Como a presença russa já muda o conflito sírio

Rebeldes do Exército Livre da Síria: grupos anti-Assad também estariam sendo alvos de bombas russas (Reuters)
Rebeldes do Exército Livre da Síria: grupos anti-Assad também estariam sendo alvos de bombas russas (Reuters)
Rebeldes do Exército Livre da Síria: grupos anti-Assad também estariam sendo alvos de bombas russas (Reuters)

Bombardeamentos ameaçam mexer com frágil equilíbrio de forças no Oriente Médio, afastando a Turquia e tornando Hezbollah e Irão mais activos. Alvos de ataques aéreos russos, rebeldes moderados se afastam de solução política.

Os bombardeamentos russos na Síria chegaram ao sexto dia nesta terça-feira (06/10), dando sinais de que já alteram as bases de uma guerra que, desde 2011, já deixou mais de 250 mil mortos e deslocou um quarto da população local.

Que o conflito passaria a espelhar, em outro campo, as diferenças de longa data de Rússia e Estados Unidos sobre o Oriente Médio, já se esperava. É a primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, que ambos realizam missões de combate num mesmo país.

Mas a intervenção russa já demonstra também potencial para aumentar a distância entre actores locais e regionais do conflito. E parece deixar uma solução diplomática cada vez mais distante, numa evidência dos riscos de um acirramento internacional da guerra civil síria.

Moscovo e Ancara mais distantes

Nesta terça-feira, o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, disse duvidar da explicação de Moscovo de que foi por erro que o espaço aéreo da Turquia, país-membro da Aliança Atlântica, foi violado por caças russos na fronteira com a Síria no fim de semana.

“Não vou especular sobre os motivos, mas esse não parece ser um acidente, e vimos dois deles”, afirmou Stoltenberg sobre as incursões aéreas na região de Hatay.

Os incidentes, descritos pela OTAN como “extremamente perigosos” e “inaceitáveis”, ameaçam minar as relações entre Turquia e Rússia, antes fortes, mas que se viram arranhadas por diferenças sobre a guerra civil e a passagem de um gasoduto russo por território turco.

A Turquia, país que mais recebe refugiados da Síria, defende a instalação de uma “zona de segurança” na fronteira, onde sírios em fuga poderiam esperar para voltar a seu país após a guerra.

“É muito difícil manter a paciência diante das actuações russas. A Rússia deveria entender que perderá muito se perder um amigo como a Turquia”, afirmou o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan.

Moscovo, actualmente, não tem bases de confiança no Mediterrâneo para acomodar sua Marinha – tudo precisa passar pelo estreito de Bósforo, na Turquia. A Rússia possui, além disso, aviões e militares em um aeroporto na cidade síria de Latakia.

Aliança xiita em alerta

O que poderia alterar de forma fundamental o conflito seria uma intervenção armada russa em solo. O presidente Vladimir Putin nega a possibilidade, mas os indícios – reforçados pela OTAN nesta terça-feira – apontam para o contrário.

A OTAN obteve relatos de um substancial aumento militar russo no país, incluindo tropas terrestres e navios na costa síria, no Mediterrâneo. Segundo fontes do Exército americano, mais de 600 soldados russos, não fardados, já estariam em território sírio. E mais de 2 mil estariam sendo esperados na base próxima a Lataki, no noroeste sírio, perto da fronteira com a Turquia.

A estratégia parece similar à actuação russa nos meses que antecederam a ocupação da Crimeia, em Março de 2014, e durante o conflito com rebeldes pró-Moscovo no Leste ucraniano, que teriam recebido auxílio militar directamente do Kremlin.

Uma actuação russa em solo sírio, porém, iria além do simples apoio às tropas do presidente Bashar al-Assad. Ela poderia envolver uma mobilização sem precedentes entre os aliados xiitas do Oriente Médio, com participação do Irã e do Hezbollah, que há anos já actua na Síria em apoio ao regime de Assad.

A queda de Assad representaria um pesadelo para o Hezbollah e para a aliança xiita que engloba ainda a Síria e o Irão. O grupo radical libanês tem interesse em ajudar o ditador porque, sem ele, perderia sua principal fonte de subsistência. É Assad que abre caminho para o Hezbollah ter armas, dinheiro e se manter em operação.

Um enfraquecimento do presidente sírio, além disso, acabaria com o mais valioso ponto de apoio de Teerão no mundo árabe – a elite no poder em Damasco é alauita, uma ramificação do xiismo, que, por sua vez, é o ramo do islão predominante entre os iranianos.

Rebeldes na mira

Desde seu início, na última quarta-feira, os bombardeamentos russos vêm sendo vistos pelo Ocidente mais como uma tentativa de assegurar a sobrevivência de Assad, maior aliado russo no Oriente Médio, do que de combater o “Estado Islâmico”.

“A Rússia busca garantir a permanência de Assad. A luta contra o ‘Estado Islâmico’ é algo secundário”, afirma a analista política britânica Emile Hokayem.

A Rússia lançou dezenas de bombardeamentos contra bases da Jaysh al-Fatah (Exército da Conquista), a poderosa coligação rebelde que inclui a Frente al-Nusra, uma afiliada da Al Qaeda na Síria, e uma série de organizações islamitas menos radicais.

Nos últimos meses, o Exército da Conquista foi responsável por impor sérios reveses às forças de Assad, ocupando a cidade de Idlib e, mais tarde, a província homónima – numa clara ameaça às áreas costeiras, tidas como reduto do ditador. E é justamente nessa região que a Rússia vem concentrando parte de seus bombardeamentos.

Como consequência, grupos rebeldes opositores tanto a Assad quanto ao “Estado Islâmico”, incluindo alguns apoiados pelos EUA, já declararam não terem a intenção de participar de qualquer processo de paz que envolva os russos.

Em comunicado, 41 grupos rebeldes disseram que “a ocupação brutal russa bloqueou o caminho para qualquer solução política”. O texto, assinado por organizações de várias regiões do país, ainda conclama à formação de uma frente que lute não só contra o regime sírio, mas também contra os aliados Irão e Rússia. (dw.de)

RPR/dpa/rtr/afp

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