Não basta a Cavaco falar com o líder do seu partido, acusa Costa. Que recusa bloco central

António Costa pede ao BE e PCP que clarifiquem posições (Fotografia © REUTERS/Rafael Marchante)
António Costa pede ao BE e PCP que clarifiquem posições (Fotografia © REUTERS/Rafael Marchante)
António Costa pede ao BE e PCP que clarifiquem posições (Fotografia © REUTERS/Rafael Marchante)

Mandatado para ouvir todos, socialista diz que bloco central é “pouco saudável”. BE e PCP devem clarificar condições para formar novo governo. Liberdade de voto nas presidenciais evita “fraturas” no PS

Desenganem-se aqueles que acham que António Costa está muito disponível para facilitar a vida à coligação de direita – e responder de forma positiva ao apelo de Cavaco Silva, a quem aliás criticou a declaração “bastante atípica” ao país, na noite de ontem, porque ao Presidente da República não basta falar “com o líder do seu partido” se quer promover o diálogo entre os partidos.

O secretário-geral do PS quer ouvir o que a coligação lhe tem para propor. Mas sempre foi adiantando que um “bloco central” é “pouco saudável” porque “diminui a possibilidade de geração de alternativas” e o mandato que os eleitores deram aos socialistas é o da recusa da austeridade. O “ónus” de arranjar soluções viáveis de governação está nas mãos de Passos Coelho, atirou Costa, à saída da reunião da Comissão Política socialista, que terminou pelas 2.00 da manhã desta quarta-feira.

“O mandato que temos é para falar com o conjunto das forças políticas. Neste quadro parlamentar que é novo e que exige de todos um grande sentido de responsabilidade para o país, vamos avaliar e tentar encontrar boas soluções programáticas para o país”, explicou o secretário-geral do PS. Que abriu depois a porta a bloquistas e comunistas: “Consta das deliberações do congresso do PS que o PS não reconhece esse conceito de ‘arco da governação’ como delimitando negativamente quem são as forças políticas que podem participar em soluções governativas.”

Se o PS mostra disponibilidade em ouvir todos, sempre vai pedindo que BE e PCP clarifiquem o que querem “sobre a existência de condições para a formação de um novo governo com suporte parlamentar maioritário”, como se escreve no comunicado final da reunião, lido por Ana Catarina Mendes.

A declaração “bastante atípica” de Cavaco. Reagindo por fim à declaração ao país do Presidente da República, António Costa não foi meigo na avaliação das palavras de Cavaco Silva. “O Presidente da República, se quer ser um promotor de diálogo, não deve considerar que é suficiente falar com o líder do seu partido. Portanto, não é essa a função do Presidente da República. Acho que não seria construtivo comentar muito mais aquilo que não requer muitos comentários por ser de tal forma evidente”, acrescentou. Mas antes comentou, notando que a intervenção “é em si bastante atípica”.

“Aquilo que resulta da Constituição é que o Presidente da República, na sequência do ato eleitoral, deve promover a audição das diferentes forças políticas. Bem sei que não houve um ato de indigitação [de Passos Coelho como primeiro-ministro], mas um convite para que procedesse a avaliações”, apontou. Mas logo esclareceu que se está “perante figuras novas, relativamente atípicas” que em nada conduzem “propriamente à construção de boas soluções de estabilidade governativa, nem de diálogo entre as diferentes forças partidárias”.

Evitar “fraturas” com presidenciais. António Costa defendeu ainda que a opção encontrada na reunião – a de dar liberdade de voto na primeira volta das eleições presidenciais – é a “forma mais saudável de cada um poder apoiar o candidato da sua preferência sem fraturas no partido”. Com dois candidatos da área do partido, Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém, esta é também uma maneira de evitar distrair os socialistas “de um momento muito exigente” que é “todo este processo de formação do governo, instalação de nova legislatura, criação de condições de governabilidade”.

“O apelo que fazemos é que todos os socialistas apoiem, entre os dois candidatos da nossa área, aquele que preferem, e participem ativamente na campanha eleitoral e contribuam para que possam ter um bom resultado na primeira volta”, afirmou, dizendo que ele é o único sem a vida facilitada com esta opção. Como líder do PS reserva-se no direito de não manifestar apoio público a nenhum dos dois candidatos na primeira volta. (jn.pt)

por Miguel Marujo

 

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