Falta de remessas pode fazer voltar estudantes

(Foto: D.R.)
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Com os dólares cada vez mais escassos, algumas famílias que têm os filhos a estudar no exterior, a quem enviam dinheiro todos os meses, começam a pensar mandá-los regressar a casa.

As pessoas que vivem em Angola e têm dependentes no exterior do país, sobretudo estudantes, estão a enfrentar dias cada vez mais difíceis. A crise resultante da queda do preço do petróleo no mercado internacional, que fez reduzir a captação de divisas para Angola, está a causar enormes constrangimentos para aqueles que têm necessidade de enviar dinheiro para fora todos os meses. Alguns estudantes podem ter de regressar, outros trabalham para suportar custos.

Além de as divisas estarem mais caras, a actual conjuntura também fez reduzir os rendimentos de muitos agentes económicos, com destaque para os comerciantes de produtos importados, como viaturas, equipamentos electrónicos e outros bens de consumo. «Não há dólares, não conseguimos importar, logo não tenho rendimentos. Mas preciso de continuar a enviar dinheiro para suportar as despesas do meu filho, que vive em Joanesburgo, onde está a fazer o ensino superior», contou ao SOL Neves António, um dos muitos pais que enfrentam o problema.

Também o gestor Xavier da Costa solta os mesmos lamentos: «A situação está insustentável, os meus rendimentos mensais já não são suficientes para suportar as despesas da família que vive comigo, cá no país, e manter dois dos meus filhos a estudar nos Estados Unidos. Nos últimos meses chego a gastar três vezes mais em relação ao final do ano passado para ter dois mil dólares nos Estados Unidos. É inconcebível, não vamos conseguir manter isso por muito tempo».

Perante este cenário algumas famílias, sobretudo as mais desfavorecidas, já ponderam fazer os filhos regressar ao país no próximo ano, caso o actual quadro não se altere. Outros entendem que, apesar das dificuldades, se o câmbio se mantiver como está – por vezes ainda a rondar entre os 18 e os 22 mil kwanzas por cada cem dólares e não sempre os 30 mil que já tem acontecido –, ainda vai ser possível aguentar durante mais algum tempo.

Viajantes conhecidos ajudam a reduzir custos

Para aqueles que vão continuando a procurar divisas, o mercado informal é a melhor solução, muitas vezes mesmo a única. «É a primeira opção, porque os bancos nunca têm divisas ou pelo menos não na quantidade que necessitamos», explicou Xavier da Costa, «por isso as kinguilas são a principal fonte dos dólares que posteriormente depositamos nas nossas contas, para ser solicitada a transferência».

O gestor conta ainda que o aeroporto, através de viajantes conhecidos, também é muito procurado: «Sendo uma via que chega a ser mais rápida e sem outros custos, dirigimo-nos ao aeroporto, na expectativa de encontrar alguém conhecido que possa levar o dinheiro».

Menos favorecidos são os mais afectados

José Brandão também disse ao SOL que nunca recorreu tanto às kinguilas como agora. «Os bancos não estão a atender as minhas necessidades, preciso de enviar dinheiro para o Brasil todos os meses e nunca têm disponibilidade imediata. Diante dessa situação, não resta outra solução senão procurar alternativas que, embora sejam muito mais caras, resolvem o meu problema», afirmou.

Mas usa várias formas para conseguir os dólares. Além das kinguilas, recorre às casas de envio de remessas, que por sua vez também impõem cada vez mais restrições no valor. Isso faz com que tenha de ir lá várias vezes ao longo da mesma semana para conseguir enviar um determinado valor. Por dia, são permitidos apenas 50 mil kwanzas.

As famílias mais ricas são as menos afectadas, disse ainda Neves António ao SOL. «Grande parte dos angolanos colegas do meu filho são de famílias muito conhecidas no país. Estes não estão a sentir tanto, porque de certa forma conseguem enviar o dinheiro com mais facilidade. E por outro lado, boa parte deles são bolseiros», sublinhou.

Quanto às famílias menos favorecidas, que com muito esforço procuram proporcionar uma formação diferenciada aos filhos, são as que mais sofrem.

Pitra (nome fictício), de 25 anos, vive na cidade americana de Houston há três anos, onde está a estudar Economia e Negócios. Ciente das dificuldades que a família está a enfrentar, optou por trabalhar, contou ao SOL.

«Para não regressar ao país antes de concluir a minha formação, decidi trabalhar para suportar os meus estudos. Sei que vai difícil, mas estou disposto a arriscar», explicou. Pitra disse ainda que os pais de início não quiseram, achavam que devia dedicar-se somente aos estudos, mas com o aumento das dificuldades «estão cada vez mais convencidos de que é a melhor solução». (sol.ao)

Por: Mário Domingos

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