Adolescentes viram protagonistas em polêmica sobre escolas fechadas em SP

Colegas de classe de escola ocupada por estudantes em SP conversam, separados por cordão policial (BBC Brasil)
Colegas de classe de escola ocupada por estudantes em SP conversam, separados por cordão policial (BBC Brasil)
Colegas de classe de escola ocupada por estudantes em SP conversam, separados por cordão policial (BBC Brasil)

As palavras de ordem que ecoavam em frente à escola estadual Fernão Dias Paes, em São Paulo, na quarta-feira, lembrariam as de um protesto qualquer – não fosse o tom agudo das vozes.

“Sou estudante / Não sou ladrão / Não vim para a escola / Para sair de camburão!”.

São crianças e adolescentes, na maioria entre 12 e 16 anos, os inusitados protagonistas do mais barulhento protesto contra o programa de fechamento de escolas e transferências de alunos do governo estadual.Seguidos pelo olhar atento de mães preocupadas, muitos participam pela primeira vez de um ato político – articulado integralmente, segundo os próprios, pelo Facebook.

De acordo com a gestão de Geraldo Alckmin (PSDB-SP), 94 escolas serão fechadas e darão lugar a creches ou colégios de ensino técnico e adulto. Outras 754 passarão a oferecer apenas um ciclo de ensino (Fundamental 1 e 2 ou Médio) – caso do colégio Fernão Dias, que deixará de oferecer aulas a alunos do ensino fundamental.

Durante a visita da BBC Brasil à escola (no bairro de Pinheiros), 50 estudantes, segundo a PM, ocupavam a área interna do colégio, na tentativa de pressionar o governo a reavaliar a decisão.

Isolados pelas grades da escola e por um cordão de policiais militares armados, eles trocam informações com colegas de turma e familiares por mensagens no WhatsApp ou por gritos mesmo:

“Tá tudo bem, mãe!”. “Temos água e comida.” “Dormimos bem.” “Não vamos sair, não!”

Protesto-mirim

O protagonismo mirim ganhou fôlego após pelo menos dois meses de discussão entre adultos: membros do Sindicato dos Professores do Estado de SP (Apeoesp) e da Secretaria de Educação do Estado.

O governo argumenta que a reorganização escolar pretende melhorar a qualidade da educação e não foi motivada por cortes de custos. Os professores, por sua vez, dizem que não foram consultados e reclamam dos efeitos que as mudanças trarão para alunos e educadores.

Segundo PM, "todos os estudantes que saem da escola são entregues aos pais ou repassados ao Conselho Tutelar".  (BBC Brasil)
Segundo PM, “todos os estudantes que saem da escola são entregues aos pais ou repassados ao Conselho Tutelar”. (BBC Brasil)

Na falta de consenso entre as duas partes, os adolescentes decidiram “intervir pessoalmente”.

“O governo tem que escutar nossa opinião”, diz à BBC Brasil o estudante Rafael*, de 16 anos, no momento em que deixava o colégio, onde havia passado a noite.

“Saí porque tenho que voltar para casa”, continua o jovem de aparelho nos dentes. “(Meus pais) estão bem preocupados, estão bravos já.”

Apoiados por movimentos sociais como o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), os estudantes dizem agir de maneira independente, sem interferência externa. “Este aqui é um protesto de secundaristas”, reiteravam os adolescentes.
Reorganização

O governo paulista anunciou uma “reorganização do ensino” no fim de setembro.

“Temos uma queda no número de matrículas: 2 milhões a menos de alunos matriculados nas escolas públicas de São Paulo nos últimos anos. Percebemos que há muitos prédios subutilizados, escolas com ociosidade e isso gera necessidade de reorganizar o sistema”, disse Rosângela Valin, dirigente regional de ensino da região Centro-Oeste, à BBC Brasil.

Rosângela coordena a gestão de 75 escolas nesta área. Ela soube da reestruturação do sistema de ensino em 23 de setembro, quando foi convidada a sugerir ajustes – incluindo o fechamento de algumas escolas e a reorganização de outras.

A informação sobre as transferências chegou aos alunos em outubro. Uma das principais reclamações é o fato de não terem sido consultados sobre as mudanças, “que aconteceram de maneira rápida e repentina.”

Alunos que passaram a noite na escola foram recebidos por colegas aos gritos de "guerreiros"  (BBC Brasil)
Alunos que passaram a noite na escola foram recebidos por colegas aos gritos de “guerreiros” (BBC Brasil)

“Tudo foi feito no período correto, porque é em setembro que a gente começa a trabalhar o próximo ano. Não é pouco tempo (para a reestruturação), está dentro do normal”, afirmou Valin, que disse ter se reunido com presidentes de grêmios estudantis para comunicar a mudança.

O professor de matemática Leandro Oliveira, secretário da Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), acompanhava a movimentação dos alunos próximo ao portão do colégio. “Nós ficamos sabendo desta reorganização pela imprensa, como todo mundo”, diz. “A reorganização é autoritária. Tudo que vem de cima para baixo não dá certo.”

A porta-voz do governo, em contrapartida, diz que “as coisas foram feitas em cima de dados e contra dados não há argumentos”.

Valin prossegue: “Eles (alunos e professores) não estão na gestão pra saber o que acontece. O que as pessoas não estão entendendo é que nós trabalhamos pensando na maioria da população.”

A Secretaria de Educação do Governo do Estado de São Paulo rebate as críticas de fechamento de escolas dizendo que 94 colégios “serão disponibilizados para outras unidades educacionais”. Questionada sobre quais seriam essas unidades, a pasta afirmou que “elas ainda estão sendo definidas”.

Uma reunião entre governo, pais e alunos para esclarecer as movimentações de escolas e estudantes acontecerá no próximo sábado.
‘A escola é nossa’

A faixa preta pendurada na entrada do E. E. Fernão Dias Paes traz as mesmas palavras de ordem repetidas com entusiasmo pelos estudantes de dentro e de fora do prédio: “A escola é nossa”.

A mãe de uma das jovens da ocupação se emocionou com a cena. “É lindo isso. São adolescentes reivindicando aula de qualidade. Nunca vimos coisa parecida antes”, disse Rose, que preferiu não revelar o sobrenome.

Álvara Cristina Gusmão acompanhou a filha Maria Eduarda, de 13 anos, no protesto em frente à escola  (BBC Brasil)
Álvara Cristina Gusmão acompanhou a filha Maria Eduarda, de 13 anos, no protesto em frente à escola (BBC Brasil)

Do lado de dentro, as “crianças” agiam como “gente grande”.

“Fizemos comissão de limpeza, de segurança. A escola está limpa, estamos cozinhando, está tudo do mesmo jeito que estava quando a gente chegou”, disse Rafael, ao sair da ocupação depois de mais de 24 horas nela.

À reportagem, ele contou que os alunos utilizaram a comida destinada à merenda escolar para fazer as refeições durante o dia.

Abraços

Na tarde desta quarta-feira, cinco alunos saíram por vontade própria da ocupação do colégio – a Polícia Militar não os encaminhou para averiguação, mas recolheu seus nomes. Do lado de fora, foram recebidos por colegas de classe aos gritos de “guerreiros” e com abraços emocionados.

À BBC Brasil, em nota, a Secretaria de Segurança Pública disse que a PM “acompanha o protesto para resguardar a integridade dos manifestantes” e informa que “todos os estudantes que saem da escola são entregues aos pais ou repassados ao Conselho Tutelar”.

Álvara Cristina Gusmão foi uma das mães a acompanhar o protesto – sua filha de 13 anos, junto às amigas, emendava gritos de guerra em frente ao cordão policial.

“Minha filha chora todos os dias porque não quer mudar de escola. Ela vai ser separada de todas as amiguinhas. O ensino aqui é muito bom e foi assim que ela me convenceu que a causa dela é importante, eu não tinha essa dimensão”, diz Gusmão, ao lado da filha e de uma amiga.

As duas serão separadas pela transferência, mas dizem ter outro motivo para estar ali.

“As pessoas que estão aqui querem o melhor. A gente está aqui porque é a nossa educação, é o que a gente tem que fazer pela nossa escola.” (bbc.co.uk)

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