“O surgimento das novas centralidades mexeu com o mercado imobiliário no País”

(Expansao)
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O administrador da Novinvest aponta a edificação de centralidades como um dos factores que estão a contribuir para a queda dos preços no imobiliário.

As pessoas que antes se habilitavam a casas entre 200 mil USD e 300 mil USD conseguem-nas hoje, em alguns casos com qualidade similar, nas centralidades, a preço mais baixo, explica.

Que avaliação faz do actual momento do mercado imobiliário em Angola?

É visível o momento menos bom que o mercado imobiliário vive actualmente. Aquela euforia que se vivia em 2007, 2009, já não é a mesma. Hoje, por força da conjuntura e da situação financeira que o País atravessa, o sector imobiliário está a marcar passos lentos. Aqui e ali vêem-se alguns investimentos, mas, no geral, não têm a mesma dinâmica de antes.

De que forma a crise está a afectar, em concreto, o mercado?

Afecta o mercado porque não há financiamentos, e o sector vive deles. Não havendo financiamentos, os investimentos não são feitos. Por outro lado, também, se praticavam altos preços e veio a constatar-se que, afinal, o mercado não tinha como sustentá-los, por isso vemos e sabemos de alguns empreendimentos que têm dificuldades em serem comercializados. Vivia-se com preços que não eram sustentáveis no sector.

Mas, ainda assim, alguns negócios vão sendo realizados…

Com certeza. O mercado não parou de todo. Pensamos que o segmento prime, embora com algumas limitações, continua a ‘fazer a sua vida’, se assim se pode dizer. Ou seja, penso que foi o menos afectado, até porque é um segmento que depende muito pouco de financiamentos. Tenho dito que as pessoas se defendem da desvalorização da moeda nacional adquirindo produto imobiliário, e só quem tem liquidez imediata consegue fazê-lo e não quem vai ao banco buscar crédito, porque não é um processo fácil e célere.

No segmento prime, o negócio tem sido mais arrendamento, ou compra e venda?

Diria que comércio e escritórios são mais para a venda. Habitação, surgem vendas e, às vezes, surge também interesse no arrendamento. Vai acontecendo um pouco de tudo, mas em menor escala do que acontecia há uns anos.

Para além da crise, que outros factores estarão a contribuir para a queda dos preços no imobiliário?

Falta de liquidez e, em alguns casos, a saturação do mercado. Penso, por exemplo, que, para o sector habitacional, o surgimento das novas centralidades mexeu com o mercado imobiliário no País, porque as pessoas que antes se habilitavam a casas entre 200 mil USD e 300 mil USD conseguem- -nas hoje, se calhar com qualidade similar, nas centralidades, a preços cinco a seis vezes mais baixos. Para mim, este foi um dos factores que fizeram com que houvesse uma queda de preços, tanto ao nível do arrendamento como da venda. De resto, os estudos estão aí para provar isto. Vai havendo escassez a nível de escritórios, a nível de comércio. Não é um sector já com a oferta satisfatória, principalmente quando se fala da baixa de Luanda.

Não alinha na tese que alguns defendem de que estamos perante uma ‘bolha imobiliária’?

Não chegaria até aí. Há situações que foram acontecendo. Na minha opinião, o surgimento das centralidades afectou o negócio imobiliário. Agora, não me parece que se tenha atingido uma ‘bolha imobiliária’, até porque, aqui e ali, as coisas ainda vão mexendo. Os créditos e os financiamentos não estão fechados, dependendo do projecto. Penso que já não se financiam tantos projectos como anteriormente, mas vão-se financiando alguns.

Perante o cenário actual, como é que antecipa a evolução do mercado imobiliário angolano em termos de preços?

Acho que as pessoas têm de estar conscientes de que os preços que se praticavam são insustentáveis e os promotores têm de ser os primeiros a reconhecê-lo e ajustá-los para aquilo que é justo. E, nisto, todos os actores deste sector têm de estar juntos a colaborar.

Como é que encara a intervenção, quase directa, do Governo em projectos imobiliários?

Alguma coisa tinha de ser feita, porque, afinal de contas, o objectivo é criar condições para a população – e nós temos uma população muito jovem que precisa de habitação. O mercado, infelizmente, da forma que estava, não favorecia que o jovem com primeiro emprego ou o casal de jovens tivessem a possibilidade de conseguir uma habitação própria. Para mim, isto foi algo que veio ajudar estas pessoas e também trazer alguma realidade ao nosso mercado imobiliário.

Esta intervenção do Governo não está a pôr em ‘xeque’ o negócio das imobiliárias?

De forma alguma. Temos de lidar com isso. Defendo que temos de ser justos e pensar no bem comum. Não podemos pensar que isto veio estragar o nosso negócio. Temos é de saber onde intervir, onde é que vamos buscar as oportunidades, em que segmento é que devemos actuar, até porque o Governo não está a actuar em todos os segmentos. O Governo não faz casas de luxo.

“O projecto Kizela é o nosso maior desafio para os próximos dois anos”

A Novinvest opera apenas em Luanda, ou tem alguns investimentos espalhados pelo País?

Neste momento, temos projectos activos em Luanda. Mas temos activos imobiliários noutras províncias – em Benguela, na Huíla e em Cabinda. Obviamente que, se surgirem oportunidades, nós consideramos investir nas províncias e fazer algum trabalho.

O que têm em Benguela, Cabinda e na Huíla?

Temos terrenos. Temos dois terrenos na Huíla, um em Cabinda e, em Benguela, temos o edifício Acácias Place, uma parceria com a Benguela Premium, que é um edifício de habitação, escritórios e comércio, ou seja, misto. Nas províncias em que temos terrenos, o que temos feito é tentar perceber, junto dos governos locais, que desenvolvimentos é que estão previstos, para tentarmos também perceber as oportunidades de negócio que podem surgir.

Em quanto está avaliada, actualmente, a vossa carteira de investimentos?

Temos um total de activos equivalente a 235 milhões USD.

Qual tem sido, em média, o volume de negócios realizado por ano?

O que lhe posso dizer é que, no ano passado [2014], facturámos cerca de 107 milhões USD.

Que projectos de vulto foram já realizados pela Novinvest?

A Novinvest é uma empresa gestão e intermediação imobiliária. Entre os projectos mais emblemáticos, temos dois edifícios nas imediações do Largo da Independência, que são o Atrium Independência e as Torres Dipanda. Neste momento, estamos a arrancar com um outro projecto na Baía de Luanda, que é o edifício Kizela. Diria que levar a cabo este projecto é o nosso maior desafio dos próximos dois anos.

Quanto é que investiram nos dois edifícios do Largo da Independência, e quanto é que vão investir no novo projecto da Baía?

Na Baía vamos investir cerca de 55 milhões USD. Estamos a falar de uma área de cerca de 19 mil m2. No edifício Dipanda investimos 127 milhões USD para uma área de 32 mil m2. No Atrium Independência aplicámos 50 milhões USD.

O Kizela será para escritórios?

Não. Será para habitação. A área em que está inserido o Kizela foi definida pela Baía de Luanda como uma área habitacional.

Existem datas concretas para o arranque do projecto?

Já arrancámos. Não com a construção, porque existem passos anteriores que têm de ser dados, como a elaboração do projecto, a contratação da construtora, e estamos nesta fase de elaboração do projecto. Por isso digo que nos próximos dois anos estaremos debruçados sobre este projecto. Pensamos que até 2017 teremos o edifício concluído.

Como está o retorno do investimento nos edifícios do Largo da Independência?

É positivo, principalmente a nível de imagem. Não há quem passe pelo Largo da Independência sem reparar no Dipanda. Há retorno em termos financeiros, e ainda de imagem, credibilidade e vigor.

Já está tudo vendido?

Estamos no processo de comercialização ainda. As vendas são vendas regulares, avançam a bom ritmo.

“Com a nova Lei do Arrendamento passamos todos a falar a mesma língua”

Como olha para a nova Lei do Arrendamento Urbano?

Fez os ajustamentos necessários e que há muito deveriam ter sido feitos nesta área. Penso que havia modalidades que se praticavam que não eram ajustadas ao nosso mercado – e cito apenas duas: definir rendas em moeda estrangeira e rendas antecipadas. Havia aqui às vezes períodos de um ano, ou até mais, de antecipação de rendas, e estes dois aspectos estão bem contemplados na nova lei. Pensamos que este novo instrumento veio ajudar a regular o sector.

Estamos perante uma lei equilibrada naquilo que tem que ver com direitos e deveres de senhorios e inquilinos?

É assim: o que agrada a uns desagrada a outros e, como se costuma dizer, não se pode agradar a gregos e a troianos. Penso que é a lei possível. Agora, com a sua implementação, obviamente surgirão situações que permitirão a melhoria da própria lei. Tem é de se começar a implementar para ver, aqui e ali, onde é que não funciona bem para se ajustar.

Que ganhos, a seu ver, esta nova lei pode agregar ao desenvolvimento económico do País?

É a tal disciplina e regulamentação que tem de existir, ou seja, com a nova Lei do Arrendamento, passamos todos, de alguma forma, a falar a mesma linguagem quando se trata deste tema, o que não acontecia anteriormente. Antes, cada senhorio decidia o que queria. Mesmo existindo um contrato, antes mesmo de este vencer, ele chegava e dizia que precisava da casa ou subia a renda quando lhe apetecesse. A partir de agora já se pode antever como será o dia de amanhã.

Poderá esta lei ter também alguma influência no comportamento dos preços?

Penso que é tudo um conjunto. O mercado em si, por aquilo que é a actual conjuntura, já começa a ajustar-se a nível de preços. A lei em si, penso que é mais para regular, não diria tanto os preços, mas talvez as modalidades, as questões contratuais e a relação entre inquilinos e senhorios.

A Novinvest tem estado também virada para o apoio ao mecenato. Que projectos e artistas apoiam?

Apoiámos, recentemente, uma iniciativa da Mov’art, juntando uma exposição de arte contemporânea, intitulada Versus. O nosso objectivo foi promover o intercâmbio de artistas angolanos, principalmente a camada jovem, que não tem tido muitas oportunidades, com artistas de valia internacional reconhecida, de forma a que estes jovens, para além de aprenderem ou melhorarem o seu trabalho, também o possam dar a conhecer. Sabemos que Angola tem talentos e, em termos culturais, é muito forte. Por isso apoiámos este projecto.

É o primeiro e o único que apoiam?

É o primeiro. Também não queremos sair por aí a apoiar projectos. Entendemos que podíamos ter ido para a música, para o desporto, mas acreditámos que são áreas que têm tido mais atenção. Temos, no entanto, a porta aberta, desde que surjam projectos de valor acrescentado, interessantes, que criem emprego e que ajudem a juventude. Estaremos sempre disponíveis para abraçar estas iniciativas.

Em que tem consistido este apoio? É financeiro, institucional?

Abrange todos os aspectos. Enquadra-se nas acções de responsabilidade social que entendemos que todas as empresas devem ter. Neste caso, para além do apoio financeiro, disponibilizámos o espaço para a própria exposição. Ao contrário do que habitualmente acontece, em que as exposições são feitas em galerias de arte, ou museus, levámos a exposição para um dos apartamentos da torre Dipanda, com cerca de 300 m2. (expansao.pt)

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