António Quino: ‘Somos um produto da corrupção da sociedade’

António Quino (Foto: opais.ao)
António Quino (Foto: opais.ao)
António Quino
(Foto: opais.ao)

Jornalista e professor universitário, António Quino lançou recentemente o livro ‘República do Vírus’. Trata-se de uma obra escrita há quase duas décadas, mas o conteúdo parece ser dos dias que correm pelo mundo fora. Corrupção, compadrio, problemas de lixo e outros temas alimentam a estreia deste jovem escritor na ficção literária. Mas a conversa estendeu-se até à educação, um meandro que o nosso convidado bem conhece. Não fosse ele o actual director provincial da Educação, Ciência e Tecnologia do Bengo.

República do Vírus’ é um livro escrito há 15 anos. Na sua apresentação, a linguista Agnela Barros disse que ele continua actual. O que se passa ?

OP_40473_81d87Na verdade, a «República do Vírus» sai e isso deve-se fundamentalmente ao secretário-geral da União dos Escritores Angolanos que se comportou como um amigo. Na altura, perguntou-me se não tinha nada para publicar. É que tenho um conjunto de textos para publicar, mas não tinha nada disponível para apresentar. Tenho um trabalho na área do ensaio, que são conjuntos de vários ensaios sobre textos literários que tenho para publicar, algumas crónicas, inclusive publicadas no jornal O PAÍS. Algumas destas já estão às mãos do editor há três, quatro ou cinco anos. Esse texto ‘A República do Vírus’ é inicialmente um conjunto de várias crónicas que fui escrevendo sobre várias situações do dia-a-dia. Quando o Carmo Neto me perguntou se não tinha nada para publicar, lembrei-me destas crónicas. O exercício que fiz foi torná-las num texto compacto. Estas crónicas tinham sempre como figura o tal Zuão Xipululu. Juntei os textos para os publicar. Num ápice, o Carmo Neto disse que era publicável, mas eu ainda fiquei na dúvida. Achei curioso porque às vezes tenho a mania do perfeccionismo, tinha que entregar a um editor para ler e considerar se podia ser publicado ou não. Mas ele disse que a sua leitura tinha sido suficiente para dizer que aquilo era publicável.

A República do vírus é uma analogia a Angola e os seus problemas?

Não diria tanto o reflexo  da república em que vivo. Porque seria redutor pensar que é só a república em que vivo. E estaria a pecar por defeito. Na verdade, é uma visão mais global do mundo em que vivemos. Quem tiver a possibilidade de ter contactos, directos ou indirectos com outros países, situações e contextos, na verdade é uma espécie de contágio que vai acontecendo por todo o planeta ou universo. Porque são situações que não são reflexo apenas do que é Angola. É reflexo do que é o continente africano, europeu, americano e na realidade o reflexo do protagonismo e consequentemente, da postura dos políticos. Na realidade, penso que os políticos não são diferentes do resto do mundo. Talvez com um bocadinho de moldagem, porque o contexto, a cultura às vezes ajuda a refinar um bocadinho o político. Mas o político é o político. Portanto, está sempre direcionando para o poder.

É o mesmo político que deixa a mulher para ficar com a amante. Que deixou a esposa negra porque agora quer uma mestiça, como o Zuão Xipululu, ou que quer fazer tudo para se manter no poder?

OP_40478_ddfa6Risos. Pode-se ser que em muitos momentos haja um reflexo do que é a realidade angolana, mas continuo a pensar que seria redutor achar que a obra está somente confinada à realidade angolana. Quantos presidentes não sabemos que tiveram   um envolvimento com a secretaria?  Quantos políticos que não sabemos que directa ou indirectamente tiveram envolvimento com a secretária? Quantos presidentes que não sabemos que tiveram filhos com as secretárias? Quantos não tiveram que deixar as esposas para depois arranjar uma mais refinada ao cargo que vai ocupar, porque depois tem que fazer acertos políticos, cedências, contratos ou contactos que às vezes a manutenção do seu poder implica ficar com essa ou aquela de uma outra ala, família? Portanto, estes contactos existem em todas as partes do mundo.

O termo República Unida da Mulumba (RUM) surgiu do nada ou reflecte os altos e baixos que vivemos?

Eu costumo dizer que isso funcionou mais ou menos como uma terapia. Eu me ria. República Unida da Mulumba? Eu começo o nome pelo acrónimo. Que tal um país chamado RUM? Como é que podemos encontrar o significado de RUM? Começamos pelo Reino Unido da Mulumba, porque mulumba implica sempre este morro e daí olharmos para Giba. Porque há uma redacção em que falamos que era o ponto mais alto da República Unida da Mulumba. Portanto, é sempre um monte. Essa elevação nos faz sempre pensar nesta República Unida da Mulumba? Depois o reino não funcionou porque não pode ter um primeiro-ministro com protagonismo que tem um Zuão Xipululu. Não pode ter um partido com o protagonismo que tem um PIM-PAM-PUM. Então era necessário desfazer esse reino e criar uma república. Portanto, não tem a ver com a realidade, digamos assim. Era uma forma de encontrar algo para me divertir e rir. Às vezes, quando pego nisso rio-me.

Aquilo que diz e faz rir são coisas actuais e preocupantes. Como é que vê que na sua «República do Vírus» já tenha existido um engenheiro Lichado, que deu cabo das finanças e dos meios que eram indispensáveis para se limpar a capital do Reino Unido da Mulumba? Não lhe dá um gozo saber que prognosticou uma situação que estamos a viver hoje do lixo há 15 anos ou mais?

OP_40476_e48b5Talvez isso seja um chavão dizer que se houver alguma acaso com a realidade é mera coincidência. Como disse escrevemos há mais de 15 anos, ainda naquela altura da azáfama da vida muito agitada de Luanda. Escrevi ainda na altura do jornalismo, que era o momento que estávamos a escrever a notícia ou a reportagem em tempo recorde e precisávamos de preencher aquele espaço.E provável que tenha sido contagiado pela realidade de Luanda.

Provável ou foi mesmo contagiado?Disseste a certa altura que o romance é resultado de luzes sobre vivências em que cada um dos leitores, personagem ou actor se pode reencontrar-se. Revê-se nas situações narradas no livro?

Continuo a me rever. Como disse, tive oportunidade de andar por algum e outros países. A realidade em relação ao político em si não muda nada. Só que a forma de abordagem destas questões são completamente diferentes. Talvez eu tenha actuado aqui por baixo. Se olharmos para o mundo vamos ver muitos dos escândalos que existem e às vezes têm no epicentro a relação entre o gestor e os fundos públicos. Portanto, continuo a pensar que isso não é uma exclusividade de Angola. Se formos ao Brasil vamos encontrar situações muito parecidas às do engenheiro Lichado. Se formos a Portugal, Itália também. Se for a Angola, claro, também vamos encontrar situações muito parecidas ao do engenheiro Lichado. Agora, que ele é mesmo um engenheiro Lichado, é mesmo. O que ele fez, não só por estar ligado ao lixo, mas porque, salve a expressão, lixou mesmo o erário público.

Agnela Barros, durante a apresentação do seu livro, disse, a escrita de António Quino está em sintonia com aquilo que fez Adriano Mixinge, no livro «Ocaso dos pirilampos». Há muita matéria que ajudam os escritores a ficcionar?

OP_40487_f1dd6Sim. Parte-se sempre do princípio que ninguém cria do nada. Tal como referiu aquilo que eu disse – mas se está aí contigo é porque disse mesmo – somos sempre contagiados pelo contexto, vivências e experiências. Isso é que fez o que nós somos. Somos um produtor social. E o produto social se faz nas sociedades em que estamos inseridos. Jacques Roussou costuma dizer que o homem nasce puro, a sociedade é que o corrompe. Portanto, nós somos um produto da corrupção da sociedade. Se fizermos alguma reflexão, comentário ou pronunciamento, vai sempre fazer transpirar aquilo que somos socialmente. Aqui o que está em causa não é querer fingir que não é uma crítica à sociedade. É provavelmente uma crítica à sociedade. Mas não é só uma sociedade que se redunda a Angola ou Luanda, mas sim a uma sociedade mundial. Na verdade, cada um de nós, cada recanto de uma nação ou de um país é reflexo das elites mundiais. Nós somos reflexo disso e não podemos perder de vista essa realidade. Agora, é bem verdade que quando olhamos para a nossa sociedade, criticamo-la. Não estamos a ter em conta a origem dessa situação que nós vivemos. Se é uma situação de corrupção, de negligência, de falta de solução? Portanto, estamos a olhar de forma crítica para estas situações. A reflexão que faço provavelmente do livro é que os problemas não podem ser vistos do ponto de vista somente local. Temos que olhar de forma abrangente.

Disse há três anos, numa entrevista ao jornalista Cláudio Fortuna, que a literatura angolana é atraente e muita das vezes serve de contraponto a informação oficial. A escrita deste livro serve de contraponto à informação oficial?

OP_40481_c6723Vou-lhe confessar uma coisa: não sei se é porque ainda não me sinto escritor, mas faço o comentário olhando sempre ao sentido crítico das obras literárias. Portanto, esta é a primeira vez que me estão a entrevistar como escritor. Então, ainda tenho alguma inexperiência em falar como escritor, porque essa entrevista foi dada na qualidade de crítico, ensaísta e de estudioso da literatura angolana. Continuo a pensar assim. Enquanto ensaísta, crítico ou leitor, continuo a pensar assim. Nós se olharmos para a literatura angolana, nas suas diferentes etapas e épocas, vamos perceber que é sempre uma espécie de contraponto à informação oficial. Não só para contradizer, mas também para enriquecer a informação oficial. Porque muito do que está na informação oficial, aliás na qualidade de jornalista sabes, às vezes o que nós publicamos não é em quantidade o que nós recolhemos. A literatura, às vezes, tem a possibilidade, por não ser um texto digamos utilitário, que tem que seguir padrões, normas, respeitar a uni-significância das palavras, ser objectivo, claro, de ir sempre no sentido contrário. A literatura é a violação da norma, do princípio da uniformidade da palavra, é o sentido da subjectividade. O homem da literatura brinca com a palavra. O jornalista respeita a palavra. Quem trabalha com a informação respeita a palavra. Portanto, há uma espécie de contraponto que nós vamos verificar, porque a mesma palavra pode ser trabalhada de várias formas. O escritor trabalha a palavra mais no sentido da liberdade, da violação da norma e isso cria um contraponto. Vamos pegar a palavra amor, morte, república ou vírus, no texto informativo temos que ter cuidado com a palavra vírus. No texto literário brincamos com a palavra vírus. Portanto, é neste sentido que falo no contraponto. A literatura continua sim a ser um contraponto a informação oficial.

A linguagem satírica que usas é resultado daquilo que leste nas obras de Wanhenga Xitu e José Luandino Vieira?

Bom, talvez volte à questão do contágio. Mas na verdade quem me conhece sabe que gosto da sátira e de brincar com as palavras. Talvez tenha aperfeiçoado esse método lendo estes escritores, porque acho que fui um bom leitor. Agora o tempo já não me permite tanto. Embora tenha forçado a minha saída de Luanda, exactamente porque pensava que teria mais tempo para a leitura, enganei-me redondamente. Mas, como bom leitor porque leio, acredito que tenha sido influenciado.

É essa a literatura que se impõe à realidade angolana, fugindo um pouco da norma e satírico? Novamente a tal ideia de não estar habituado a ser escritor, porque às vezes há um choque entre aquela pessoa que estuda o texto literário e aquela que escreve. Eu me revejo quase sempre naquela pessoa que analisa o texto literário e não na pessoa que escreve.

Mas está aqui na condição da pessoa que escreve?

OP_40475_f57bePara lhe ser sincero já nem me lembro muito bem do que é que está no livro. O livro escrevi, juntei e não voltei a ler. Preferi distanciar-me do livro. E acabo por ser afectado por esta ideia de ler. A ideia de literatura angolana não pode ficar subjacente no princípio da escrita, mas também no princípio criativo. Fica mais nas invariantes que vamos encontrar na obra.

Como assim?

Por exemplo, se olharmos para a Mulumba, o termo vai angolanizar a obra. Vai circunscrevê-la a um determinado contexto geográfico. É a expressão mulumba, xipululu, por exemplo, e outras. É neste sentido que quero ver a angolanização da literatura angolana, porque perde-se quase sempre de vista a ideia de que o autor é angolano e, portanto, a obra é angolana. Hoje, nesta universalidade do mundo, o conceito oficial de nacionalidade já morreu. Fiquei a ver o Reegie Moore, no campeonato africano, para ver se ele entoasse o hino nacional. Em nenhum momento lhe vi a entoar o hino nacional. Mas a ideia que tenho é a de que quem é nacional tem que sentir o hino. Mas estou a falar do Reegie Moore apenas para simbolizar o que deve existir pelo mundo.

teve recentemente com este jornal, defendeu a necessidade de se desloconizar a língua portuguesa. Qual é a sua opinião?

Com todo o respeito que tenho pelo (Luís)Kandjimbo, eu acho que a língua portuguesa não está colonizada. Nós os angolanos às vezes temos a capacidade de não reconhecer aquilo que produzimos. É uma capacidade que fico admirado quando olho para o que nós fazemos. A língua portuguesa hoje o que é? Muito se deve a Angola. Então como é que pensamos que isso que os angolanos influenciaram ou ajudaram a enriquecer não é nossa. E essa ideia de descolonizar passasse do princípio de que a língua portuguesa não é os angolanos. Se formos para Lisboa vamos sentir que há uma grande acentuação daquilo que é a língua portuguesa por influência dos angolanos. A música angolana tem muita aceitação em Lisboa, mas o sotaque que está lá é o angolano. Vamos dizer que esta língua não é nossa? Que precisa de ser sacralizada ou descolonizada?

Não será que descolonizar seja impor alguns termos que são falados aqui?

OP_40479_df7edMas isso já existe. O que provavelmente pode estar a pensar é na questão da norma e da gramática. Mas isso é muito para lá. Por exemplo, a gramática vem sempre atrás da fala. O que se escreve vem sempre a reboque do que se fala. É preciso que primeiro se firme aquilo que se fala, para depois a norma vir a seguir. Se há alguns anos a expressão bué ainda era calão e hoje já se encontra na norma, então é porque progrediu suficiente para merecer lá estar. E esse é o esforço que os angolanos têm que fazer. Porque se nós somos 24 milhões e falamos português como falamos, porque o português falado pelos angolanos não tem necessariamente a ver com o português falado pelos portugueses. Estamos a falar línguas com realidades históricas, geográficas e influências culturais diferentes. O português que nós falamos tem características muito próprias e diferenciadas do português falado pelos portugueses, pelos moçambicanos. Até juntar e criar uma norma que seja fluente para todo este espaço da Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) ou dos Países Língua Oficial Portuguesa (PALOP), isso ainda vai levar muito tempo. Está-se a tentar com o novo acordo ortográfico.

O Executivo angolano fez bem em não ter aderido ao novo acordo ortográfico?

Muitíssimo bem. Provavelmente, esta questão da descolonização – é importante dizer e quero acreditar que seja neste sentido que (Luís) Kandjimbo terá dito – seja no campo da gramática, no ensino e não no campo da fala.

Ele acredita que há palavras que ainda carregam um certo sentido colonialista?

Isso existe em toda a parte do mundo. As línguas têm as suas variações. A língua vai variar de acordo com a sua situação geográfica, época e com a cultura de cada povo que a utiliza. Portanto, esses factores influenciam sempre na língua. Não vamos esperar nunca que nós tenhamos a mesma vertente do falar dos portugueses, porque a nossa realidade é diferente da portuguesa. Se olharmos para o próprio espaço geográfico angolano, existem variações da própria língua portuguesa. Então se estamos separados até por um oceano, ou por vários oceanos, essa realidade vai existir sempre. Não vamos esperar nunca que haja uniformidade na forma de falar. Pode-se procurar uma uniformidade na forma de escrever. Mas essa uniformidade na forma de escrever, como disse, vem sempre a reboque. Até conseguirmos firmar o acordo ortográfico já muitas coisas mudaram.

‘As elites determinam sempre os cânones’

Qual é o estado da literatura angolana?

Saudável. Mas literatura angolana como obra literária. Porque também podemos ver a literatura angolana como instituição. Como instituição ainda tem doenças que precisam de ser curadas. Se o livro custa o que custa, se a consciência do leitor ainda não tem a dimensão do universo estudantil que o país tem, se as editoras ainda têm dificuldades para editar e distribuir a obra, portanto a situação não podia ser boa. Do ponto de vista criativo, penso que estamos no bom caminho. É só andarmos pelas livrarias ou supermercados que oferecem este tipo de produto e vamos ver que há uma riqueza do ponto de vista artístico, da diversidade de autores, temática e até do ponto de vista estético. Temos uma diversidade que já permite dizer que estamos ricos do ponto de vista artístico.

escritores para os 11 clássicos e não ouve consenso. O Grecima escolheu alguns nomes, mas a polémica continua. Porquê é que não há consenso em relação aos clássicos da literatura angolana?

Vai continuar a haver sempre. É assim em qualquer sociedade. As elites determinam sempre os cânones. Estamos a falar em cânones da literatura como nas outras áreas. Hoje o que é moda é muito determinada pelas elites. E não vai ser diferente na literatura .

Há uma elite na literatura angolana?

Quem define o que é cânone está ligado necessariamente à elite. Vejamos: quem são as pessoas que foram selecionadas para criar o cânone? Na verdade, e isso provavelmente com o tempo vai mudar, nós ainda temos uma sociedade muito politizada. Como temos uma sociedade muito politizada e ainda vivemos as marcas do conflito armado, as divergências que o criou e as partidarizações que alimentou, para se pensar no cânone tem que se pensar sempre neste contexto. Por isso, não vai ser fácil nós criarmos o cânone.

Escreveu Duas Marcas de Esperança – Agostinho Neto e António Nobre. Agostinho Neto enquanto poeta maior é reflexo daquilo que escreveu ou um ‘frete’ como acusaram José Eduardo Agualusa e em tempos o professor Manuel dos Santos Lima?

Talvez o que dizem em relação ao frete, o correcto seria argumentar. Não só esteve em causa o facto de ser denominado poeta maior, como também esteve a qualidade literária de Agostinho Neto. Para o primeiro caso, do Poeta Maior, eu também ainda questiono essa expressão. Olhando enquanto homem da academia, toda a afirmação tem que ter um argumento que sustente a própria afirmação. Esse argumento tem que ser justificável.

O termo Poeta Maior não tem nenhuma justificação?

Gostaria de saber porque é que é considerado Poeta Maior. Isso estou a falar do ponto de vista pessoal. Porque do ponto de vista geral acho que ele é um poeta representativo dos angolanos. Estou a falar do ponto de vista individual. Eu poderia pensar que ele estaria ao nível daquilo que Camões está para os portugueses. Procurei sustentar isso na obra «As duas Faces da Esperança». Agora não sei se do ponto de vista colectivo, quando se cognominou Poeta Maior, se houve algum argumento. Desculpe a ignorância, mas até agora não sei se houve justificação suficiente para se dizer que ele é o poeta maior.

Será que tem havido algum receio em se fazer a crítica à obra de Agostinho Neto?

Acho que Agostinho Neto é um dos poetas mais estudados. O facto de ser suficientemente estudado já em si indicia qualidade do poeta.

A propósito. O que foi que Agostinho Neto foi fazer a Saurimo, antes de vir a Luanda proclamar a independência?

Risos. Mas essa pergunta lancei aos jovens. Estou à espera que eles façam o retorno. Porque Agostinho Neto, quando chegou, penso que em Fevereiro de 1960, quando foi detido pela PIDE-DGS, deportado para Cabo Verde e depois para Aljube, onde começou o processo revolucionário activo, à primeira vez que regressa a Angola depois deste período ainda faz uma paragem em Saurimo.

Já teve resposta dos jovens?

Não. Felizmente até aqui ainda ninguém me trouxe contribuições.

 Então faz sentido o que  disse em tempos de que «não havendo potenciais leitores é uma ilusão pensar-se que a universidade, tal como hoje, poderá sozinha pegar o leme e levar o barco a bom porto». O futuro da literatura começa a ficar comprometido?

Não acredito. Até porque por natureza não sou pessimista. Se nós olharmos para o universo estudantil, hoje a tendência é precisamente o inverso. Estamos condenados a ter uma massa intelectual e leitora muito forte. O número de instituições de ensino médio espalhadas um pouco por todo o país, a desconcentração do ensino superior, que antes estava concentrada em determinadas cidades, hoje em cada capital das províncias temos uma universidade, apesar dos problemas que temos, estamos condenados num futuro breve a ter uma situação completamente diferente. Porque se hoje temos debilidades no processo de ensino, muitas delas que nós reconhecemos, esses mesmos estudantes que hoje têm debilidades, porque têm necessidades de se superar, vão ser os leitores e potenciais críticos do amanhã. E a nossa literatura enquanto instituição vai ter muito a ganhar por isso.

Não acha que o surgimento das redes sociais fez com que sobretudo a geração de 90 se tornasse um bocado preguiçosa em manter um contacto com o livro?

Sim e não. Sim porque isso é um mal do mundo. Se é um mal do mundo, então porque é que nos outros países a leitura ainda é uma referência? Portanto, não pode ser desculpa para nós. Nos outros países também existem redes sociais, também existe crise de leitores, mas também no mundo temos leituras obrigatórias. Um estudante quando chega a um determinado nível, há obras que tem mesmo que ler. Tem mesmo que ter lido. E nós também devemos seguir por aqui. Mas, novamente, voltamos para questão do cânone: quais são as obras que vão ser obrigatórias em determinados níveis de ensino?

Quais são as obras que um aluno do segundo ciclo devia ter lido?

Às vezes prefiro não falar para não criar desconforto, porque também estou numa posição um bocadinho ingrata. Sou professor de literatura. Sendo professor de literatura, tenho certas responsabilidades naquilo que digo publicamente.

Mas podemos ajudar. Quem não leu Mayombe, As Aventuras de Ngunga e outras…

Há algumas obras que penso que são de referência obrigatória. Não determino o nível em que elas podem ser lidas, mas por exemplo Sagrada Esperança é sim uma obra de referência obrigatória. Quem me Dera ser Onda é sim de leitura obrigatória. Mestre Tamoda ou os Discursos de Mestre Tamoda são obras de leitura obrigatória. Maiombe ou até Lueji – O Nascimento de um Império, «Cidade e a Infância» são sim de leitura obrigatória. Agora, o importante era saber em que níveis é que estas obras seriam disponibilizadas para leitura. Mas também estou muito centrado a obras produzidas num determinado espaço de tempo. Felizmente, os 11 clássicos se centram nestas obras. Será que de lá para cá não se produziu nada? Claro que se produziu. Na verdade, o grande problema da discussão do que é o cânone da literatura angolana começa neste período posterior a esta fase.

Há uma marginalização?

Não digo que existe uma marginalização. Existe é um certo cuidado para se definir o que é que deve entrar no cânone da literatura nessa fase posterior. Esta fase que muitos chamam de geração da utopia, da mudança ou pós-independência. Mas boa parte da literatura que até hoje não entra como produto de leitura no ensino oficial é essa literatura posterior a essa fase. Mas aqui também tenho feito uma crítica a nós professores de língua portuguesa. Para levarmos uma obra literária para a sala de aula temos de criar um conjunto de argumentos didáctico-pedagógicos para que seja estudada. O que nós muitas vezes, ou quase sempre, nos limitamos a fazer é os instrumentos do passado para analisar as obras no presente. Hoje também são poucos os professores de língua portuguesa que pegam obras actuais para levar à sala de aula. Para estudar o contexto, a língua e a história.

São poucos os professores de língua portuguesa que fazem este estudo. Limitamo-nos muito às obras do passado. Limitando-nos às obras do passado, é claro que não vamos induzir os alunos do presente a lerem as obras do presente. Hoje falar de Agostinho Neto e Sagrada Esperança nas escolas, faz-se. Faz-se do «Quem Me Dera ser Onda». Porque já existe uma espécie de padrão do estudo destas obras nas salas de aulas. Mas daquele momento para diante quase ou nada se faz.

‘Poucos são os estudantes que têm habilidade de escrever’

Quais são os grandes problemas que existem no ensino do português?

Falta ou escassez de pessoas qualificadas para ensinar a língua portuguesa.

Mas o Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED) não está a formar?

Não forma à dimensão que o país precisa. As escolas de formação de professores formam professores de língua portuguesa, mas não o fazem à dimensão do que o país precisa. Hoje ainda temos a ideia de que, desculpem- me os juristas, de que um jurista por ser bom falante de português está em condições de ensinar a língua portuguesa. No entanto, é uma ideia errada. Ensinar língua portuguesa exige um conjunto de instrumentos que precisam de ser devidamente manipulados para se ensinar convenientemente a língua portuguesa. A língua portuguesa enquanto instrumento falado, escrito e de interpretação. Se não tivermos os professores adequados para formar os alunos, claro que vamos ter sempre dificuldades. Não só no ensino, mas também na retransmissão da língua portuguesa. Costumo dizer que acabo por ser um reflexo: hoje ensino a língua portuguesa. No segundo, terceiro e no ensino médio não tive professor de língua portuguesa. O meu professor de língua portuguesa provavelmente deve ter dado uma ou outra vez. O que depois acabei por reter sobre o ensino da língua portuguesa, muito dele foi por autodidatismo, apoiado pela prática de jornalismo. E mais ainda pela minha entrada no ISCED de Luanda. Portanto, eu acabo por ser a realidade de muitos. Quantos tiveram professores de língua portuguesa? No entanto, muitos destes são professores de língua portuguesa. E vamos acabar por verificar no ensino da língua portuguesa a retransmissão dos defeitos e das falhas que nós tivemos no nosso processo de formação.

É aceitável o ensino de língua portuguesa, por exemplo, numa Faculdade de Direito para se colmatar o défice anterior? Quem não aprendeu substantivo na 8ª vai aprendê-lo no ensino superior?

Não sou a favor disso. Eu penso que o ensino da língua portuguesa numa Faculdade de Direito deve ser devidamente direcionada. Numa faculdade de direito não se pode ensinar como se a fosse a um estudante da 9ª ou 10ª. Portanto, o ensino da língua portuguesa deve ser muito direcionada porque estamos na formação de um profissional. Assim sendo, deve ser um instrumento de apoio a este profissional que vamos ensinar. E esse profissional que está a ser formado não precisa de saber o que é um substantivo, um adjectivo. Precisa é de saber como é que funciona a língua portuguesa? Como é que pode utilizar a língua a favor da sua profissão? Neste sentido, sim. Agora, quem está a se formar para ser professor de língua portuguesa é uma obrigação saber o que é o sujeito, substantivo, adjectivo, uma oração coordenada ou subordinada. Além disso, costumo também dizer que o professor de língua portuguesa, além da didáctica, língua e sua história, tem também necessidade de conhecer o funcionamento das línguas bantu faladas em Angola.

Numa entrevista que concedeu à entrevista de bordo da Taag notouse uma certa apreensão da sua parte em relação ao ensino bilingue. O que se passa?

Na verdade, o ensino bilingue nesta altura podemos dar o pontapé de saída. Mas é sempre um processo muito sensível. Penso que podia ser posterior. Numa primeira fase, eu acho que para um professor de língua portuguesa, que esteja a ensinar num determinado contexto geográfico, tem que conhecer o funcionamento da língua bantu, porque há erros que cometemos ou ocorrem desvios no uso da língua que são decorrentes da influência, ou contágio da língua bantu. Se eu não conhecer a estrutura ou funcionamento da língua bantu cometo a imprudência de não saber direcionar o meu estudante ou não lhe conseguir explicar porque é que cometeu um erro. Por exemplo, há muitos trabalhos interessantes sobre este aspecto. A professora Amélia Mingas tem um. O funcionamento da língua bantu tem uma estrutura ou um alfabeto diferente. Continuamos a fazer confusão entre Kwanza e Cuanza. Portanto, estes são alfabetos diferentes. Tem alfabeto da língua neo-latina que é a portuguesa e tem o da língua bantu, no caso concreto a língua Kimbundu. Mas, além disso, temos ainda o próprio funcionamento da língua. Na língua bantu, Kimbundu em particular, a pluralização dos nomes é feita de forma prefixada.. Na língua portuguesa é feita de forma sufixada.. Então, se eu não conhecer este processo como é que vou explicar ao meu aluno que diz «os pai dele ou os pão»? Ele foi influenciado provavelmente pela língua bantu, cuja pluralização é feita de forma prefixada. Ele sabe que está diante de um plural, mas nas línguas bantu a pluralização é no prefixo. Ou seja, faço a pluralização prefixando a palavra ou o determinante. No caso da língua portuguesa é sufixada. Portanto, ele tem que perceber que «os pão» tem que assumir-se a concordância entre o determinante e o nome. Mas também o professor para poder explicar isso tem que saber como funciona a língua bantu que levou o aluno a cometer esta falha. Que análise é que faz do livro «Ensaboado e Enxaguado», de José Carlos de Almeida?

Sobre a obra do meu amigo José Carlos de Almeida já fiz  um pronunciamento sobre o efeito. Continuo a dizer que a obra tem a sua importância e a sua validade, fundamentalmente pela coragem e pela inovação. Por ter vindo revolucionar-se um bocadinho em terno das publicações ou da língua portuguesa. O resto já fiz  referência porque penso que a obra tem alguns pecados, decorrentes do facto de o autor da obra não ser linguista nem especialista em língua portuguesa.

Porque é que os jovens têm dificuldade  em escrever as suas próprias monografias?

Isso decorre do próprio processo de formação. Primeiro, para se produzir uma monografia  de fim do curso, para quem não teve as bases suficientes , é difícil. Não é fácil escrever. Segundo, não é fácil fazer análise crítica. Quem produz uma monografia  de fim  do curso tem que ter estes dois instrumentos. Tem que saber escrever e saber analisar. Sabemos que poucos são os estudantes que têm habilidade de escrever. Segundo: poucos são os que têm leitura suficiente que permite fazer uma recensão crítica. Aliás, já tinha referido algumas vezes que temos estudantes que chegam à universidade só com leituras orientadas. Portanto, se não lhe foi orientada uma determinada leitura, ele mais não fez. E as leituras orientadas são insuficientes para que pretende fazer uma monografia  de fim  do curso. Porque ler vai nos permitir conhecer a escrita, interpretar uma obra, um livro no caso, e poder produzir um juízo reflectivo.  Se você não lê, logo não está em condições de produzir a monografia.

O jornalista ‘emprestado’ à docência e às letras

Nasceu em Luanda, em Agosto de 1971. Licenciado em Ciências da Educação e mestre em Ensino de Literaturas em Língua Portuguesa, António Quino é jornalista desde 1990, sendo co-fundador do jornal Farol, da Brigada Jovem de Literatura do Namibe.

Enquanto cronista e ensaísta, é colaborador permanente do Jornal de Angola, de O PAÍS e do mensário O Chá, uma publicação da Associação Chá de Caxinde.

Docente desde 1992, é membro do colégio de estudos do Instituto Superior de Ciências de Educação de Luanda e do secretariado da Kulonga, revista de ‘Ciências da Educação e Estudos Multidisciplinares », onde publicou textos nos cadernos de «Estudos Literários e Linguística» e «Como se lê um texto literário».

É autor das obras «Duas faces da esperança: Agostinho Neto e António Nobre – Num estudo comparado (2014)», e «Conversas de homens no conto angolano (2010)», editada em Portugal com o título «Balada de homens que sonham (2011». O último livro foi traduzido para italiano, espanhol e hebraico.

António Quino tem ainda ensaios publicados em Angola e Portugal e trabalhos divulgados em revistas online, nomeadamente Cronópios e TriploV. (opais.ao)

Por: Dani Costa e Sebastião Félix

 

 

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