Atrair Cunha pode ser aposta arriscada para Dilma

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Imerso em denúncias de corrupção, presidente da Câmara é cortejado pelo governo para frear processo de impeachment. Analistas apontam riscos de se comprometer politicamente com o deputado.

Denúncias de suborno, milhões de dólares em contas secretas na Suíça, mentir para o Congresso e o uso do cargo para tentar obstruir investigações sobre a corrupção na estatal Petrobras. A lista de acusações que surgiram ao longo do ano contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, parece interminável. Só que a fama de corrupto de Eduardo Cunha vem sendo convenientemente deixada de lado pelos principais atores da crise política brasileira: a oposição e a presidente Dilma Rousseff, que tentam agradá-lo para conseguir seu apoio.

Cunha é tanto a chave para forçar a abertura de um processo de impeachment de Dilma – o desejo da oposição – quanto para engavetá-lo – a vontade do governo. Em vez de se tornar um pária por causa das acusações, ele se manteve firme na posição de peça-chave para amenizar ou incendiar ainda mais a crise política brasileira.

No momento, Cunha também está sendo ameaçado pela iminente abertura de um processo de cassação, que pode lhe custar o cargo de presidente da Câmara e o mandato de deputado. Sem o cargo, ele correria o risco de ir para a prisão a exemplo do que ocorreu recentemente com outros políticos sem mandato envolvidos no escândalo da Petrobras. As assinaturas para a abertura do processo foram recolhidas entre 46 deputados nesta semana.

Só que essa mais recente ameaça contra o deputado, em vez de fragilizar a posição de Cunha, só aumentou o preço cobrado pelo seu apoio.

Nas últimas semanas, Cunha vinha atuando ativamente com a oposição para forçar a abertura de um processo de impeachment. Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), no entanto, mandou parar o rito de abertura do processo combinado entre Cunha e a oposição. O presidente da Câmara ainda tem o poder de forçar um processo, mas anunciou na quarta-feira (14/10) que vai esperar a possibilidade de o STF reverter a medida.

Até lá, ele especula-se que ele deve analisar para qual lado vai pender – se para o da presidente ou o da oposição. E a decisão será tomada com base em quem pode ajudá-lo a se manter no cargo e afastá-lo das investigações.

Negociações com governo

Cunha estaria negociando com interlocutores de Dilma apoio para que o governo interfira no Conselho de Ética da Câmara para afastar o risco de que ele perca o mandato. O deputado precisa dos votos de 11 dos 21 membros do conselho. O governo tem influência sobre sete membros, o que, somado a outros nove controlados por aliados de Cunha, seria mais do que suficiente para livrá-lo.

Ao longo do ano, Dilma tentou em diversas oportunidades chegar a um acordo com Cunha, mas o presidente da Câmara, apesar de ser membro do PMDB, partido da base aliada do governo, acabou rompendo oficialmente com ela conforme foi revelado seu envolvimento com o caso Petrobras. Oficialmente, o deputado responsabiliza o governo pelas acusações e pelo vazamento de dados das investigações, que, entre outras coisas, revelaram que ele possui pelo menos 5 milhões de dólares em quatro contas na Suíça – e que sua mulher gastou quase 60 mil dólares em aula de tênis nos EUA usando uma dessas contas.

Participantes de reuniões entre interlocutores de Cunha e do governo relataram que o deputado também quer que o governo influencie as investigações que pesam contra ele. Nesse pacote, estaria a substituição do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que é acusado por Cunha de permitir os vazamentos. O deputado estaria querendo um ministro que consiga frear as investigações da Polícia Federal. Esse último item, no entanto, é considerado por membros do governo praticamente impossível de ser cumprido.

O governo Dilma Rousseff já cedeu ministérios e centenas de cargos para conter os rebeldes do PMDB de Cunha e tentar se blindar contra a ameaça de impeachment, mas até o momento nunca tentou interferir descaradamente nas investigações que apuram o escândalo na Petrobras. Deputados petistas afirmam que Dilma pode acabar “manchando sua biografia” se ceder nesse ponto.

“O problema é que o governo continua fragilizado. Cunha tem o poder de chantagear o Executivo, e o Executivo se deixa chantagear. Se Dilma ceder tudo isso, vai ficar claro mais uma vez que esse governo não tem mais projeto, e que seu único plano é manter-se a qualquer custo apenas pelo poder. O fundo do poço sempre pode estar mais fundo”, afirma o sociólogo Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Mesmo com o preço sendo alto demais, as conversas prosseguem. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, entre os negociadores que buscam atrair Cunha está o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Líderes do PT no Congresso também tentam minimizar a participação de mais de 30 deputados rebeldes do partido no pedido de cassação de Cunha. Segundo os caciques do PT, eles não seguiram a orientação do partido que queria permanecer neutro.

O papel da oposição

Ambos os lados da disputa política vem fazendo malabarismos para justificar a busca pelo apoio de uma personagem suspeito como Cunha e o silêncio com relação às acusações de corrupção. O senador oposicionista Aécio Neves, um dos principais interessados na queda da presidente, quando indagado sobre a aliança informal entre o seu partido, o PSDB, e Cunha, disse que a aliança não era com o deputado, mas “com 70% dos brasileiros que estão percebendo que o governo perdeu a capacidade de governar”.

O PSDB chegou a divulgar uma nota pública defendendo o afastamento do presidente, mas o documento foi interpretado como um mero jogo de cena, já que nenhum deputado do partido assinou o pedido para a cassação de Cunha.

Segundo o analista político Gaspard Estrada, do Observatório Político da América Latina e do Caribe do Instituto de Ciências Políticas de Paris (Sciences Po), tanto a oposição quanto o governo vão sofrer ainda mais desgaste caso se empenhem em salvar Cunha.

“É muito complicado tanto para a oposição quanto para o governo fazer um acordo tão explícito com Cunha. Uma coisa é distribuir cargos para aliados de Cunha e silenciar sobre as acusações, mas é bem mais grave atuar de maneira pró-ativa para salvar o cargo de alguém com tantas acusações de corrupção. No caso do governo, fazer um acordo tão óbvio com Cunha poderia finalmente atrair a de vez a insatisfação da população com o sistema político em geral, como ocorreu em junho de 2013. Já a oposição sofre o desgaste de se envolver com um personagem que a cada semana está mais enterrado em escândalos”, afirma.

Analistas também apontam que – desconsiderando os riscos – para Cunha é mais interessante se aproximar do governo, mesmo que ele não consiga tudo que está pedindo. O deputado já afirmou ter medo de que, caso entregue o que a oposição quer – o início do processo de impeachment –, ele acabe sendo abandonado à própria sorte e não conte mais com a tolerância da oposição sobre as acusações de corrupção. “Se eu derrubo a Dilma agora, no dia seguinte, vocês me derrubam”, disse Cunha a um grupo de oposicionistas, segundo relatos.

“O problema é que também o governo e Cunha até podem fechar um acordo, mas nada seria garantido. O governo nunca afastaria totalmente a possibilidade de impeachment considerando o estado da economia e a insatisfação da população. Cunha também não teria a certeza de contar com os votos para salvá-lo no Conselho de Ética. A falta de rumo do governo e o fato de uma figura como Cunha ocupar o centro dos acontecimentos mostram o quanto a democracia brasileira se apequenou. É sem dúvida um momento lamentável para o sistema do país”, afirma o professor Rodrigo Prando. (dw.de)

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