Unicer “muito preocupada” com efeitos da crise angolana ainda em 2016

(Foto: D.R.)
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Novo CEO não pormenoriza os impactos, mas assume que houve que jogar na “antecipação”, cortando custos. Meta de mil milhões de vendas em 2020 está mais longe.

Duplicar a faturação e chegar aos mil milhões de euros de vendas era a grande meta para 2020 na Unicer de João Abecasis, o ex-CEO da empresa cervejeira que substituiu António Pires de Lima quando este assumiu a pasta de ministro da Economia. Mas Rui Lopes Ferreira, o novo presidente executivo, que sucedeu a Abecasis em agosto, mostra-se bastante mais cauteloso. Não admira. A primeira grande medida pública que lhe ficará associada é o fecho de uma fábrica e o despedimento de 140 pessoas. “A minha responsabilidade é com a sustentabilidade da Unicer e com a criação de oportunidades e bem estar para os colaboradores”, afirmou em declarações ao Dinheiro Vivo.

O encerramento da fábrica da Rical em Santarém, onde a Unicer produz os refrigerantes Frisumo, Frutis, Snappy, Guaraná Brasil e Frutea, em março de 2016 e a adequação da estrutura da empresa à crise angolana, com o despedimento de 140 pessoas foram esta semana conhecidas. Uma decisão “inevitável”, diz, face à retração do mercado angolano, onde as vendas de cerveja caíram 30%, e à “taxa de ocupação muito reduzida, nos 30% ou abaixo”, da fábrica de Santarém, o que torna a operação “economicamente insustentável”. A produção de refrigerante será subcontratada à Font Salem, empresa espanhola que opera na antiga unidade de Sousa Cinta e onde poderão ser integrados 25 dos despedidos. Dez podem ser colocados em Leça do Balio.

Rui Lopes Ferreira garante que a ambição de crescimento se mantém, mas que há que assegurar que decorre de forma sustentável. “Temos uma empresa financeiramente sólida, com capacidade para explorar oportunidades e encarar investimentos. E o crescimento passa necessariamente por um plano de investimento na diversificação de mercados”, afirma. Quais é que não indica, para já, falando apenas em “novas geografias com economias em franco desenvolvimento”.

O contrário, precisamente, do Brasil – o primeiro país a produzir Super Bock fora das fronteiras nacionais, em resultado de uma parceria local -, cuja economia já viu melhores dias, e de Angola, o principal mercado externo da Unicer, que aí coloca mais de 100 milhões de litros de cerveja ao ano, no valor de 120 milhões. Rui Lopes Ferreira não indica quanto está a perder de vendas no país, sublinhando, apenas, que “não é muito diferente da evolução global do mercado”.

Efeitos nas contas são inevitáveis, reconhece o novo CEO, pelo menos na faturação. Sobre o impacto nos lucros, diz que é “prematuro” falar. Mas assume a “grande preocupação com 2016” e, por isso, a necessidade de jogar na antecipação, avançando com um plano de “ajustamento” da estrutura ao “novo perfil de negócio e à nova realidade”, frisa. Não é que ponha em causa a recuperação angolana, bem pelo contrário. Rui Lopes Ferreira acredita que as dificuldades angolanas “vão ser superadas”, mas que isso ainda “vai demorar tempo”. E lembra o estudo do FMI que aponta “que só em 2020” o país recuperará os níveis habituais de crescimento do PIB.

Além do mais, a Unicer “tem responsabilidades” no mercado, “com marcas fortes e que são privilegiadas pelo consumidor”, pelo que a aposta no país “é para manter”, mesmo que a presença seja feita “com uma dimensão diferente”. E a construção de uma fábrica em Angola, num investimento estimado de 130 milhões de euros que levará à criação de 330 postos de trabalho diretos e 3000 indiretos, também não está em causa. É um “projeto estruturante” e que “por nossa vontade já estaria construído”, sublinha.

A génere deste projeto remonta a 2005. Mas só em finais de 2009 foram assinados os contratos com os parceiros locais. E, mesmo assim, ainda não foi possível arrancar com a construção. E a saída de João Abecasis da presidência executiva da empresa parece ter estado ligada, precisamente, a Angola e à divergência de pontos de vista do gestor e dos acionistas (os grupos Violas, Arsopi e BPI detêm 56% do capital da empresa e a Carlsberg os restantes 44%). Em janeiro, quando o governo de Angola admitiu impor quotas à importação de produtos alimentares (as exportações da Unicer seria reduzidas quase a metade), João Abecasis chegou a assumir que a medida “poderia colocar em causa a realização do investimento”, posição completamente oposta à agora assumida por Rui Lopes Ferreira, que fala em honrar os compormissos assumidos.

Esta é apenas mais uma etapa no processo de emagrecimento da Unicer. Quando Pires de Lima chegou à empresa, em 2006, (substituiu Ferreira de Oliveira, que foi liderar a Galp), a Unicer tinha 2.400 trabalhadores. Em três anos, foram despedidas 700 pessoas, num processo que custou 20 milhões de euros. Na altura, Pires de Lima justificou-o com a necessidade de assegurar a competitividade da empresa que tinha “o dobro dos trabalhadores” do seu maior concorrente, a Central de Cervejas. Pelo caminho, fechou os centros de produção de Loulé e de Santarém (cervejas), este já em março de 2013, e concentrou tudo em Leça do Balio. Mas também lançou as bases para novo crescimento, designadamente com um investimento de 100 milhões em Leça, que tornaram a empresa “à prova de bala da concorrência nacional e europeia”, disse já como ministro, na inauguração da obra.

Hoje, a Unicer conta com cerca de 1.337 trabalhadores (segundo os números no relatório de gestão de 2014), distribuídos pelas diferentes áreas da empresa. Recorde-se que, além da sede, em Leça do Balio, a Unicer conta com cinco unidades para o engarrafamento de águas – em Castelo de Vide, Envendos, Caramulo, Pedras Salgadas e Melgaço -, dois ativos no turismo, os parques lúdico-termais de Vidago e Pedras Salgadas, bem como a Maltibérica, empresa produtora de malte para cerveja situada no Poceirão. E se é verdade que, com Pires de Lima, se assistiu a um desinvestimento em áreas não estratégicas, como a restauração, os vinhos ou os cafés, não é menos certo que resta, ainda, um ativo nos vinhos, a Quinta do Minho, na Região dos Vinhos Verdes. (dinheirovivo.pt)

 

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