Referendo sobre governo de esquerda irá a votos dentro do PS

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Direção socialista quer convocar todos os militantes para dizer sim ou não a um eventual acordo PS-PCP-Bloco.

Se houver um acordo do PS com o PCP e o Bloco, a direção liderada por António Costa pensa sujeitar esse acordo a referendo interno no partido. Todos os militantes serão convidados a dizer sim ou não. A garantia foi ontem avançada ao DN por uma fonte da direção socialista.

É uma manobra de alto risco porque essa consulta, realizando–se, acabará por funcionar como um referendo à própria liderança de António Costa. Em perdendo, se isso acontecer, não se vê como Costa poderá ter condições para se manter à frente do partido. Um líder não aguenta ser simultaneamente derrotado pelo país, como Costa foi nas legislativas de 4 de outubro, e pelo seu próprio partido.

A ideia original partiu de Vítor Ramalho, dirigente histórico do PS, membro da Comissão Política Nacional do PS, amigo muito próximo de Mário Soares, apoiante de António Costa nas primárias em que este destronou António José Seguro da liderança do partido.

O dirigente socialista já admitia formalizar a ideia dentro dos órgãos do partido, levando uma resolução a votos, caso percebesse que a direção do PS não estaria disposta a adotá-la. Poderia até fazê-lo já amanhã, na reunião da comissão política nacional (CPN) do PS. Mas agora, tudo o indica, deixará de ser necessário.

Ramalho diz que o eleitorado “não deu ao PS a possibilidade de governar sozinho” e portanto agora a possibilidade de o PS, que não ganhou as eleições, vir a liderar um governo apoiado pelo PCP e pelo BE significará uma “alteração profunda” do compromisso do partido, sendo por isso necessária esta consulta referendária (que, pelo que se percebe no imediato, será destinada apenas a militantes e não “modo primárias”, aberta também a simpatizantes.

Aliás, no entender do dirigente socialista, qualquer que seja a solução de governo em que o PS alinhe – apoiado à esquerda ou aliado a PSD e CDS (o que parece estar completamente fora de causa) – terá de ser sempre feita uma consulta aos militantes. Pessoalmente, Ramalho preferiria que o PS se mantivesse na oposição, “condicionando profundamente” as políticas de um novo executivo Passos-Portas. Mas aceitará todas as decisões que forem tomadas pelos militantes, mantendo-se nos órgãos que integra. Neste quadro, acha “prematura” a decisão de Sérgio Sousa Pinto de se demitir do secretariado nacional do PS, em rutura com António Costa por este se encaminhar agora para uma solução de governação apoiada no PCP e no Bloco de Esquerda.

Vítor Ramalho recorda que esta solução referendária não é inédita dentro do PS. Em 1983, o PS, liderado por Mário Soares, venceu as legislativas. Depois decidiu fazer uma coligação de governo com o segundo maior partido, o PSD, liderado pelo seu amigo Carlos Mota Pinto. A coligação – que ficaria para sempre conhecida como Bloco Central – foi precedida de um referendo interno no PS. Os militantes aprovaram o acordo.

O dirigente recordou também que em 2013 o SPD alemão (partido homólogo do PS português), liderado por Sigmar Gabriel, fez um referendo interno em que levou a votos o acordo de governação que queria reeditar com a CDU de Angela Merkel. Venceu o sim à coligação, com cerca de 75% dos votos.

Em França, o PSF também lançou uma consulta popular para viabilizar entendimentos à esquerda do partido tendo em vista as próximas eleições regionais. A consulta terá lugar de 16 a 18 deste mês e o universo eleitoral irá para lá dos militantes do partido. Jean-Christophe Cambadelis, primeiro secretário do Partido Socialista Francês, quer mobilizar todo o “povo de esquerda”.

Na reunião da CPN convocada para amanhã à noite – a segunda reunião deste órgão desde as legislativas – Costa apresentará o resultado das diversas diligências que levou a cabo nos últimos dias. Será o momento também para Sérgio Sousa Pinto explicar as razões da sua demissão do secretariado nacional do PS. (dn.pt)

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