“O preço do petróleo irá manter-se em baixa durante um período prolongado”

Spencer Dale (Foto: D.R.)
Spencer Dale (Foto: D.R.)
Spencer Dale
(Foto: D.R.)

Em entrevista ao SEMANÁRIO ECONÓMICO, o economista britânico e vice-presidente da área económica do Grupo British Petroleum perspectiva que a baixa do preço do petróleo no mercado mundial vai permanecer por mais tempo

Spencer Dale aconselha Angola a manter o sector petrolífero atractivo e competitivo. Entretanto, defende a definição de uma estratégia exequível para a materialização da diversificação económica.

Quais são as perspectivas para o sector energético até 2035?

Prevemos um aumento no consumo de energia nos próximos 20 anos com o aumento da eficiência energética a ser cada vez mais compensado pelo aumento rápido da procura, principalmente a partir de economias em desenvolvimento, sobretudo na China e na Índia. Durante este período, a procura por todas as fontes de energia irá aumentar, mas o carvão apresentará uma evolução mais lenta, principalmente devido aos esforços dos governos para mudar para combustíveis menos poluentes, tais como o gás ou fontes de energia renovável com zero emissões de carbono.

Quer dizer que os combustíveis…

Entre os combustíveis fósseis, o gás é o que irá aumentar mais, impulsionado pela substituição do carvão pelo gás na produção de energia, assim como pelo facto de o gás ser uma fonte de energia alternativa conveniente, uma vez que os países adoptam fontes de energia renováveis com capacidade de produção intermitente, como a eólica e a solar. Entretanto, a procura de petróleo continuará a crescer, embora as tendências nos últimos anos para uma maior economia de combustível continuem e possam, de facto, acelerar, isto será mais do que compensado pela duplicação prevista do número de automóveis nas estradas de todo o mundo.

E os preços?

Os preços são imprevisíveis para além do médio prazo, dado o número de variáveis. Estas incluem a futura produção de xisto, com a grande maioria produzida actualmente nos Estados Unidos da América, embora os recursos de xisto sejam encontrados noutras regiões do mundo, como Ásia, Rússia e Europa. Outra variável significativa diz respeito à OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e ao preço que julguem servir melhor os seus interesses a longo prazo.

Quais as acções que devem ser tomadas para reduzir o impacto da crise internacional do petróleo?

A “crise” é, naturalmente, complexa e multifacetada – e, de facto, não é vista como uma crise para muitos países – como a maioria da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Índia e China que são grandes importadores de petróleo e que, por isso, estão a beneficiar dos preços mais baixos. Para melhorar a situação dos países produtores de petróleo, existem duas principais áreas de foco: Primeiro, o equilíbrio da procura e oferta precisa de melhorar para que os preços subam em relação aos seus níveis actuais. Isto deverá estar ao alcance dos países produtores de petróleo, na medida em que podem optar por reduzir a sua produção. Na prática, isto aplica-se principalmente à OPEP, que está configurada para coordenar os níveis de produção entre os países membros.

E em segundo lugar?

Em segundo lugar, a indústria precisa de se adaptar à nova realidade, sendo provável que os preços baixos prevaleçam a médio prazo. É importante lembrar que a indústria do petróleo e do gás teve de se adaptar às oscilações ascendentes e descendentes dos preços durante décadas. Também é interessante notar que os níveis de rentabilidade na indústria tenham diminuído gradualmente ao longo dos anos. Em parte, isto deveu-se à base de custos muito mais baixa em vigor naquela altura, que, desde então, tem aumentado substancialmente devido aos elevados níveis de inflação na indústria, uma vez que as empresas procuram fontes de produção cada vez mais caras, convencidas de que os preços de mercado elevados justificariam esta abordagem. Portanto, a indústria terá de fazer a transição para esta nova realidade, o que irá exigir alterações significativas por parte dos operadores, prestadores de serviços e governos.

Que medidas Angola precisa de tomar para enfrentar esta situação?

Tal como no resto da indústria, o sector do petróleo e gás em Angola terá de fazer a transição para a nova realidade de preços mais baixos. Isto vai exigir alterações significativas por parte dos operadores, prestadores de serviços e governo para reduzir os custos e tornar o sector mais competitivo. Isto pode ser visto a partir de duas perspectivas: a da produção actual e a de projectos futuros. Relativamente à produção actual, muitos campos são agora apenas marginalmente lucrativos ou até mesmo deficitários. Esta situação está a forçar a indústria a explorar opções para melhorar a rentabilidade destes campos. Relativamente a projectos futuros, o desafio é mais acentuado, sobretudo devido à menor rentabilidade dos potenciais projectos tendo em conta os baixos preços do petróleo e a menor disponibilidade de capital. É, portanto, importante que todos os principais intervenientes em Angola – operadores, prestadores de serviços e o governo – entrem em diálogo para compreender o papel que cada um pode desempenhar para melhorar a competitividade da indústria, tanto para garantir a rentabilidade das operações existentes como para incentivar novos investimentos, sem os quais a produção inevitavelmente entrará em declínio a médio prazo.

E o papel da OPEP?

A OPEP coordena os níveis de produção entre os países membros. No entanto, em relação à resposta ao aumento da produção de xisto nos EUA, a OPEP decidiu manter a produção dos países membros e preservar a sua quota de mercado.

Qual é a sua previsão até 2021?

O mercado tende a ajustar-se gradualmente a partir do período actual em que existe um excesso de oferta. Mas este processo poderá demorar vários anos, especialmente para que os níveis de armazenamento de petróleo bruto voltem aos níveis mais normais. Desta forma, o mais provável é que o preço do petróleo se mantenha em baixa durante um período prolongado.

Quais são as expectativas para Angola?

Tal como noutros países e no resto da indústria, é de esperar que o sector petrolífero em Angola esteja sob forte pressão para se adaptar à nova realidade. Isto vai exigir alterações significativas por parte dos operadores, prestadores de serviços e governo para reduzir os custos e tornar o sector mais competitivo. Estamos confiantes de que a indústria petrolífera irá adaptar-se com sucesso à nova realidade, e portanto continuamos a ver um futuro positivo em Angola com níveis de produção saudáveis durante os próximos anos.

O mercado está a responder ao impacto provocado pela crise?

Em muitos aspectos, sim. Os operadores e os fornecedores têm feito intervenções radicais para baixar os seus custos, reduzindo as actividades, renegociando contractos e adaptando a sua estrutura organizacional à nova realidade. Os governos também estão a responder, tomando medidas para tornar os seus regimes regulatórios e fiscais mais competitivos, de modo a apoiar a produção existente e a promover os investimentos futuros. Há ainda muito a ser feito e a indústria está ainda longe de ter concluído a sua adaptação para ser competitiva com preços na faixa dos $50.

O que se pode esperar nos próximos anos?

O crescimento no consumo do petróleo deverá ser relativamente sólido ao longo dos próximos anos, uma vez que responde a um nível de preços mais baixos. No entanto, o excedente de oferta no mercado deverá persistir, fazendo com que os preços permaneçam baixos durante um período prolongado.

Qual é à sua opinião em relação ao stock?

O stock é uma variável fundamental e fascinante no mercado. Presentemente, com o actual desequilíbrio entre a oferta e a procura, o mundo está a comprar cerca de um milhão de barris de petróleo a mais do que está a consumir. Este petróleo está a ser armazenado e os comerciantes têm esperança de futuramente o vender de novo no mercado, à medida que os preços aumentem. Os níveis actuais de stock na OCDE já estão bem acima dos níveis máximos observados anteriormente. Não estão disponíveis dados para os níveis de stock fora da OCDE e isto representa uma grande incógnita no mercado. A preocupação é que, assim que o stock em terra se esgote, os comerciantes serão obrigados a armazenar petróleo em estruturas flutuantes, o que é significativamente mais caro. Se isso acontecer, poderá fazer com que os preços caiam ainda mais.

O que irá acontecer aos países com maior produção de petróleo caso optem pelo armazenamento flutuante?

Uma vez que o petróleo é uma mercadoria comercializada globalmente, a preocupação acerca do armazenamento flutuante contra o stock em terra não se refere especificamente aos países individuais, mas sim ao mercado como um todo. A principal diferença entre o armazenamento flutuante e o stock em terra é que o armazenamento flutuante é significativamente mais caro. Caso o stock em terra venha a ficar saturado, a preocupação é que os preços sejam forçados a descer significativamente pois os comerciantes tem de ser compensados por estes custos adicionais.

Acha que o aumento do stock irá piorar a situação?

É algo impossível de prever. Pode ser o caso, mas não temos como saber porque não temos dados abrangentes sobre os actuais níveis de armazenamento, excepto para os países da OCDE, ou sobre a capacidade adicional de armazenamento. O que sabemos é que, actualmente, os níveis de armazenamento na OCDE já estão bem acima dos níveis máximos observados anteriormente.

Quais são as suas considerações relativamente ao petróleo de xisto nos próximos anos?

A produção de petróleo de xisto tem crescido muito significativamente nos últimos anos. Apesar das pressões exercidas pelos preços mais baixos, prevemos que a oferta de xisto continue a crescer, embora a um ritmo mais lento do que teria sido o caso se os preços se mantivessem nos níveis anteriores. As nossas actuais previsões apresentam a produção de xisto a crescer em todo o mundo, contudo a grande maioria deste aumento continua a vir dos Estados Unidos.

Afirmou que um dos principais motivos para os baixos preços do petróleo são as reservas e a procura de produção. Que medidas os países produtores deviam tomar para que os preços possam voltar ao normal?

Em primeiro lugar, é importante sublinhar que não existe verdadeiramente nenhum nível “normal” – e certamente não será o nível de preço de $100 que a indústria desfrutou durante vários anos até os preços começarem a cair no verão passado. Tal como todos os negócios de mercadorias, a indústria petrolífera tem vindo a adaptar-se às oscilações ascendentes e descendentes dos preços desde nas últimas décadas. Para que os preços possam subir em relação aos níveis actuais, é fundamental a existência de um equilíbrio entre a procura e a oferta. Isto deverá estar ao alcance dos países produtores de petróleo, na medida em que estes podem optar por reduzir a sua produção. Na prática, isto aplica-se principalmente à OPEP que tem autoridade para coordenar os níveis de produção entre os países membros.

Afirmou que só vamos superar esta crise em 2021. Quais são as bases para esta afirmação?

O mercado tende a ajustar-se gradualmente a partir do período actual em que existe um claro excesso de oferta. Mas este é um processo que poderá demorar vários anos, especialmente para que os níveis de stock de petróleo bruto regressem a níveis mais normais. Desta forma, o mais provável é que o preço do petróleo permaneça em baixa durante um período prolongado.

Com o actual cenário de crise internacional do petróleo a taxa de inflação angolana está a aumentar. Qual é a sua opinião acerca desta situação?

Eu compreendo que este é um momento difícil para Angola, pois o baixo preço do petróleo teve um grande impacto sobre as receitas fiscais e das exportações do país, conduzindo a uma significativa desvalorização do Kwanza e pressões inflacionárias. Não existem soluções fáceis para uma situação como esta. As autoridades terão de continuar aquilo que já estão a fazer, que é incentivar a produção doméstica para substituir as importações e minimizar a falta de uma moeda forte na economia através da priorização cuidadosa de alocações em de acordo com as prioridades do país.

O que irá acontecer a curto prazo?

Não prevemos um fim rápido para esta situação. Prevemos a manutenção da baixa dos preços do petróleo a curto prazo, com aumentos graduais a médio prazo. Achamos improvável que os preços regressem aos anteriores níveis de cerca de $100 num futuro próximo.

Isso irá representar um desafio para a indústria, pois esta terá de se adaptar à nova realidade, exigindo intervenções significativas por parte dos operadores, prestadores de serviços e governos para reduzir os custos e tornar o sector mais competitivo.

Porque é que a Arábia Saudita é capaz de influenciar os preços?

A Arábia Saudita é um dos maiores produtores do mundo com uma produção de petróleo diária de mais de 10 milhões de barris. Os seus custos de produção estão entre os mais baixos do mundo. E é o único país com uma margem significativa de capacidade não utilizada. Isto faz com que a Arábia Saudita seja um interveniente considerável no mercado de energia mundial.

De que forma é que as empresas precisam de reagir para enfrentar esta situação?

A actual realidade de preços do petróleo significativamente mais baixos, que provavelmente irá persistir no futuro previsível, representa um desafio significativo para todas as empresas do sector, à medida que estas procuram a transição para um modelo operacional estável, que lhes permita permanecer rentáveis. Isso irá exigir esforços concertados para se tornarem mais eficientes e, consequentemente, reduzirem as suas bases de custos ao mesmo tempo que envidam todos os esforços para maximizar a produção. Desenvolver projectos económicos exige abordagens inovadoras, tais como explorar várias soluções técnicas através da estreita colaboração entre operadores e prestadores de serviços para procurar opções de custos mais baixas. Existem muitos exemplos já comprovados na indústria.

Pode apresentar algumas soluções?

Receio que não existam soluções simples. Pelo contrário, a indústria terá de delinear uma transição para a nova realidade de preços mais baixos. Isto vai exigir alterações significativas por parte dos operadores, prestadores de serviços e governos para reduzir os custos e tornar o sector mais competitivo. Muito deste trabalho já está em curso em muitas partes do mundo, incluindo Angola.

O economista com voz nas decisões da BP

Spencer DaleSpencer Dale é um economista britânico que actualmente ocupa a posição de vice- presidente da Área Económica do Grupo British Petroleum.

Na BP, Spencer Dale dirige a Equipa Global de Economia, providenciando aconselhamento e orientação económica no processo de tomada de decisões da companhia. A Equipa Global de Economia produz igualmente o relatório de Análise Estatística do Mundo Energético e o relatório de Perspectivas Globais de Energia.

Formou-se em economia pela University of Wales (University College Cardiff ) em 1988 tendo posteriormente obtido o grau de Mestre em Ciências Económicas pela University of Warwick em 1989, altura em que foi recrutado pelo Banco Central da Inglaterra (Bank of England).

Foi nomeado Director Económico do Bank of England em Julho de 2008. Em 2014 foi nomeado Director Executivo do banco para a Estratégia de Estabilidade Financeira e Riscos, com responsabilidades no Comité de Politica Monetária e no Comité de Politica Financeira.

Spencer Dale serviu também a Reserva Federal dos EUA em Washington como conselheiro sénior da Divisão de Assuntos Monetários do Conselho de Administração do Sistema de Reservas Federais dos EUA. A 4 de Agosto de 2014 deixou o Bank of England para ocupar a posição de Vice- presidente da Área Económica do Grupo BP. (semanarioeconomico)

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