Mercado informal mantém domínio na venda de divisas

(Foto: D.R.)
(Foto: D.R.)
(Foto: D.R.)

As notas de 100 dólares já estão a ser transaccionadas a 29 mil kwanzas em Luanda. E só aparecem no mercado negro. População está cada vez mais descontente e desesperada e muitos comerciantes já deixaram de trabalhar.

A nota de cem dólares está a ser transaccionada a 29 mil kwanzas no mercado informal em Luanda, enquanto os bancos comerciais continuam a alegar que não possuem divisas para trocar para os clientes. Essa situação tem criado cada vez maior desconforto à população, sobretudo aquelas que exercem actividade comercial e têm de adquirir os bens no mercado internacional.

Dólares em Luanda, só no mercado informal. Essa é uma informação que há mais de oito meses anda formatada na mente dos luandenses. Todavia, o Banco Nacional de Angola (BNA) garante que há duas semanas comercializou mais 284,4 milhões de dólares no mercado primário, por via de leilões, com a taxa de câmbio a rondar os 135,976 kwanzas por cada dólar, menos de metade do valor pedido já nas ruas. A população, por seu turno, diz que não chega a ver esses dólares.

De acordo com um comunicado do banco central a que o SOL teve acesso, aquela instituição financeira fez ainda um leilão de venda de moeda estrangeira em 41 das 48 casas de câmbio que operam no mercado, num montante equivalente a dez milhões de dólares. Mas também nesses locais autorizados os cidadãos continuam a encontrar dificuldades em obter divisas.

Por essa razão, embora os preços sejam exorbitantes, acabam por adquirir o dinheiro discretamente no mercado paralelo.

O SOL visitou uma agência do Banco Internacional de Crédito (BIC) no sentido de obter informações sobre a disponibilidade de divisas. A resposta recebida é de que apenas há disponibilidade para clientes particulares, que tenham dinheiro na conta bancária, não havendo autorização para vender os dólares a clientes que levem kwanzas para o balcão.

Situação semelhante aconteceu na agência do Banco Económico da Vila de Viana, sendo informados por uma funcionária de que não há ordens para a venda de divisas aos clientes particulares.

Mercado informal funciona normalmente

Enquanto isso, no mercado informal o negócio funciona com normalidade, sendo que cada nota de cem dólares tem sido transaccionada a 29 mil kwanzas.

Ao SOL, o comerciante Manuel Cordeiro classificou o actual clima dessa actividade como um «negócio da China».

Reconhece que este fenómeno acontece porque o preço do barril de petróleo baixou significativamente no mercado internacional, mas não deixa de lamentar a situação. «Há mais de sete meses que não vou ao Dubai comprar produtos porque não consigo divisas. E não posso adquiri-las no mercado informal porque corro o risco de desvalorizar o meu dinheiro. Se o BNA vende divisas aos bancos comerciais e às casas de câmbio, elas devem comercializar aos clientes e não fazer a candonga com as kinguilas, como tem acontecido», acusa o comerciante.

Edgar Emanuel, jovem que há mais de oito anos exerce a actividade de comerciante de acessórios para automóveis, principalmente americanos, é outra ‘vítima’ da falta de dinheiro.

Revelou que praticamente deixou de trabalhar porque não encontra forma de obter divisas no mercado. «Tenho encontrado muitas barreiras. Isto não pode continuar assim, temos famílias para sustentar, mas parece que não há boa-fé da parte de quem tem a obrigação de vender os dólares».

Edgar acusa os gestores dos bancos comerciais de terem parcerias com as kinguilas. Alega que «sem eles, essas não estariam em condições de praticar tal actividade à margem lei».

Mártires do Kifangondo  é o centro das vendas

O bairro Mártires do Kifangondo é o principal ponto onde acontecem as transacções ilícitas de divisas. A actividade é exercida principalmente por cidadãos oriundos de vários países da África Ocidental, com destaque para os malianos, senegaleses e guineenses. Estes vendedores, no entanto, não aceitaram revelar ao SOL a origem de tanto dinheiro que circula naquela zona do distrito da Maianga.

Um funcionário sénior do banco BIC confirmou ao SOL que aquela instituição tem vindo a receber muitas solicitações de divisas por parte de clientes particulares, mas que infelizmente não tem conseguido atender a todos os pedidos. «Temos solicitações ainda de Dezembro de 2014. Decidimos anular algumas e outras continuam pendentes. Não temos dado garantias aos clientes», explicou ao SOL.

Quanto à possibilidade de os funcionários bancários colocarem divisas nas mãos das kinguilas, o interlocutor descartou essa possibilidade. «Neste momento é muito difícil isso acontecer. No BIC, por exemplo, os trabalhadores não podem solicitar divisas em valores superiores ao seu rendimento mensal. Logo, essa possibilidade está descartada», garantiu.

 

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA