Porque investem tanto lá fora os nossos ricos?

NORBERTO CARLOS Jornalista e Docente universitário (Foto: D.R.)
NORBERTO CARLOS Jornalista e Docente universitário (Foto: D.R.)
NORBERTO CARLOS
Jornalista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

A edição 334 deste jornal, de 28 de Agosto, estampou, como manchete, o título “Angolanos investem 13 vezes mais no estrangeiro do que os estrangeiros em Angola”.

Segundo a informação, os angolanos com dinheiro investiram 16.695 milhões USD, enquanto os estrangeiros investiram apenas 1.269 milhões USD em Angola. A notícia deixou-nos com um misto de revolta e emoção Depois de digerir aquela informação, deu sobretudo para entender a essência da vida e as voltas que ela dá.

Emocionou porque mostrou que se mudaram os valores. Revoltou porque fez-nos reflectir sobre os valores que nos aprisionam, sobre uma nova abordagem do patriotismo, o orgulho de se contribuir para que o País avance mais rápido, a solidariedade que tanto deveríamos cultivar, ou a agenda que devemos garantir para se construir um País bom para se viver. Enfim, a notícia mostrou que os nossos endinheirados estão muito mais interessados e perdidos na árdua e deliciosa tarefa de cuidar do seu dinheiro, como manda o liberalismo.

Eles recorrem às promessas que o mercado lhes oferece, ao encantamento de actividades essenciais à construção do capital, primário para a vida real na órbita em que estão mergulhados. A pergunta que se coloca é: porque será que eles preferem colocar o seu dinheiro lá fora e não cá dentro? Para responder a esta questão, poderíamos ‘escorrer’ aqui por diferentes caminhos.

Mas a resposta pode ser simples. Eles não confiam no País. Um olhar mais atento ao mundo que nos envolve mostra que a voracidade neoliberal lhes dá razão. Por isso mesmo, existem fundadas razões que explicam esta opção. A primeira, sem dúvidas, tal como acontece com a generalidade dos africanos detentores de algum capital, é resguardar a bunfunfa em mercados que acreditam ser seguros e estáveis.

A segunda, muito colada à primeira, é que qualquer investidor, não importa a sua nacionalidade, coloca o seu dinheiro onde existem garantias de que vai render bem, sem a instabilidade e a imprevisibilidade de mercados como os africanos, tão dependentes de factores exógenos. O terceiro é a falta de infra-estruturas de suporte ao investimento. Países assim, como é o nosso caso, ainda não têm capacidade para suportar toda a estrutura económica. A nossa realidade fundamenta isso. Não é à toa que os maiores investimentos dos angolanos cá dentro estão, sobretudo, espalhados no sector terciário, fundamentalmente, em bancos, telecomunicações e no comércio.

É aqui que o retorno é mais rápido, por vezes, menos oneroso. Ninguém pretende esperar mais lá para a frente. Para a maioria deles, a agricultura não é prioridade. É fastidiosa, é para se ir fazendo. As extensas áreas de terras que ocupam não são para a produção, são para transformá-las em paraísos onde se curte a vida com as famílias e os amigos, se desfrutam os fins-de-semana. Ali compartilham histórias sobre as dores e as delícias da vida, ao som da música ao vivo.

Trocam experiências, tratam do que é realmente importante na vida fugaz que levam. Contemplam as estrelas, cativam amigos, amam, contemplam as plantas e animais de estimação. Bem diferente do que a sociedade demanda deles e do que gostaríamos que fizessem para o nosso bem comum. Alguém perguntaria: então, onde anda o patriotismo destes nossos concidadãos?

A resposta é óbvia. Para falar claro e responder com sinceridade, em economia de mercado, o patriotismo é uma farsa. Não há cá cantigas. Mesmo assim, temos fé que os nossos ricos podem fazer melhor. Mas voltemos ao que interessa. Em África, as instituições não garantem o futuro dos negócios. Em inúmeras ocasiões vimos investimentos acomodarem-se debaixo das túnicas de padrinhos para alcançarem o sucesso. É isto que tem de ter um fim. Estas ‘maracutaias’ geram incertezas, não servem a longo prazo para os negócios.

Criam situações perniciosas, muito prejudiciais à imagem e à economia dos países. O nepotismo denota incertezas e desconfianças, não permite cimentar o futuro. Não é à toa que, no quadro dos melhores países a nível do mundo para se investir, publicado em 2014, Angola apareça lá no fim da tabela, na 181.ª posição, numa lista de 189 países.

É preciso mudar este olhar do mundo em relação a nós com acções mais ousadas. Infelizmente, ainda vivemos o ‘fantasma’ da fragilidade das nossas instituições, para além da inexistência de infra-estruturas de suporte à economia. No fundo, os nossos ricos não confiam no nosso próprio País, porque conhecem as suas fragilidades e não querem correr riscos. Isso preocupa-nos ainda mais, porque funciona como um espantalho para os estrangeiros que queiram investir aqui. Se o terreno não é fértil para o dono, isso transparece à tragédia para o estranho.

Olhar para a nossa tragédia é o primeiro passo para vencê-la, dizia um famoso dramaturgo.

É preciso entrar em contacto com o nosso mundo, com o qual convivemos. Rever as nossas urgências para promover uma economia forte e credível é inadiável. Precisamos de ricos que invistam aqui, que tenham histórias vividas e narradas de sucesso aqui, para serem lembrados também aqui no futuro.

Mas isso não significa que, para serem felizes, têm de investir tudo aqui. Precisam de investir mais aqui e ajudar este País a erguer-se e a caminhar sem volta. Precisam de criar riqueza e uma economia robusta aqui. E nós, os deserdados desta graça de Deus, que não temos esse poder financeiro, temos o dever e a responsabilidade de lhes oferecer o que é realmente essencial, embora invisível aos olhos: a nossa capacidade intelectual ou, simplesmente, braçal para empurrar este País lá mais para a frente. (expansao.ao)

 

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