Angola, 40 anos-José Mena Abrantes: O teatro que 75 gerou

José Mena Abrantes (Foto: D.R.)
José Mena Abrantes (Foto: D.R.)
José Mena Abrantes
(Foto: D.R.)

O debate periódico “Há Teatro no Camões”, realizado nos dias 27 e 28 do mês passado, no Instituto Português de Luanda – Camões, se esforçou por tecer considerações das fases do teatro, trazendo a claro alguns momentos que antecederam a independência, com Mena Abrantes, Orlando Domingos e Adelino Caracol à mesa.

Foi Mena quem se dedicou a descrever o que de teatro havia. Conta que chegou a Angola em Novembro de 74, depois de 12 anos ausente. Nessa altura, recorda, o país vivia um período de forte tensão política, com a luta de independência no seu auge, o que tornava praticamente impossível continuar a sua actividade teatral desenvolvida já em Portugal e Alemanha, deixando a intenção de somente dedicar-se ao teatro ultrapassada pelos factos, seguindo assim a carreira de jornalista.

Sobre o teatro, foi nos primeiros tempos de 75 que se associou a um director, que segundo nos diz “não era profissional, mas que era muito dedicado”, que vinha do teatro experimental do Porto e que tinha já nos dois anos anteriores desenvolvido espectáculos com alunos na Lunda, onde ele estava destacado profissionalmente. Chamava-se César Teixeira e chegou a falecer na Austrália. Ele e Mena tentaram junto de algumas assistentes sociais organizar pequenos projectos teatrais que não deram em nada.

Depois disso já aponta a data de Março de 75, altura em que a situação militar na urbe luandense começa a se agravar com conflitos militares dentro da cidade provocados por militares zairenses que “nem sequer sabiam falar português e causaram distúrbios dentro da cidade, de tal modo que começaram a queimar casas”, pormenoriza Mena. Nessa altura, continua, os estudantes estavam em greve e a população começou a refugiar-se dentro das escolas, aí no Largo das Escolas, motivando a formação de grupos de trabalho de apoio para a alimentação e formação política.

Mena e César reuniram um grupo de jovens para durante à noite tentar animar as pessoas que estavam concentradas nas escolas, ao mesmo tempo que procuravam também dar uma mínima formação política, pelo menos abordar problemas políticos daquele momento. A partir de Março de 75 fizeram uma série de ac- ções teatrais propagandistas, que não considera propriamente teatro, minimamente elaborado e improvisado com textos curtos. Durante alguns meses mantiveram esta actividade nas escolas.

Foi a primeira experiência de teatro que viveu com os estudantes que estiveram em greve, que destes o único sobrevivente foi o consagrado actor Orlando Sérgio, que na época tinha pouco mais de 14 anos. Depois começaram a montar um espectáculo sobre a história de Angola, que nunca chegou a ser apresentado. Foi destas dezenas de estudantes que nove sobrevivem e dão corpo ao grupo Tchigangi, que foi o primeiro grupo de teatro a apresentar uma obra depois da independência, levada em cena na Liga Nacional Africana a 28 de Novembro de 1975, intitulada “O Poder Popular”, dirigida por César Teixeira.

Essa fase foi a que Mena viveu. Quando começou a se informar sobre o que tinha acontecido antes, veio a saber que nos anos 50 tinha já havido uma primeira experiência com um grupo chamado Gexto- Grupo Experimental de Teatro, dirigido por Domingos Van-Dúnem. Era um grupo inspirado num grupo brasileiro que se denominava Teatro Experimental do Negro, criado por Abdias do Nacimento, com o intuito de começar a incluir actores negros no teatro brasileiro. Não sabe de que modo a experiência se repercutiu em Angola. Mas esse grupo acabou em poucos anos.

Mena avança que depois houve outras experiências, sobretudo na Liga Africana e noutras associações de carácter interventivo e entretenimento onde os nacionalistas, através da actividade cultural e artística, iam afirmando as suas produções ainda no tempo colonial, como são os casos do Bota Fogo e Ngongo e nas áreas libertadas do Leste Angola, onde a partir do início dos anos 70 começa a se desenvolver actividade teatral iniciada por professores que aí lecionavam, que ficou conhecido como ´teatro pioneiro na guerrilha´.

Explica que os professores davam às crianças um mote para elas desenvolverem e depois improvisam algo e as próprias crianças andavam de aldeia em aldeia a apresentarem aos mais velhos e crianças o significado da luta de libertação e os problemas que existiam, expressos através destes grupos infantis, sendo essas as experiências anteriores, em que se regista a participação dos angolanos. Antes, pontua, faziam peças, mas improvisadas, não publicando os textos, que destes se tem referência de um auto de natal, ainda na década 50. (cultura.ao)

Por: Matadi Makola

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