O ex-guerrilheiro empresário

O empresário que trocou as armas pelo negócio (Foto: D.R.)
O empresário que trocou as armas  pelo negócio (Foto: D.R.)
O empresário que trocou as armas pelo negócio
(Foto: D.R.)

Já viveu em oficina abandonada, entrou na arena dos negócios em 1997 com kz 60 mil, e conta hoje com um património avaliado em 20 milhões de dólares, um negócio a render-lhe um milhão de dólares

Chama-se Nascimento Alberto, é o quarto de oito irmãos. É natural do município do Bembe, província do Uíge, tem 57 anos de idade, e uma história de vida cheia de altos e baixos, mas agora é um empresário de sucesso.

Em 1975, antes de completar 18 anos de idade, Nascimento Alberto alistou-se em grupos de guerrilheiros ligados ao MPLA. Anos depois deixou o Bembe e rumou para Luanda, onde encontrou o seu primo Pedro Kubango, militar, que o levou para Cabinda.
“O meu primo era um guerrilheiro e aconselhou-me a deixar a vida militar para continuar a estudar”, disse.

Para a sua surpresa, o seu primo fora transferido para o Huambo três meses depois de ter começado as aulas da 8ª classe. Sem o seu guia e numa terra desconhecida, Nascimento Alberto chorava e clamava para que Deus mudasse o rumo da sua vida e lhe renovasse a esperança de voltar a pisar o seu Bembe.

“Estava habituado numa vila pequena onde para comer não precisava de ter a presença dos meus pais, pois conhecíamo-nos todos”, lembra.

Quanto menos esperava, a casa onde vivia foi entregue a um outro chefe que substituíra o seu primo. Foi o começo de uma vida pródiga, que, conta Alberto, se fosse nos nossos dias o converteria num bandido. Decorria o ano de 1976, para Alberto nada restava, se não se refugiar numa zona além do aeroporto de Cabinda, numa casa sem porta que por sinal era oficina do pai do seu colega de escola.

Terminou a 8ª classe, e como tinha completado 18 anos de idade viu-se obrigado a fazer o recenseamento militar, pelo que foi incorporado nas forças armadas em 1977. Nos finais de 1979, no Cunene, contraiu uma lesão fruto de um ataque sul-africano, tendo sido levado ao hospital.

Aterrorizado com a vida na frente de combate, conseguiu um documento que atestava a sua invalidez para o cumprimento do serviço militar obrigatório. “Do Cunene fui transferido para Lubango, e depois para Luanda, isso em 1980.

Dos ovos para as petrolíferas

Em Luanda, Alberto começou a trabalhar na direcção nacional dos recursos humanos do Ministério da Construção, tendo sido transferido depois para Cimangola.

Passou a viver no bairro militar, distrito da Maianga, onde alugara um quarto, ao mesmo tempo que estava a frequentar o ensino médio no ex-Instituto Industrial “Macarenko”, na Vila Alice, em Luanda.

Durante o período de trabalho conseguiu acumular 60 mil kwanzas, tendo-lhe permitido abrir em 1997, em Cacuaco, a sua empresa, Nasa Comercial Alberto, e a empregar três trabalhadores, dos quais a sua esposa, Adelina Alberto. “Depois da adesão do país ao sistema de economia de mercado, em 1992, percebi que além de ser funcionário público podia fazer investimentos comerciais”, disse, reforçando que foi assim que se deu a sua entrada para o mundo dos negócios.

Sem dominar o mercado, Alberto entendeu dar os primeiros passos no mundo dos negócios, importando da África do Sul ovo e arroz. Começou com 500 toneladas e de mil não passou.

“Depois da paz começaram a chegar os libaneses que invadiram o mercado importando grandes quantidades de tudo quanto fazíamos. Afogaram-nos a todos”, disse.Alberto foi obrigado a aplicar o plano B. Começou a fazer contactos com as petrolíferas identificando os seus problemas, sobretudo as necessidades. “É assim que descobri que eles precisavam de pequenas empresas para fazerem serviços que eles não estavam habilitados a fazer”, justificou. Passou a distribuir equipamentos de segurança, nomeadamente botas, capacetes e fatos. Conciliou o trabalho público e privado, mas foi em 2009 que decidiu interromper o seu vínculo com a Cimangola dedicando-se apenas ao negócio.

De lá para cá, a sua empresa evoluiu para um grupo com três subsidiárias, a Nasa que fornece materiais de segurança, a Allead Energy voltada para os produtos químicos e lubrificantes e a Pex Hidráulica, virada para o fabrico de equipamentos hidráulicos.

Empresário de sucesso, Nascimento Alberto conta agora com 30 trabalhadores, um rendimento anual de um milhão de dólares, e o seu património está avaliado em 20 milhões de dólares.

Tem como clientes as petrolíferas, BP, Chevron, Halliburton, Sonangol, Schlumberger, Somoil, Angola LNG, Total, SBM Offshore, Exxon Mobil, Ensco, Petromar, OPS, Seadrill e Esso.

Na América e Europa conta com fornecedores como a Honeywell, Drager, MCR Safety, a Du Pont e a Red Wing.

Alberto disse que passou a participar dos concursos das petrolíferas e assinou em 2007 um contrato com a Chevron avaliado em cinco milhões de dólares.

Dificuldades

Tal como hoje, Nascimento Alberto disse que a maior dificuldade que enfrentou foi a falta do dólar nos anos 97 a 2000. Disse que era preciso requisitar ao banco para ter dólares e conseguir importar. Lembrou que para solucionar tais dificuldades recorria às quinguilas no antigo mercado do Roque Santeiro.

Projectos

Nascimento Alberto disse que o seu maior sonho é ver Angola a viver das receitas fiscais, a tornar-se num país onde o governo não é tido como o faz-tudo, o maior empregador. “O país só evoluirá quando o empregador for qualquer um de nós. Se há países que vivem das contribuições fiscais, essas são as pessoas fora do sector público que contribuem”, defendeu. Sonha ver um país onde as pessoas, depois de formadas, tenham pela frente dois caminhos: criarem empresas ou serem recebidos por outros que já criaram

Da sua experiência, Alberto deixa um conselho: “quem entra para um negócio nunca deve dizer, isto é apenas para desenrascar”.

“É preciso ter jeito e coragem, fazer as coisas com seriedade, mesmo quando vais jogar bola de trapo”. Foi com estas palavras, um dia ditas pelo seu pai, que Nascimento Alberto encerrou a narrativa de um pedaço da história da sua experiência. (semanarioeconomico)

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