Economia 100 Makas: A boa notícia “esconde” uma péssima notícia

CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
CARLOS ROSADO DE CARVALHO
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

“A boa notícia é que não haverá recessão [económica em 2015].”

Economicamente falando, foi este o principal sound bite do discurso sobre o estado da Nação lido pelo vice-presidente da República, Manuel Vicente, na Assembleia Nacional (AN), por “indisponibilidade momentânea” do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, segundo a Casa Civil, ou “indisposição”, nas palavras do presidente da AN, Fernando da Piedade Dias dos Santos.

Tecnicamente, falando um país entra em recessão económica quando o respectivo Produto Interno Bruto (PIB) diminui em dois trimestres consecutivos. O PIB, considerado o indicador económico mais sintético, corresponde ao valor dos bens e serviços finais produzidos num determinado espaço geográfico, por exemplo uma província ou país, durante um determinado período, por exemplo, um trimestre ou um ano.

Ou seja, tecnicamente, diz-se que um país está em recessão económica se, por exemplo, o valor dos bens e serviços produzidos baixar no terceiro trimestre face ao segundo, depois de ter baixado no segundo face ao primeiro.

A maka é que em Angola não há estatísticas trimestrais do PIB. Por isso, o critério dos dois trimestres consecutivos de diminuição do valor do PIB para avaliar se o País está em recessão não se aplica. A solução é analisar a recessão numa perspectiva anual, isto é, um país está em recessão quando o valor do respectivo PIB num determinado ano baixa face ao anterior. Como disse antes, o PIB é o valor dos bens e serviços finais produzidos num país durante um ano.

A questão é como se calcula o valor do PIB. Existem duas formas: a preços constantes e a preços correntes. No primeiro caso, quando estamos a comparar dois anos consecutivos, por exemplo 2014 e 2015, multiplicam-se as quantidades produzidas em cada ano pelos preços de um mesmo ano, por exemplo, 2002, designado ano-base.

No segundo multiplicam-se as quantidades produzidas em cada ano pelos preços desse ano, a produção de 2014 pelos preços de 2014, e a produção de 2015 pelos preços de 2015. A variação do PIB a preços constantes entre dois anos consecutivos designa-se variação real anual, enquanto a variação do PIB a preços correntes designa-se variação nominal anual. Vejamos o que acontece com Angola quando utilizamos uma ou outra metodologia. Como 2015 ainda não acabou, temos de nos socorrer de previsões.

Que eu saiba, o Governo não actualizou as suas estimativas do valor do PIB de 2014 nem as previsões para 2015, a preços constantes ou correntes. Recorro por isso às estimativas e previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Angola disponíveis na respectiva página web. De acordo com a instituição, o PIB de Angola, a preços constantes de 2002 vai aumentar 57 mil milhões Kz de 1,64 biliões Kz em 2014 para 1,70 biliões Kz, a que corresponde um crescimento de 3,5%. Ou seja, não haverá recessão, mas apenas uma ligeira desaceleração do crescimento da economia, como referiu o PR pela boca do seu vice e o FMI confirma.

Segundo o Fundo, o crescimento em Angola vai desacelerar de 4,8% em 2014 para 3,5%. Já o Governo aponta para uma desaceleração de 4,7% no ano passado para 4% este ano. Ou seja, em 2015, Angola vai crescer mas a um ritmo inferior ao do ano passado. Já quando se faz a análise a preços correntes as conclusões são opostas.

Segundo o FMI, o PIB a preços correntes vai diminuir 486 mil milhões Kz, de 12,71 biliões Kz, em 2014, para 12,23 biliões Kz em 2015, a que corresponde um crescimento negativo de 3,8%. Ou seja, em termos nominais, haverá recessão em Angola em 2015. Se, em vez de kwanzas, usarmos dólares, o cenário piora.

O PIB em dólares correntes vai reduzir-se em 27,3 mil milhões USD, de 129,32 mil milhões USD, em 2014, para 102,01 mil milhões USD, em 2015, um crescimento negativo de 21,1%. Aqui chegados, a pergunta óbvia é se vale mais ter uma recessão a preços constantes ou a preços correntes.

De preferência nenhuma, mas, a escolher entre as duas, o melhor mesmo é ter uma recessão a preços constantes, isto é, em termos reais. Fazendo uma analogia com quem vive do salário, uma recessão em termos reais é quando o salário aumenta, mas menos do que os preços, daí resultando uma perda de poder de compra para o trabalhador.

Uma recessão nominal é quando o próprio salário diminui. Voltando à economia, muitos países em recessão em termos reais, isto é, cujo PIB baixa a preços constantes, registam crescimentos em termos nominais, ou seja, o seu PIB a preços constantes aumenta. Talvez por sermos “especiais”, em Angola acontece o contrário: em termos reais não há recessão, mas em termos nominais há.

Esse ser especial tem que ver com a nossa petrodependência. Nós até vamos produzir mais petróleo. A maka é que o valor da produção vai baixar devido à queda do preço. Afinal, há boas notícias que ‘escondem’ péssimas notícias. (expansao.ao)

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