Henning Mankell morreu, mas continua vivo no teatro moçambicano

Henning Mankell, escritor sueco (AFP)
Henning Mankell, escritor sueco (AFP)
Henning Mankell, escritor sueco (AFP)

O teatro moçambicano está de luto com a morte de Henning Mankell. O escritor sueco esteve umbilicalmente ligado ao primeiro e maior grupo de teatro de Moçambique, o Mutumbela Gogo. Os atores destacam o seu legado.

Henning Mankell morreu na manhã desta segunda-feira (05.10), aos 67 anos de idade, vítima de um cancro. O escritor ficou mundialmente famoso pelos seus romances policiais. Mas em Moçambique a sua fama não se deve a isso, mas sim ao trabalho como encenador e diretor artístico do Mutumbela Gogo. No Teatro Avenida encenou várias peças, como por exemplo, “Os meninos de Ninguém”, “Amor Vem” e “Vestir a Terra”.

Numa entrevista à DW África, em 2008, Mankell disse que “foi um privilégio, uma grande aventura ter a possibilidade de trabalhar com estas pessoas com muito talento, de criar uma coisa, o primeiro teatro profissional no país.”

O escritor destacou ainda a universalidade do teatro: “Como também uma sensação que não é importante que sou de uma outra cultura, sou do outro país, ou sou branco. O teatro não se interessa por essas coisas, mas sim pela comunicação. Para mim foi uma aventura todos esses anos.”

No teatro até ao fim

Uma aventura que chegou ao fim. Mas Mankell nunca se deixou vencer pela doença, mesmo fragilizado trabalhou em 2015 na sua última peça, Hamlet. E Jorge Vaz vestiu esse personagem de Shakespeare.

Para o ator do Mutumbela Gogo a produção desta peça é a lembrança mais marcante que tem do escritor: “Para mim foi quando íamos montar a peça “Hamlet”. No início ele ia montar o espetáculo antes da doença que teve, e perguntou-me se estava disposto a fazer a personagem e que se eu não quisesse ele cortava o espetáculo, nunca mais iria fazer a peça. Então, senti uma responsabilidade enorme. Hamlet, como todos nós sabemos, não é uma personagem qualquer, então eu disse que sim.”

Os atores do Mutumbela Gogo são unânimes em afirmar que o profissionalismo de Henning Mankell é um dos maiores legados que guardam: “E com ele aprendi várias coisas, a começar pela seriedade no trabalho, pela pontualidade quando se está a trabalhar e a levar o teatro muito mais a sério, afinal o teatro é uma profissão. Então, aprendi muito e vou continuar a aprender. Acho que fui uma pessoa privilegiada, vivi com ele por cerca de dois anos.”

E Jorge Vaz conclui: “Dizer que é uma perda grande e irreparável seria muito pouco, porque o Henning faz parte da minha vida, não só como ator, mas como uma pessoa que entrou no grupo Mutumbela Gogo muito novo.

Mankell também em causas sociais

Lucrécia Paco é outra atriz que era muito próxima do escritor sueco. Várias vezes foi personagem principal das suas encenações, bem como capa de um dos seus livros. O escritor perdeu a vida numa altura em que ela se encontrava na Suécia.

Muito sentida e com voz embargada conta: “Vivo este momento como a perda de um pai. Henning para além de ser o diretor e encenador era um grande homem. Perde a Suécia e perdemos nós pela sua humanidade, pela sua solidariedade, pela sua sabedoria, pelo seu dom artístico.”

A atriz destaca ainda um outro lado do encenador pouco conhecido: “A sua nobreza deve-se sobretudo as causas que abraçou, as causas sociais. Muita coisa ele fez pelas crianças moçambicanas, por muitos moçambicanos, só que ele tinha uma coisa, não mostrava.”

Henning Mankell não escondia que tinha uma relação muito profunda com Moçambique. Segundo ele, o respeito que tinha pelo país e pelo povo era baseado na forma como via a luta do povo contra a pobreza.

E para demonstrar esse carinho por Moçambique disse mesmo aos microfones da DW África em 2008: “Posso simbolicamente explicar que escrevi uma carta que está na Suécia a dizer que se alguma coisa acontecer comigo, espero que não aconteça, posso ser enterrado aqui. Só para simbolicamente explicar…” (dw.de)

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