Ataques anti-islâmicos crescem na Europa

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Após atentados em Paris, alguns países registam alta na incitação do ódio contra muçulmanos. Para analistas, é necessário barrar a demonização da comunidade religiosa e desenvolver estratégias de reconciliação.

“Os ataques contra muçulmanos começaram na mesma noite dos atentados em Paris”, afirma Yasser Louati, do Centro Colectivo contra a Islamofobia na França (CCIF) em entrevista à DW. O CCIF recebeu várias fotos de depredações contra mesquitas e restaurantes de muçulmanos na manhã seguinte ao terror em Paris, quando extremistas islâmicos mataram 127 pessoas.

Louati cita vários exemplos de crimes de ódio contra muçulmanos nos últimos dias. Em Nanterre, no subúrbio de Paris, uma mulher com um bebé de cinco meses foi empurrada e xingada por um idoso. “Em Marselha, no sul da França, uma garota levou um soco no rosto e foi ferida em seu peito com um estilete”, diz Louati.

A maioria das vítimas do sexo feminino estava usando, na hora do ataque, um véu islâmico que cobre dos pés à cabeça, transformando-as em alvos fáceis. Ele lamenta também que o governo francês, desta vez, não condenou de forma rápida esses ataques contra os muçulmanos.

Organizações como “Tell Mama”, que mapeia crimes de ódio contra muçulmanos, afirmam que ataques contra adeptos desta religião subiram 300% no Reino Unido desde os atentados em Paris. Somente na semana seguinte ao 13 de Novembro foram registados 115 incidentes.

A situação também não é diferente na Alemanha. O chefe do Conselho Central dos Muçulmanos (ZDM), Aiman A. Mazyek, explica como uma mesquita na cidade de Saarbrücken, no sudoeste alemão, foi depredada logo após os atentados de Paris. “Os vândalos escreveram ‘assassinos e porcos’ na entrada da mesquita”, declara Mazyek à DW.

Aumento da insegurança?

Organizações muçulmanas têm trabalhado arduamente para afastar a insegurança das pessoas de sua religião e evitar a reacção negativa da sociedade em que vivem. Após os ataques como os de Paris, representantes muçulmanos como Yasser Louati, na França, dão declarações, por questão de princípio, que toda a sua comunidade não está sob suspeita.

Mas, para Aiman Mazyek, que representa muitos dos cerca de quatro milhões de muçulmanos na Alemanha, cada declaração significa, todas as vezes, provar a lealdade para com o seu país. “Eu digo: pare de nos pedir para nos distanciarmos desses ataques. Eu uso o exemplo de muçulmanos que morreram na violência em Paris. Eles também precisam, eles mesmo, se distanciar de seus assassinos?”, pergunta Mazyek.

Como muçulmano, a pessoa se sente mal se é feita responsável por qualquer ataque realizado por um islamita. “Especialmente nos jovens, esse sentimento pode ser perigoso, porque se eles têm preconceitos contra a sociedade em que vivem e se generalizam esses preconceitos, então podem tender à radicalização”, esclarece Mazyek.

130 pessoas, incluindo muçulmanos, morreram nos ataques do 13 de Novembro em Paris (Zuma Press)
130 pessoas, incluindo muçulmanos, morreram nos ataques do 13 de Novembro em Paris (Zuma Press)

Não existe perigo de “islamização”

“Neste momento, muitas pessoas reagem de forma negativa contra o Islã e aos muçulmanos por diferentes razões”, afirma Yasemin El-Menouar, gerente de projectos da Fundação Bertelsmann, na Alemanha.

Ela lembra da existência do movimento Pegida [“Patriotas europeus contra a islamização do Ocidente”], cujos militantes se encontram todas as segundas-feiras e realizam manifestações. “Naturalmente, após tais ataques terroristas, movimentos como esses aumentam, isso é um fato. As pessoas se sentem muito inseguras, e pensam: será que alguma coisa como isso vai acontecer connosco amanhã? E a minoria usa isso como uma razão para reagir [a tais incidentes]”, conta El-Menouar à DW.

Uma maneira de evitar esse tipo de reacção negativa após os ataques terroristas é não o conectar imediatamente com a crise de refugiados nem perguntar se muçulmanos na Alemanha se integraram bem com a sociedade dominante no país, porque, como El-Menouar explica, “todo muçulmano é, então, suspeito de ser um terrorista em potencial”.

Ela acredita que uma boa ideia seria definir o terrorismo como tal e não o rotular como terrorismo islâmico ou de direita. “Extremismo é um fenómeno e também deve ser tratado dessa maneira. E os perfis de extremistas de direita não são diferentes de islamitas”, acrescenta.

O chefe do Conselho Central dos Muçulmanos, Aiman Mazyek, tem a mesma opinião. Ele defende mais comunicação com a sociedade dominante e entre as religiões. “Acima de tudo, nós precisamos deixar claro que você não pode vencer o terrorismo através da guerra”, afirma.

No Brasil, um relatório do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Estado do Rio de Janeiro, aponta que, de Janeiro a Agosto de 2015, quer dizer, antes dos ataques em Paris, foram registadas 43 denúncias de intolerância religiosa contra muçulmanos. No período entre 2012 e 2014, foram somente seis reclamações. (dw.de)

 

 

 

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