UE mais favorável à adesão turca

(Euronews)
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Depois de meses de bloqueio, a Turquia tem de novo o caminho livre para prosseguir as negociações de adesão à União Europeia, mas há um preço a pagar.

Angela Merkel, no encontro com o chefe de governo turco Ahmet Davutoğlu, propôs que a Turquia mantivesse no país o maior número possível de refugiados, em troca do relançamento do processo de adesão.

A Turquia está na primeira linha, no que toca ao acolhimento de refugiados, desde que a guerra na Síria começou. Desde então, já entraram no país dois milhões e 200 mil sírios. Na maioria, acolhidos nos campos de refugiados, mas também alguns nas grandes cidades. Para todos, ou quase, a Turquia é apenas um ponto de passagem. O objetivo é a Europa. Para o presidente Recep Tayyip Erdoğan, o papel que a Turquia tem tido é um argumento a favor da entrada na União Europeia: “A segurança e a estabilidade do Ocidente e da Europa dependem da nossa segurança e da nossa estabilidade. Agora aceitaram isso. Então, se precisam da Turquia, porque não aceitam a Turquia na União Europeia?”, dizia Erdoğan no dia 16 de outubro.

É o momento mais oportuno para colocar esta questão. Em plena crise política, Erdoğan quer aproveitar a nova perspetiva da Europa e estas promessas para tirar partido nas próximas eleições. Os críticos do presidente turco respondem dizendo que o sonho europeu pode ainda estar longe: Afinal, a Turquia não foi sequer convidada para a cimeira dedicada à crise migratória.

Entrevista

Didier Billion, diretor-adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas francês, especialista na Turquia e em assuntos europeus, conversou com a euronews a partir de Paris.

Arzu Kayaoğlu, euronews: Durante vários anos, quase se tinha esquecido a questão da adesão da Turquia à União Europeia. As negociações estavam quase paralisadas. Subitamente, com a crise dos refugiados, como pano de fundo, Angela Merkel voltou a colocar o assunto em cima da mesa. Na sua opinião trata-se de um caso de oportunismo político ou já estava na agenda europeia?

Didier Billion: “É evidente que isso está completamente relacionado com a situação política e com o desafio que a crise da imigração representa para a União Europeia, que compreende, finalmente, que a Turquia é um país indispensável para o equilíbrio, não só em termos da gestão do fluxo da migração, mas também numa série de questões políticas. E, como por acaso, Merkel teve o cuidado de fazer uma visita oficial a Ancara e a Istambul. Embora se possa discordar da altura, porque a Turquia está em período eleitoral e Merkel podia esperado até à realização das eleições, a 1 de novembro.”

euronews: Os direitos humanos, a democracia, a liberdade de expressão. Relativamente a estas questões: a Turquia é frequentemente criticada. No entanto, parece que a Europa não nenhum passo neste assunto. Existe um desinteresse da Europa em relação à Turquia nesta matéria?

Didier Billion: “Pode e deve discutir-se sobre os direitos democráticos, sobre os ataques aos direitos civis, mas com razoabilidade. Alguns acreditam, por exemplo, que há que quebrar todas as relações com a Turquia só porque existem ataques aos direitos humanos. Acredito que esta abordagem é errada. Precisamente porque existem violações dos direitos humanos e das liberdades democráticas há que insistir e relançar o diálogo e as negociações dignas desse nome. Não se pode manter uma posição moral sobre a Turquia, é necessário um raciocínio político. Noutras palavras, relançar os acordos e as negociações e, no âmbito destas negociações, abordar todas as questões. Estou muito preocupado com a política do presidente Erdoğan que fez avançar o país, e encaminhá-lo rumo ao bom desempenho económico nos últimos anos, havia consolidado o papel internacional da Turquia com muitas iniciativas positivas de mediação etc… Infelizmente, tudo isso caiu por terra, ou seja, Erdoğan está numa lógica de confronto, de polarização, com uma estratégia política de tensão e obviamente, a Turquia está a atravessar um mau momento.”

euronews: Por outro lado, a Turquia afasta-se da Europa para se aproximar da Organização de Cooperação de Xangai e da órbita da Rússia?

Didier Billion: Não, creio que é apenas uma ilusão, embora Erdoğan tenha dito, há alguns meses que, se a União Europeia não pretendesse aceitar a Turquia iria apresentar um pedido de adesão à Organização de Cooperação de Xangai, mas os seus membros não estão muito recetivos a uma candidatura da Turquia. A Turquia pode continuar a ter um relacionamento verdadeiro, digno desse nome, com a União Europeia, mas também a implantar a sua política rumo a novos horizontes, como o Médio Oriente, o Cáucaso, a Rússia, etc.

euronews: O resultado das eleições antecipadas de 1 de Novembro pode alterar as relações entre a União Europeia e a Turquia?

Didier Billion: Seja qual for o cenário a 2 de novembro, os apoios e as forças políticas, ou a eventual necessidade de um governo de coligação, acho que é imperativo retomar as negociações com a União Europeia. Angela Merkel disse, durante a sua estadia na Turquia, que era favorável à reabertura de muitos capítulos que estiveram congelados durante muitos anos. Creio que a reabertura de um processo real vai ajudar a Turquia a ultrapassar as dificuldades que enfrenta atualmente. (euronews.com)

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