Angola: Salto para o petróleo do pré-sal pode acontecer dentro de cinco anos

(Foto: D.R.)
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Cerca de 40 empresas, incluindo as maiores operadoras internacionais do sector, operam actualmente na produção de petróleo em Angola, prevendo-se que o salto para a actividade no pré-sal possa acontecer dentro de cinco anos.

Em entrevista à agência Lusa, em Luanda, o especialista e antigo director-geral adjunto da filial angolana do grupo francês Total, Jorge de Abreu, recordou que as primeiras descobertas de petróleo na camada pré-sal de Angola – mais de 4.500 metros de profundidade, além da água, solo e camada de sal – já foram feitas nos blocos 20, 21 e 23.

Ainda assim, o contexto actual do sector “não é o mais favorável”, nomeadamente tendo em conta a quebra na cotação internacional do barril de crude, a perspectiva de baixo preço durante pelo menos mais três anos e os custos para esta produção, em águas ultra profundas, “ainda muito elevados”.

“Apesar disso, penso que até 2020 teremos o primeiro óleo do pré-salífero da bacia do Kwanza em produção. Até lá, se a exploração continuar, outras descobertas virão quando se compreender melhor os sistemas geológicos, tectónicos e a génese do óleo nesses horizontes”, explica Jorge de Abreu, aludindo aos trabalhos de perfuração de exploração que várias operadoras estão a realizar para “compreender melhor” aquela bacia sedimentar.

Além disso, enfatiza, “não é de descurar” o gás natural que também já foi descoberto nessa região (que se pensa ter potencial de produção de hidrocarbonetos semelhante a pré-sal brasileiro) e que “é necessário valorizar”.

“Mas águas profundas não querem obrigatoriamente dizer pré-sal. Em águas profundas há potencial nos horizontes pré-salíferos, à imagem do que aconteceu na bacia da Santos, no Brasil, mas também se produz a partir pré-salífero há muitos anos inclusive em Cabinda a partir das formações Toca e Lucula”, refere o especialista, com 37 anos de experiência no sector.

Quando Angola produz diariamente mais de 1,7 milhões de barris de petróleo – quando se tornou independente produzia 10% -, mas num ano em que o peso das receitas fiscais petrolíferas deverá cair para 36,5%, praticamente metade face a 2015, devido à quebra da cotação internacional do crude, Jorge de Abreu reconhece que o país enfrenta essencialmente três desafios.

É o caso da necessidade de redução dos custos operacionais, para “tornar os desenvolvimentos atractivos aos investidores” e a reposição das reservas “para compensar a produção, mas para tal precisa de oferecer termos contratuais interessantes, estáveis e competitivos na arena internacional”.

“Por último, promover a exploração de gás natural através de contratos de risco ou de serviço nos quais o gás e os condensados são valorizados como o petróleo bruto nos contratos existentes”, defendeu o consultor e especialista do sector no país.

País multiplicou produção de petróleo por dez em 40 anos de independência

A produção de petróleo em Angola cresceu dez vezes desde a independência do país do regime colonial português, dominando hoje totalmente as exportações angolanas, mas a integração de quadros angolanos no sector ainda é lenta.

O país produzia cerca de 173 mil barris de petróleo por dia em 1975 e este ano, segundo dados oficias do primeiro semestre, já ultrapassou os 1,7 milhões de barris diários, representando, por norma, cerca de 70% das receitas fiscais angolanas e 98% das exportações.

Em entrevista à agência Lusa, o especialista angolano e consultor na área dos petróleos Jorge de Abreu recordou que a produção petrolífera em Angola começou a desenvolver-se no início dos anos 70 do século passado, permitindo então alimentar a Refinaria de Luanda “e pouco mais”.

Antes da independência, a produção era garantida em terra, junto a Luanda, no ‘onshore’ Kwanza, e na região do Soyo, na província do Zaire. Em ‘offshore’ era produzido petróleo na baia de Malongo, no enclave de Cabinda.

“E importante referir que o preço do petróleo bruto naquela época não ultrapassava os três dólares por barril (até 1973 e à primeira crise petrolífera). Não era pois o mais importante dos produtos de exportação de Angola, então colónia portuguesa. O café, o milho, os diamantes, o sisal e mesmo o ferro eram mais importantes que o petróleo”, recorda o especialista e antigo director-geral adjunto da filial angolana do grupo Total.

Além da quantidade, Jorge de Abreu recorda que a evolução em 40 anos de produção em Angola foi também “qualitativa”, em função do aumento da complexidade tecnológica disponível no país.

Com a entrada em força das multinacionais petrolíferas e o progressivo aumento do preço do barril de petróleo no mercado internacional, a produção seguiu de terra para águas cada vez mais profundas, mas começando pelo ‘offshore’ convencional, com perfuração a menos de 200 metros de profundidade de água, logo nos anos 80 e 90, ainda durante a guerra civil que assolou o país.

“Chegando a uma produção vizinha dos 600.000 barris nos blocos costeiros”, explica o especialista, recordando que rapidamente se seguiram produções até 1.500 metros de profundidade, com o início da actividade dos blocos 14,15,17 e 18.

“E uma produção que em menos de 10 anos ultrapassou o milhão de barris por dia”, sublinha.

A produção angolana, o segundo produtor da África subsaariana, deverá consolidar este ano a marca de 1,8 milhões barris por dia, uma posição de destaque no continente em grande medida devido às inovações que permitiram o desenvolvimento dos campos de águas profundas na bacia do baixo Congo, nos blocos 15, 17 e 18.

“Em cada projecto, a inovação tecnológica esteve presente: ‘riser towers’, sísmica 4D, separação submarinas, bombagem multifásica, ‘pipe in pipe’, só para nomear algumas”, refere o especialista, com 37 anos de experiência na actividade petrolífera angolana.

Vários projectos angolanos de produção em águas profundas foram entretanto premiados em conferências internacionais do sector, evolução que, diz, não foi acompanhada da formação e integração de técnicos angolanos nas várias especialidades e níveis de responsabilidade.

“Tendo ainda hoje de se recorrer em grande quantidade a técnicos expatriados extremamente caros e nem sempre com as competências requeridas”, lamenta Jorge de Abreu. (jornaldenegocios.pt)

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