“A nossa memória colectiva quanto à independência não está tão valorizada”

(Foto: D.R.,)
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Há 40 anos que a nação angolana é independente, mas será que ela se recorda do que restou dessa luta pela liberdade?! Esta questão é levantada no documentário “Independência – esta é a nossa memória” co-produzido pela Associação Tchiweka de Documentação (ATD) e a produtora Geração 80 e que está em exibição nos cinemas de Luanda, Malanje, Huíla e Benguela.

O realizador e o pro­dutor do documen­tário “Independên­cia”, Mário Bastos e Jorge Cohen, reve­lam em entrevista a necessida­de de se preservar a memória de quem lutou para conquistar a in­dependência de um país e contam como lhes foi possível documen­tar esta temática num momento em que alguns jovens praticam a máxima “xé, menino não fala política”.

Como é que um gestor e um ci­neasta se juntaram para criar a produtora angolana Geração 80? E, de recordar, que são um trio, que conta ainda com uma enge­nheira civil…

Jorge Cohen (JC): Digo muito isso: o que estudamos não nos define. No meu caso, [o curso de Gestão e Empreendedorismo] deu-me ferramentas muito úteis para tra­balhar com produção. Também ajuda-me a organizar a empresa mas, o que acabou por nos juntar, mais do que as nossas formações, foi a nossa vontade de querer con­tar histórias, fazer filmes ou outro tipo de suporte audiovisual que pudesse, de alguma forma, inspi­rar outras pessoas a reflectir sobre alguma coisa. As outras pessoas que fomos agregando à empresa têm diferentes formações, umas mais ligadas à música e outras às letras. Mas, independente da sua formação, têm uma específica paixão por cinema. Dessa rique­za, acabámos por ter um grupo bastante ecléctico que é capaz de responder às várias necessidades que qualquer organização tende a enfrentar.

Mário Bastos (MB): Fiz a minha formação em cinema, mas a pró­pria cultura desta indústria não é um trabalho individual, é co­lectivo. Então, era impossível co­meçar a trabalhar nessa área só. Principalmente em Angola onde existem poucas pessoas ligadas a essa área de produção audiovisual. Foi um encontro necessário para criarmos a Geração 80 e começar­mos a produzir filmes.

Chegaram a afirmar que a ideia inicial da Geração 80 é “quebrar certos muros e tentar conectar as bolhas que existem na nossa sociedade”. Até agora, têm con­seguido?

MB: Vamos conseguindo, pois não é algo que termine a cada produ­ção. Cada produção vai contri­buindo e vai chegando a diferentes grupos dentro da nossa socieda­de. Por exemplo, fizemos agora o documentário “Independência” e ainda é muito cedo para falarmos de resultados. Mas, temos mui­ta vontade de que as pessoas se comecem a conectar com a his­tória do nosso país, com a nossa independência e com a geração que participou para que tudo isto acontecesse. Esperamos que haja debates. Há muito que está para acontecer, mas esse é um dos nos­sos objectivos.

JC: Para além de querermos que­brar essa barreira intergeracio­nal, também achamos importan­te quebrar a barreira geracional. Noto que a nossa sociedade ainda é bastante dividida, então temos que fazer um esforço para sairmos da nossa linha de conforto e tentar perceber o que as outras pessoas estão a fazer dentro da nossa ge­ração. Isso é algo que não se con­segue facilmente, é um processo, o que constitui uma preocupação.

Uma das vossas primeiras pro­duções foi o “Alambamento”, que retrata uma das tradições nacio­nais. Por que razão decidiram documentar esse tema na vossa estreia?

MB: O “Alambamento” surge nu­ma fase de transição quando es­tava a terminar o meu curso de Cinema e a tentar começar pro­fissionalmente, aqui em Angola. A história não nasce de uma vontade de contar uma tradição ou de uma das peripécias pelas quais muitos angolanos passam. Tudo começou porque tinha ouvido que alguém tinha que entregar um gerador pe­la “mão da noiva”. Era um mun­do que, para mim, era totalmente desconhecido. Então, a vontade de querer contar uma história de um mundo desconhecido para mim era importante, porque nos coloca fora da nossa zona de conforto. Assim, podemos comunicar com muito mais gente e conhecer me­lhor outras culturas.

O facto de ser um tema diferente em outros países, acreditam que foi um ponto-chave para atrair outros olhares?

MB: Mesmo que pareça ser co­mum para nós angolanos, não é habitual vermos temas como este nos nossos cinemas. Ainda não temos o hábito de nos vermos a nós próprios num ecrã. Cada vez que tivermos as nossas produções isso pode-se tornar um hábito positivo. No exterior as pessoas vêem filmes de diversos cantos do mundo e pouco importa o as­pecto cultural ou não. Mas, essa é a tal necessidade de conhecermos outros mundos que não o nosso.

JC: Reforço a ideia de que temos que ser capazes de contar as nos­sas histórias. O que nos interessa ouvir são os problemas de agora e, não necessariamente só aquilo que o mundo quer ouvir sobre nós. No final do dia somos nós que cá vivemos. Temos que ser capazes de resolver e pensar sobre os nos­sos problemas.

Diz-se que “Angola, nos trilhos da independência” é o vosso maior projecto. Como funciona?

JC: O projecto “Angola nos trilhos” nasce da parceria entre a Associa­ção Tchiweka de Documentação (ATD), que se dedica à preserva­ção da história, e a Geração 80, uma produtora audiovisual. Cre­mos que esta junção foi super ne­cessária para termos um projecto historicamente rigoroso mas, ao mesmo tempo, com maior qua­lidade audiovisual e que depois pudesse ser transportado para diferentes ângulos. Dessa convi­vência, entre duas organizações e gerações diferentes, conseguimos obter e ganhar mais sensibilidade para essa questão da preservação da história. Acredito, também, que a associação viu o quanto era importante comunicar essa his­tória em diferentes formas de se fazer.

Geração 80 apresenta agora a sua primeira longa-metragem, “In­dependência – Esta é a nossa me­mória”. Qual foi a vossa necessi­dade de abordarem a questão da independência por ocasião dos seus 40 anos?

JC: Apenas para clarificar: não foi uma decisão para os 40 anos de independência, agora. O projecto começou em 2010. E, nesse ano, já tínhamos essa preocupação de fazer a recolha de testemunhos de pessoas que participaram da luta de libertação e apresentar este documentário pós-40 anos. Pois, 40 anos é um marco incontornável, era um momento, sabíamos, em que teríamos uma sociedade atenta e disposta a reflectir sobre o assunto. O projecto teve um começo e teria que ter um fim, então, agora pareceu-nos ser uma boa altura para apresentarmos o filme. Mas, devo dizer também que, apesar de querermos saber da nossa realidade, conseguimos resumir, o que não é suficiente. É preciso termos uma atitude proactiva em relação a tudo, pois muitos podem compartilhar da mesma ideia e então é preciso agregar sempre mais.

MB: Falando um pouco dos motivos que levaram a Geração 80 a participar no projecto que começou com a ideia da ATD: fomos desenvolvendo com eles a necessidade de se fazer o filme. Era essencial conhecermos a nossa história. Ganhámos conhecimento para falar com propriedade e percebermos melhor como conseguimos chegar até aqui. Todo esse período de trabalho foi quase uma reflexão para nós e que ainda vai ser digerida nos próximos anos. Tenho a certeza que terá um impacto para nós, enquanto indivíduos, e para a Geração 80. É um orgulho que este seja o nosso primeiro grande projecto.

Apesar do documentário trazer depoimentos de quem viveu aquele tempo, é uma produção feita por jovens; acreditam que hoje a juventude angolana está mais aberta e preocupada para falar sobre política?

MB: Acho que estão mais abertas e com muita vontade de participar. No entanto, também acho que existe um desconhecimento muito grande e alguns bloqueios em que… é chato usar essa palavra… mas, que seja permitido que a juventude fale política. É aquela velha história: “Xé, menino não fala política”. Acho que temos que ultrapassar isso porque os meninos e as meninas querem falar política e participar dela. O país só vai ganhar se a juventude participar de forma social e política.

JC: Para além disso, é importante conhecer-se, pois todo o mundo acha que é só participar e falar. Tem que haver um esforço para conhecer um pouco melhor a história e nos envolvermos. Para depois não sermos apenas comentadores do tipo “fim-de-semana”.

Após a exibição do documentário, na ante-estreia, algumas pessoas alegaram que este faz uma analogia ao actual cenário da política nacional. Concordam com esta ideia?

MB: Como qualquer filme, e principalmente quando se trata de documentários relacionados com a história ou que falam de política e luta de libertação, independente de quem esteja a ver o filme e do momento actual em que o mesmo esteja a ser visto, essas analogias vão acontecer. Se daqui a dez anos estivermos a celebrar os 50 anos de independência de Angola e o filme estiver a ser visto, tenho certeza de que haverá pessoas que vão encontrar semelhanças e diferenças de há 40 anos. Hoje em dia as palavras “liberdade” e “presos políticos” estão a ser muito comentadas. E, quando se tem um documentário sobre independência a usar as mesmas palavras e temas parecidos, mesmo sendo há 40 anos, as pessoas tendem a fazer essa analogia. Mas, isto é uma história que não é igual e que não se repete. É uma luta completamente diferente. Mas, é normal, e até acho saudável, que haja essa reflexão de tempos.

JC: Independente das análises e da leitura de cada pessoa, e de cada momento que o país possa ter, este documentário não foi pensado para responder a qualquer questão actual. Ele foi pensado para contar a história da independência de um país e a luta que foi travada para que assim fosse. É um documentário sobre a memória das pessoas que participaram da independência. No entanto, todo o resto são leituras possíveis e que não são as nossas.

Estavam cientes de que seria um risco que teriam de correr com essa associação de tempos?

MB: Analiso como um risco saudável. Se assisto a um filme, consigo simpatizar-me com ele se me fizer reflectir sobre quem eu sou ou sobre a sociedade, isso é algo positivo. Não se trata de um risco.

Mário BastosQuais foram os critérios de escolha dos personagens que apresentam os seus testemunhos?

MB: Ouvimos cerca de 600 testemunhos e, infelizmente, não podíamos pôr tudo em um filme de 1h45. Optámos por cada pessoa que reflectisse um grupo maior e os diferentes palcos por onde a nossa luta pela independência passou. Para dar alguns exemplos: temos uma pessoa que esteve no campo de São Nicolau, outra que esteve no Maiombe, no 15 de Março, na guerrilha da UNITA no Leste. Todas as pessoas que estão no filme são, de certa forma, representativas de momentos e grupos maiores. E, não é só as três organizações políticas, nas quais se enfoca muito. O documentário também traz relatos de pessoas que não pertenciam a qualquer organização política, mas a organizações religiosas. O filme segue uma narrativa, então, era importante que os testemunhos carregassem uma dose de emoção, que a história fosse cativante e que conseguisse transmitir a memória daqueles que participaram. Foram mais ou menos esses os critérios… Demorou um bocado, mas estivemos cerca de um ano a seleccionar e a condensar os testemunhos e os depoimentos.

Os depoimentos que sobraram, o que pesam fazer deles?

JC: Vai grande parte para o arquivo, porque recolhemos mil horas de material, apesar de termos 1h45 de filme. Existe um grande arquivo que vai ficar sob a responsabilidade da ATD e que precisa do seu tempo para organizar e tornar disponível ao público. Mas, é esta a intenção.

MB: E, nós, enquanto Geração 80, obviamente, nos anos a seguir podemos trabalhar em outros projectos relacionados com a história. Acho que vai ter mais força para as pessoas, pois vai trazer outras visões e outros pontos de vista.

Como é que lidaram com as emoções dos entrevistados?

MB: Uma das coisas que aprendi é que quando pedimos a alguém para contar a sua memória devemos respeitar a forma que ela quer para falar sobre tal facto. Se determinada pessoa não quisesse falar sobre um acontecimento, ela tinha todo o direito. Nós não exigíamos que ela nos contasse. Se ela estivesse a ter um momento mais emocionante, de choro ou silêncio, nós respeitávamos esse instante. Era um momento de fragilidade e tínhamos que ter bastante cuidado. Se pensarmos que alguém nos coloca uma câmara à frente para contar 15 anos da nossa vida em que nos sacrificámos para lutar pela independência do nosso país, é algo bastante sensível. Mais do que interferirmos, nós deixávamos as pessoas contarem as suas memórias e respeitávamos os seus espaços.

Foram seis anos a recolher testemunhos e a produzir. O que acham que torna a vossa mais recente longa-metragem diferente das demais que surgem e abordam a mesma questão?

MB: Se formos a comparar com outros filmes, como por exemplo, o documentário sobre o diário da Deolinda Rodrigues, o “Langidila – diário de um exílio sem regresso”, o filme refere-se a uma pessoa, o qual acho necessário e importante. Gostaria que houvesse mais abordagens do tipo, que trouxessem a história de várias personalidades que lutaram pela nossa independência e que contribuíram para a nossa história. O nosso documentário não foca numa só pessoa, mas num grupo maior e num momento mais abrangente. É diferente de um documentário em formato televisivo por ser direccionado ao cinema. A narrativa é pensada para o cinema. E toda a estrutura do documentário é voltada nas pessoas que compartilharam as suas memórias. O próprio narrador do documentário usa um tom como se fosse alguém que tenha participado da trama. Tentámos criar a sensação que os narradores são os próprios que viveram a luta e estão a compartilhar testemunhos do que foram as memórias deles durante esse processo. Mais do que marcar a diferença, penso que este documentário vem para contribuir de forma significativa, agora que celebramos 40 anos, sobre o tema da luta da independência. Depois deste documentário, os que já existem ou os que estão para vir, creio que quanto mais tivermos será melhor para conhecermos o nosso passado e poder falar mais sobre o assunto. Neste momento, quanto mais melhor!

JC: Não queremos ser o filme que conta a história de Angola, nem contamos com essa pretensão, é mais um contributo. Acredito que exista uma sensibilidade muito maior por parte da nossa sociedade que acompanha documentários televisivos sobre o tema.

Quanto foi o investimento para este documentário?

JC: As contas todas deste projecto ainda não estão fechadas, mas esperamos torná-las públicas no próximo ano. Contudo, podemos avançar que o investimento para a produção do documentário gira em torno dos 500 mil dólares norte-americanos.

Jorgen CohenActualmente, o documentário está a ser exibido em Luanda, Malanje, Benguela e Huíla. Quais são as próximas paragens?

JC: Foi uma estreia simultânea nestas quatro províncias. Mas, naturalmente, já tivemos propostas para exibir o documentário em outras províncias, e isso não se vai esgotar aí. Também esperamos ter o documentário em DVD para as pessoas o terem em casa e o verem quantas vezes quiserem. Até ao final do ano vamos concentrar- nos um pouco no mercado angolano, tentar chegar ao maior número de províncias possível. A partir do próximo ano, vamos focar-nos nos festivais de cinema e com o público internacional. Sentimos que este documentário – e que a luta pela independência – não foi apenas nossa. Muitos outros países africanos lutavam pelas suas independências, e contaram com apoios de outros países. Pensamos que é um documentário válido para esses outros países, sobretudo os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Temos este enorme desafio, após a realização, agora fazer a divulgação e a distribuição. Agora gostaríamos que mais pessoas assistissem ao documentário. Mas, daí sentirmos que vamos precisar de parceiros. Outras pessoas que queiram e que sintam que isto tem qualidade e vamos a isso! Temos bem presente este desafio. Também esperamos que o documentário seja exibido em algumas televisões para chegar a um número mais abrangente de espectadores. Mas, ainda assim, estamos abertos: façam as vossas propostas que nós temos o documentário para apresentar, pois temos a mesma vontade.

O documentário começa com a pergunta:“Que memória resta da nossa luta?”. Para encerrar esta entrevista, desafio-vos a responder a esta questão.

MB: A memória que nos resta… está esquecida… e, isso foi um dos motivos que me levou a entrar no projecto e pelo qual ele foi realizado, não só pelas pessoas mas, também, pelos lugares por onde essa luta passou. A pergunta no filme era para que nós próprios, como angolanos, reflectíssemos sobre que memórias temos da nossa luta e, depois, as ouvirmos. Depois do filme as coisas não vão mudar de um dia para o outro, mas acho que é um bom começo para olharmos para essas memórias. Assim daremos mais destaque e mais importância a essas pessoas que lutaram pela nossa independência.

JC: A nossa memória colectiva, principalmente, quanto a esse período não está tão valorizada como deveria estar. Mas, também sinto que estamos num momento em que ainda é possível se fazer alguma coisa para a preservar, principalmente, para a recolher. Mas, também sinto que há o privilégio de contar com pessoas com uma experiência incrível, que viveram muitos momentos fundamentais para a construção de um país, que estão vivas e estão aí. Cabe-nos um pouco a nós não deixar que essa memória se esvaia. É importante percebermos que existe essa fragilidade para tentarmos fazer alguma coisa para recuperar, enquanto é tempo, algo que não temos tanto assim, é preciso agir já. (semanarioeconomico.pt)

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