Nascidos no Alcorão agora de Bíblia na mão

(Foto: D.R.)
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Ex-muçulmanos existem em Angola. Dizem-se legalmente livres de praticar e aderirir a nova fé religiosa, mas afirmam que com “muita cautela e precaução”, por temerem représalias dos ex- irmãos

ND nasceu fiel ao Islão.

Desde cedo que não conseguia entender a razão de tanto sofrimento na sua terra natal, o Líbano, dilacerada por conflitos armados e uma permanente instabilidade.

A sua infância e adolescência foram percorridas entre bombas, disparos de kalachinikov e a adoração a Alá. Aos 25 anos de idade, à convite de um amigo, abre-se a possibilidade de emigrar. Parte para Marrocos, depois segue para a Etiópia e seguidamente chega à Luanda com visto de turista.

Fazendo fé que “Alá ajuda em tudo”, acredita que tinha encontrado a sua segunda pátria. Enquanto imigrante ilegal em Angola, buscou apoio de irmãos na fé islâmica. Consegue um emprego como balconista numa casa comercial, mas por imposição do patrão é obrigado a contrair matrimónio com uma cidadã da mesma confissão religiosa originária do Djibuti.

A sua vida sentimental rapidamente torna-se caótica, passando por uma relação conturbada de oito anos, que culminou em separação, nunca admitida pelos seus pares algures no bairro Hojy-ya-Henda, em Luanda.

Desolado, sobrevive, graças ao encorajamento de amigos e colegas de serviço, particularmente de uma jovem de nome Sara, que desempenha funções de caixa na mesma loja. Entre ambos se estabelece uma relação de cumplicidade que num ápice passa a namoro.

ND conta que viu em Sara “a mais bela mulher na face da terra”. Manifesta ao patrão e irmãos de fé a necessidade de juntar-se ao seu “novo amor”, mas é condicionado a trazê-la antes para a religião.

Sara, cristã convicta e “metodista com todos os sacramentos”, não desiste do sonho de celebrar matrimónio no altar da sua igreja. Um sonho que vem tenra idade.

A angolana, originária de Malanje jurara aos seus progenitores antes destes morrerem que seria Metodista “até ao último dia de sua passagem na terra”. Para não contrariar o namorado, Sara propõe ao jovem muçulmano que se casassem apenas no civil e que cada um se mantivesse na sua confissão religiosa. Um pouco depois, DN volta a tentar o consentimento dos pares e recebe um “não” categórico. Contrariado, ante a adversidade da situação, decide abandonar tudo, emprego e religião.

Hoje ND vive algures em Luanda e teve de trocar de nome e de visual. Acredita que “Deus Único vai ajudar nesta sua nova odisseia”.

É feliz, diz, mas teme pela sua vida, porque diz que se for descoberto pelos pares “é um homem morto”. Entretanto confia nos designios de Deus a quem pede protecção. Está a frequentar um curso bíblico e, se dependesse de si, para fazer feliz a sua futura esposa, não se importaria de casar numa cerimónia cristã. E alimenta um sonho: “gostaria de me tornar Pastor Metodista”.

Outro caso é o de Muhammad El Bishara, filho de pais palestinianos e iniciado nos preceitos islâmicos desde cedo. Aos 19 anos de idade partiu para uma aventura de emigrante na Europa. No velho continente chegou ao contacto com um grupo empresarial indiano que o contratou para futuras missões comerciais em África. Formado em gestão empresarial, adoptou o islamismo como sua crença oficial, porque, como ele mesmo faz questão de dizer, “na terra natal nós não podemos crer em algo diferente, caso contrário somos humilhados, não somos reconhecidos e é proibido falar de outro Deus”.

Muhammad viveu muito tempo nessa crença, no entanto, sempre ouviu falar de Cristo e melhorou o seu conhecimento do cristianismo quando foi estudar português no Brasil. Na terra do samba, distante do acirrado controlo dos pais e da comunidade, interessou-se mais pelo cristianismo. Falando melhor a língua de Camões foi contratado para um emprego em Luanda. Tudo facilitado na irmandade islâmica que ele diz estar “muito enraizada em Angola”.

Apaixonado pelos encantos de Luanda e de suas gentes, Muhammad faz novos amigos e frequenta as noites “quentes da cidade da Kianda”. Acusado de conduta ímpia e boêmia, o jovem é chamado aos mais diversos níveis dentro das estruturas da comunidade islâmica em Angola.

Insatisfeito, decide romper com o seu passado religioso e cultural aderindo a Igreja Católica. Ainda sem nenhum sacramento, Muhammad diz ter nascido de novo. “Fui tomado por uma ira inexplicável, e vontade de liberdade. De experimentar novas coisas, por isso rompi com o meu passado”.

Entretanto, o jovem originário da Palestina, com passagem pelo Iémen e Líbano, sabe que está a cometer uma falta grave e a romper com toda a sua família, pois daqui para frente ninguém mais o vai aceitar. “Sei dos riscos, mas vou em frente. Sou muito jovem e tenho direito de escolha sobre o que quero fazer da minha vida” desabafa.

Para demonstrar os seus paulatinos progressos na fé cristã, Muhammad cita trechos da Bíblia e exacerba o optimismo que o anima. Abre o livro e cita alto e bom som: crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e a tua casa.

A finalizar a nossa conversa, Muhammad diz que está no caminho certo e acredita que um dia a harmonia mundial entre os homens será possível. E mais uma vez socorre-se do livro sagrado dos cristãos: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus; é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.

Sasha é uma jovem etíope de 27 anos de idade que vive em Angola há 5 anos. Como a maior parte dos seus conterrâneos, chegou a Luanda acolhida pela comunidade muçulmana, mas depois teve que batalhar pela vida.

Hoje tem uma casa comercial, cuja especialidade é a culinária da sua terra, mas para atrair clientes teve de ceder às sugestões de incluir álcool nos produtos a comercializar. De pouca fala e sempre desconfiada, Sasha sabe dos perigos que corre, mas entre ganhar o pão para sustentar o filho que tem e a mãe na sua terra natal e continuar “presa aos preceitos islâmicos,” escolheu a primeira opção. Diz que é uma questão de sobrevivência.

Conta que até antes da crise o negócio estava a prosperar, “mas agora baixou um pouco”. Acredita que em breve a pujança da economia angolana se restabelece e os seus clientes recuperam o poder de compra. Considera-se uma cidadã sem religião. O seu sonho é tornar-se estrangeira residente em Angola e dar outro rumo a vida. Segreda-nos que por enquanto ainda não revelou à mãe que se afastou do Islão, mas diz que “mais tarde ou mais cedo ela vai saber”. Teme mais as represálias da comunidade islâmica em Angola que o possível desprezo e abandono da sua família.

Entrevista sim, mas sem gravação e nem fotografias

Para entrevistar as únicas 3 pessoas que acederam a dar o seu depoimento, de um grupo de seis que declaram ter abandonado o Islão, tivemos de aceitar algumas regras restritivas.

Não permitiram entrevista gravada, nem fotografia ou telemóveis. Por outro lado, as entrevistas foram realizadas no período nocturno, em locais públicos. Dizem “não confiar em ninguém”, pelo que não permitiram que chegássemos às suas casas.

Dizem desconfiar dos irmãos radicais. “Sabemos que oficialmente não existe nada estabelecido, mas alguns conservadores podem tomar medidas unilaterais” dizem.

Não conseguem falar em números, mas afirmam que existem no país, particularmente em Luanda, algumas dezenas de cidadãos que decidiram “abandonar a fé islâmica e que aderiram a outras igrejas ou tornaram-se não religiosos”.

Afirmam que habitualmente, quando as pessoas decidem afastar-se da religião tambem se afastam das relações com os antigos irmãos, porque “elas nunca mais voltarão a ser a mesma coisa”. Quem abandona é praticamente banido do convívio daqueles que ficam. Fontes documentais consultadas referem que uma das características do islamismo é o de considerar que aqueles que deixam de ser muçulmanos estão a cometer uma “perversidade” que deve ser sancionada, embora não referindo claramente o tipo de sanção. Correntes mais radicais consideram que o castigo seja a morte. “Aqueles que blasfemam e se afastam dos caminhos de Alá e morrem como blasfemos, Deus não os perdoará”. Entretanto, os mesmos preceitos islâmicos determinam também que a “qualquer muçulmano que vire as costas para o Islão deve ser dada uma chance para reconverter-se à religião”.

Abandonar uma crença religiosa é um direito que a todos assiste. Aliás, a Declaração Universal dos Direitos do Homem refere que“toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este incluindo a liberdade de mudar de religião ou de crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela sua observância, isolada ou coletiva, em público ou em particular”.

A punição para o crime de abandono da religião é aplicada diferentemente nos países islâmicos, sendo para uns mais e noutros menos severa.

Os ‘perseguidos devem fazer queixa a Policia’

David Alberto Já, secretário-geral da Comunidade Islâmica de Angola presume que as pessoas que falam em “perseguição” estão imbuídas de “intentos inconfessos ou procuram formas de justificar os seus fracassos e insucessos”.

Afirma que o Islão é “uma religião de paz” quer à luz do Alcorão quer com base em outros preceitos que o guiam. Um bom filho do Islão busca salvar vidas, trazendo para a fé islâmica outros irmãos, mas a ferramenta de mobilização é o diálogo, argumentação e persistência”.
David Já acrescenta que no caso de Angola é garantida a liberdade de aceitar ou não uma religião, “tal como se faz com os partidos políticos onde as pessoas tem direito de escolha” e não existem leis que estabelecem punições.

“Tal como todos os dias temos novas pessoas a aderirem ao Islão, o inverso também acontece e isso é plenamente normal” afirma o Secretario-geral da Comunidade Islâmica de Angola.

Quando as pessoas fazem a sua escolha, caso seja a de abandonar a religião, continuam a ser iguais a todos e a manter afectividade e relações com os antigos irmãos em fé.

David Já “desafia” os denunciantes a mostrarem “a cara” e terem coragem de indicar as possíveis pessoas que lhes terão proferido ameaças.

Por outro lado, refere que o argumento segundo o qual “contrair matrimónio com pessoas exteriores a confissão religiosa” é suficiente para se sofrer represálias não colhe “porque muçulmanos casados com pessoas fora da religião existem em todo o mundo islâmico. “Se for caso, posso até proporcionar-lhe encontros com irmãos nossos casados com cristãs e vice-versa”.

David Alberto Já afirma que “no Islão saem e entram crentes a todo o momento. É tudo uma questão da fé e a fé é individual”.

O dirigente islâmico diz que a comunidade em Angola tem assuntos de sobra para se manter ocupada, como o são os passos para a aquisição de personalidade jurídica ambicionada por cerca de “800 mil almas que compoem a comunidade em Angola”, pelo que não está interessada em “invenções de caríz esquisofrênica de algumas pessoas que não conhecem a realidade da religião”.

O secretário-geral da Comunidade Islâmica de Angola sugere aos denunciantes que, para que a sua causa ganhe corpo, devem “fazer queixa às autoridades angolanas porque a ser verdade o que se afirma, está em curso uma situação que configura um crime”. Por outro lado, David Já oferece os préstimos da comunidade no sentido de ela mesma prestar auxilio, mas, “é preciso que as supostas vítimas saiam do anonimato”.

Origem do Islão

Originária do Oriente Médio, o Islão prega a submissão a um Deus único e omnipotente a que todo o ser humano deve reverenciar e ao qual deve se submeter. A religião islâmica é por ordem de surgimento, a ultima de três das principais do mundo, nomeadamente o Judaísmo, a mais antiga, com cerca de 3 mil anos; o Cristianismo, com cerca de 2 mil anos, e o Islão, com aproximadamente 1600 anos.

Os fiéis ao islamismo têm basicamente deveres a cumprir, os quais se confundem com os pilares da religião.

Acreditam na existência de um Deus único, tendo Maomé como seu profeta, crêem no dia do juízo final, em que Deus aceitará os bons, e os maus destinados ao inferno.

O crente deve rezar várias vezes ao dia, e a reza é uma veneração a Deus e não um pedido de benefícios.

Os anais da história universal referem que na época da criação do Islão a população do Médio Oriente era esmagadoramente cristã e, nos primórdios do Islão, 95% dos habitantes dessa região do planeta manifestavam-se como adeptos do cristianismo, enquanto apenas 5% praticavam o Islão. O curioso é que o quadro hoje é diametralmente oposto: na região, 95% são adeptos do Islão e só 5% assumem-se cristãos.

Aproximadamente um quarto dos 1,3 bilhões de muçulmanos vivem hoje em países não muçulmanos. (opais.ao)

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