a eficiência e os postos de trabalho.

Para tal, tem em curso um amplo programa de investimentos públicos, que assenta, fundamentalmente, na recuperação das principais infra-estruturas económicas.

Esse investimento é fortemente notado nos municípios do Lobito, da Catumbela e de Benguela, onde se registam os maiores índices de crescimento sócio-económico.

Há 13 anos, o movimento de máquinas e homens não pára, nessas localidades. Estradas, pontes, indústrias, escolas, hospitais, espaços verdes e habitações surgem diariamente, para dar novo visual e dignificar as cidades.

Esse crescimento anima os cidadãos, sobretudo aqueles que sentiram, de perto, os retrocessos da guerra. É o caso do antigo combatente Henrique José. O cidadão teve a sorte de conhecer a realidade de um território que herdou infra-estruturas de vulto, mas, em quase três décadas de guerra, quase perdeu tudo.

Lembra do passado desolador, das marcas de destruição, angústias e solidão. Hoje, sem minas e balas, regozija-se com os ganhos da paz, na cidade e no campo.

“Todo o sector económico da província ficou abalado. Não havia quase nada para as nossas populações”, recorda o antigo combatente.

Cidades urbanizadas

Benguela é uma cidade de encantos, “talhada” para a pesca e construção de indústrias. Está apta para um investimento em massa, para contrapor os desafios sociais e económicos.

É uma cidade de contrastes. A sua arquitectura colonial está ainda fortemente presente no histórico município do Lobito, lembrando a época em que o sonhado progresso ficou “congelado” pela abrupta guerra civil.

Vistosos edifícios e projectos de impacto sociocultural e económico dão-lhe uma visão de futuro, um futuro que se espera promissor, mas de grandes “batalhas”.

É com essa crença que o director provincial do Ordenamento do Território, Urbanismo, Habitação e Ambiente de Benguela, Elmano José, encara os novos desafios.

“De um tempo a esta parte, tínhamos uma desaceleração, alguma morbidez no que era o serviço do ordenamento do território. O país, há uns 10 anos, tem estado a fazer o exercício de fogos para a população”, diz.

Com vista a melhorar a imagem e dar maior dignidade às populações, está em curso, na província, um programa de construção de 10 mil fogos, segundo a autoridade.

“Benguela foi contemplada com cerca de 10 mil fogos, que nós habitualmente chamamos de centralidade. Neste momento, estão em curso seis mil, na fase conclusiva”, explica.

Esclarece que foram distribuídas mil casas para os municípios da Baía Farta, dois mil para Catumbela e três mil para o Lobito. Este exercício, precisa a fonte, está a ser feito na faixa litoral. Os municípios do interior foram contemplados com outro programa, de construção de 200 fogos.

“A província conseguiu construir 50 porcento desses 200 fogos. Isto quer dizer que cerca de 100 fogos estão construídos nos municípios do interior. Três já têm a sua componente de fogos habitacionais e Benguela ainda não”, refere.

É intenção das autoridades começar, nos próximos seis meses, a distribuição das casas. “Esta componente de construir casas para a população é um processo que começa no exercício do ordenamento de território. É preciso planificar, ter um planeamento urbano, para que deixemos de ter o que eventualmente chamamos de musseques, para termos cidade”, reforça.

Apesar desse esforço, há ainda constrangimentos na organização de Benguela, fundamentalmente no ordenamento dos musseques, surgidos de forma desordenada, por toda província.

“As pessoas têm vontade de construir. Temos estado a acompanhar o exercício da construção de habitação própria das populações, um bocado pelo país e Benguela não foge à regra”, realça.

Informa que se está a fazer a comercialização de lotes de mil metros quadrados, por 27 mil 500 kwanzas, que dá a possibilidade ao indivíduo de ter mil metros quadrados e depois chegar ao nível da escritura de constituição desta parcela, para ter a propriedade do espaço.

“À partida, não há constrangimento neste processo. As pessoas têm alguma dificuldade de receber o conhecimento para a legalização do espaço, porque há um tempo o terreno constituíu para o angolano um negócio. Todo mundo interferia nesta matéria. Ou seja, existem grupos anárquicos que fazem a venda de terrenos”, denuncia.

Investimento na saúde

Benguela é uma das províncias que mais sentiu, nos últimos 13 anos, os efeitos da paz. O calar das armas fez crescer, além do sector da habitação, um domínio fulcral para o desenvolvimento: a saúde.

Um forte investimento do Executivo permitiu a construção de um estratégico Centro Oftalmológico, que tratou, entre Agosto de 2008 e Agosto de 2010, pelo menos 13 mil 700 pacientes com cataratas, glaucoma e transtorno de retina.

O Centro Oftalmológico de Benguela veio desafogar a pressão e, com profissionais de referência, minorar os efeitos do “desgaste da visão”. Realizou mais de 234 mil consultas em pacientes vindos de todas as províncias de Angola e de países vizinhos, com destaque para a República da Zâmbia.

O centro caminha para 40 mil cirurgias. A sua meta, segundo o director geral Luís Varandas, é completar um total de 50 mil cirurgias, até 2017.

Um dos grandes engajamentos, informou, é a formação de especialistas nacionais em oftalmologia. Quinze estudantes fazem a especialização desta vertente, no centro.

Provavelmente, de acordo com o director, em 2016 ter-se-á os primeiros especialistas nacionais surgidos neste centro.

“Também, ao nível de optometristas temos quatro formados e estamos a formar mais quatro. O centro oftalmológico internacional é importante, por ser de referência no país”, diz.

Tem uma capacidade instalada para 125 cirurgias dia, resulta do relançamento da cooperação no sector da Saúde entre os governos de Angola e de Cuba.

Inaugurado a 15 de Agosto de 2008, está equipado com tecnologia moderna na área da oftalmologia. Dispõe de consultórios, compartimentos pré-operatórios, laboratórios, farmácias e blocos operatórios.

Dezenas de médicos cubanos e técnicos angolanos garantem o funcionamento da nova unidade oftalmológica, instalada no interior do Hospital Geral de Benguela. Além desse estabelecimento, a província de Benguela conta com a Casa de Saúde “Boa Vista”, do Projecto de Oftalmologia Comunitária da Solidariedade Evangélica.

Corredor do Lobito

Crescimento é a palavra de ordem na província de Benguela, que se afirma a passos largos no sector sócio-económico. O seu posicionamento geográfico dá-lhe primazia na estratégia de desenvolvimento do país, gizada pelo Executivo, que aposta forte na exploração do Corredor do Lobito.

Trata-se de uma vasta zona de circulação terrestre e comércio livre, que atravessa o território angolano em direcção ao Leste e cruza as regiões mineiras da República Democrática do Congo, na província de Katanga, e a “cintura do cobre”, Zâmbia.

As suas principais infra-estruturas são o Porto do Lobito, Caminho-de-Ferro de Benguela, Aeroporto Internacional da Catumbela e o aeroporto provincial de Benguela.

É através do Corredor do Lobito que se quer criar facilidades no acesso às províncias do Huambo, Bié e Moxico, e às regiões da RDC e a Zâmbia, sendo o eixo de exportação mais económico para os minérios destes dois países para a Europa e a América.

É por esse corredor, uma das fortes apostas em tempo de paz, que as autoridades centrais e provinciais se propõem fazer a importação de mercadorias para esta sub-região da SADC.

Com a entrada em funcionamento, em pleno, de todas as infra-estruturas do Corredor do Lobito, tornar-se-á mais efectiva a promoção das potencialidades socioeconómicas locais.

Um moderno e consistente sistema de transporte, comunicações e outros meios de utilidade pública está a ser preparado para o efeito, em Benguela.

Além do Caminho-de-Ferro de Benguela, abrange também o Porto do Lobito, estradas, aeroportos e plataformas logísticas, que dão importância estratégica àquela área de influência, onde se estima viver 26 porcento da população de Angola.

O Corredor do Lobito, cujas empresas abrangidas continuam em amplo processo de modernização e afirmação, tem transcendente importância numa perspectiva regional, para Angola e não só.

Representa a rota mais curta até um porto, a partir das áreas ricas em minerais da RDC e da Zâmbia. É um importante corredor de desenvolvimento na África Austral.

É por esse corredor que Benguela garante a sustentabilidade do seu crescimento, num panorama global e contexto de fortes desafios para a economia nacional.

O Corredor do Lobito já traz benefícios visíveis à província. Todavia, há ainda desafios a enfrentar, como a reabilitação e construção de estradas secundárias e terciárias que aumentem a mobilidade e acessibilidade às comunidades rurais.

Para o seu total rendimento, as autoridades chamam atenção para a necessidade de se garantir segurança das infra-estruturas de transporte e a sua manutenção.

Com as suas múltiplas infra-estruturas, surge como mola impulsionadora ao progresso de uma província que ultrapassa as vicissitudes, com os olhos fixos num futuro promissor. (portalangop.co.ao)

por Elias Tumba e Adriano Chisselele

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