A tragédia das meninas violadas

(Getty)
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As violações na capital da Índia, este fim de semana, de duas crianças com dois e cinco anos de idade fazem renascer uma tragédia sem fim à vista. E estão longe de ser casos isolados no país.

notícia é infinitamente perturbadora. Hedionda. Repugnante. E todas as explicações serão poucas para interpretar ou tentar pôr em perspetiva a violação de duas meninas: uma de dois anos, outra de cinco. Aconteceram este fim de semana em Nova Deli, capital da Índia.

Na versão avançada domingo pela polícia, a criança de dois anos e meio foi sequestrada na sexta-feira por dois rapazes de 17 anos quando brincava junto a casa. Depois de abusada pelo menos uma vez, foi abandonada três horas depois num parque, inconsciente e com uma grave hemorragia. Nesse mesmo dia, uma menina de cinco anos foi severamente molestada por três homens depois de ter sido atraída até casa de um vizinho. Os cinco suspeitos foram já detidos e as duas crianças estão internadas, livres de perigo. Os dois jovens já confessaram o crime.

Os ataques deste fim de semana estão longe de ser um caso isolado e aconteceram uma semana depois de uma menina de apenas quatro anos ter sido deixada moribunda junto a uma linha de caminho de ferro, a norte de Nova Deli, depois de violada e gravemente ferida com uma arma branca.
11 mil queixas, nove julgamentos

Epidemia. É a esta a palavra escolhida pelas organizações de direitos humanos que protestam nas redes sociais contra as violações de milhares de mulheres e crianças. Mais de 2000 em 2014 só em Nova Deli, com os seus 13 milhões de habitantes.

Incapazes de travar a epidemia, vêm a público as habituais trocas de acusações do dia seguinte. O governo regional usou o Twitter para acusar a polícia e o governo nacional de não fazerem o suficiente para proteger as menores. É que a polícia da gigantesca Nova Deli está nas mãos do governo nacional e o regional pensa que deveram ser eles a mandar nos agentes da autoridade – caso contrário, sustentam, os delitos contra as mulheres continuarão a ser ignorados pelas autoridades. Das 11 mil queixas feitas à polícia da capital da Índia em 2014, só nove chegaram aos tribunais.

“Ninguém tem medo porque sabem que não serão condenados. Se quem prevarica não tem de pagar pelos seus atos, como é que será possível alterar esta situação?”, pergunta Swati Maliwal, da Comissão de Mulheres de Nova Deli.
“Era uma pedinte, a sua vida não valia nada”

Foi também na capital indiana que aconteceu a trágica violação, a 16 de dezembro de 2012, pelas 20h30, de uma jovem de 23 anos num autocarro a caminho de casa, depois de uma ida ao cinema com um amigo. Um grupo constituído por seis homens (um deles menor de idade) agrediram o amigo da vítima, abusaram da mulher à vez e espancaram-na com um objeto em ferro.

Durante as investigações, o condutor do autocarro, que não participou no ataque, terá dito às autoridades durante um interrogatório que “uma mulher decente não anda por aí à 9 da noite, uma rapariga é mais responsável por uma violação do que um rapaz”.

Num documentário transmitido este ano pela BBC, a realizadora britânica Leslee Udwin perguntou ao violador de uma menina de cinco anos como tinha sido possível, ao que este respondeu: “Era uma pedinte. A sua vida não valia nada”. (expresso.pt)

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