Belmiro Carlos: “Temos de massificar a actividade artística com escolas de arte e centros culturais”

Belmiro Carlos (Foto: Maridée Cervantes)
Belmiro Carlos (Foto: Maridée Cervantes)
Belmiro Carlos
(Foto: Maridée Cervantes)

A União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC), através dos seus projectos, ao longo dos 40 anos de Independência Nacional, tem dado maior dignidade aos compromissos assumidos com os associados, disse ao Jornal de Angola o secretário- geral. Belmiro Carlos adiantou que a mudança da União Nacional dos Artistas e Compositores para Entidade de Gestão Colectiva foi um ganho. Actualmente já foram emitidas 400 carteiras profissionais. A opção pela descoberta de jovens talentos e por cursos de formação artística fazem parte dos objectivos contínuos da instituição.

Jornal de Angola – O que significam esses 40 anos de independência para a União Nacional dosArtistas e Compositores?

Belmiro Carlos – Esses anos serviram para marcar o desenvolvimento da classe, a nível nacional e internacional. Foram 40 anos de ganhos para o país e os seus criadores. A União Nacional dos Artistas e Compositores existe há 34 anos, mas durante este tempo sofreu algumas mudanças, que a tornaram numa instituição dinâmica e dialogante. Vivemos momentos bons e períodos maus, mas continuamos firmes e confiantes, apesar do agravamento das condições gerais de trabalho,resultante da actual crise económica.

Jornal de Angola – Quais são as principais metas da instituição?

Belmiro Carlos – O objectivo agora é criar uma associação em que os artistas pudessem se rever nela e traçar projectos ligados ao desenvolvimento e o crescimento da música angolana. Esse é o foco de todas acções da União Nacional dos Artistas e Compositores. Outro projecto, que ganhou maior dimensão em Fevereiro deste ano, é a defesa dos direitos de autor e conexos, porque não podíamos continuar indiferentes à sangria feita aos artistas neste campo.

JA- O que representou a mudança para Entidade de Gestão Colectiva?

BC – Foi um passo-chave na melhoria do trabalho da instituição. Devido à mudança conseguimos ser admitidos naConfederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores (CISAC), rubricámos contratos de representação recíproca coma Sociedade Portuguesa deAutores(SPA), a Brasileira de Música eArte (ABRAMUS), a de Autores,Compositores e Editores de França (SACEM) e a Society of European Stage Authors & Composers, organização de direitos de autor norte- americana. Estamos ainda em negociações com outras congéneres, particularmente africanas.

JA- Qual é o objectivo destes contratos?

BC – Comestes contratos de representação recíproca tornámo-nos uma entidade que representa uma rede nacional e internacional de titulares de direitos de autor que cobre mais de 90 por cento da música que é usada no país, por conseguinte, determinante no licenciamento dos usuários e dos grandes operadores em Angola.

JA- Como está a decorrer o licenciamento dos artistas em direitos de autor?

BC – O processo decorre de forma normal. Temos registado pequenos incidentes, porque muitos usuários desconhecem a Lei e, mais grave, nunca ouviram falar em direitos de autor e ainda ficam atónitos quando os informamos sobre a importância de uma autorização para o uso da sua música em várias actividades.

JA-Esse desconhecimento não continuará a ser um obstáculo?

BC – Acredito que não, mas o que preocupa é o nível de desconheci- mento de algumas entidades responsáveis, que supostamente tinham de dominar o assunto. Por isso e devido a complexidade e especificidade do assunto pretendemos analisar o mesmo de forma detalhada.

JA- Os artistas têm sido participativos neste processo?

BC – Não de uma forma tão activa. Eles precisam de ajudar mais no pro- cesso de declaração das suas obras, que lhes permitirá valorizar osseus di- reitos. Portanto todos os artistas, autores e produtores devem fazer mais para usufruir dos benefícios económicos decorrentes do seu uso.

JA- Qual é a situação dos artistas que residem no país, mas estão inscritos na Sociedade Portuguesa de Autores?

BC – Os artistas nesta condição podem e devem continuar inscritos na SPA, pelo menos enquanto acharem que estão melhor protegidos. Por força do contrato de representação recíproca nós pode- mos os representar no país. Todavia eles precisam de se inscrever na União Nacional dos Artistas e Compositores para ter acesso aos dividendos relativos ao uso das suas obras em Angola.

JA – Quais os principais projectos e parcerias feitas pela União Nacional dos Artistas e Compositores?

Assinatura de contrato entre a UNAC-SA e o BDA. (Foto: Justino Makaba)
Assinatura de contrato entre a UNAC-SA e o BDA.
(Foto: Justino Makaba)

BC – Os actos e acções da instituição são impulsionados pela permanente procura de realização no domínio da integração social e profissional do artista angolano. Temos trabalhado pa- ra a integração, urgente, dos artistas mais antigos no Sistema Nacional da Segurança Social. Assinámos um protocolo com o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA) para o fomento da actividade artística e com o apoio da Fundação Brilhante inaugurámos um programa de comparticipação na edição de discos, assente na preservação da memória colectiva e na descoberta de jovens talentos.

Belmiro Carlos e o guitarrista Tedy Nsingi (Foto: D.R.)
Belmiro Carlos e o guitarrista Tedy Nsingi
(Foto: D.R.)

JA – Quanto à Carteira Profissional, quais os principais ganhos?

BC – A Carteira Profissional não é simplesmente um documento de identificação, mas de integração social. É um instrumento de valorização, promoção e integração social do artista. Com ela, o artista pode melhorar a sua situação social.Até ao momento foram emitidas 400 carteiras, porém elas ainda não es- tão a desempenhar o papel esperado a nível do acesso ao trabalho. Mas em breve vamos conseguir.

JA- Quais são os problemas do mercado artístico?

BC – Os problemas vão desde a falta de salas e espaços apropriados para a realização de actividades. Outro aspecto passa pela falta de interesse do empresariado e uma maior divulgação das artes nos municípios do país, apesar de o Executivo estar a fazer um esforço para continuar a encorajar a iniciativa privada.

JA -Como vê a música popular nacional?

BC – Já temos uma certa qualidade. Actualmente o artista tem acesso às novas tecnologias e através delas consegue a perfeição, sem qualquer desprimor para os grandes talentos que nos enchem de orgulho. Tecnicamente, vamos muito bem, mas precisamos de ter algum cuidado, porque a maior parte da música que consumimos não reflecte verdadeiramente o nível de desenvolvimento dos criadores angolanos. Há instrumentos musicais que ornamentam muitossucessos que não têm executantes em Angola. Por isso temos de massificar a actividade artística, com escolas de arte, mais companhias de dança e teatro, assim como centros culturais. (jornaldeangola.com)

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA