Silva Candembo: “O maior problema do nosso desporto é o dirigismo”

Silva Candembo, jornalista. (Foto: D.R.)
Silva Candembo, jornalista. (Foto: D.R.)
Silva Candembo, jornalista.
(Foto: D.R.)

O veterano jornalista desportivo escreveu há alguns anos ‘Breve História de Angola nos Afrobasket’s 1980-2005’. Tem outros dois no prelo, um dos quais sobre a modalidade em que Angola é hendecampeã, que pode ser lançado ainda este ano. Considera a Selecção Nacional a mais forte candidata à conquista do campeonato na Tunísia, apesar da ‘renovação’ que se observa no conjunto. Mas, nesta conversa, Silva Candembo aborda também o futebol, a selecção nacional e a Federação Angolana de Futebol (FAF), cujo desempenho do actual titular, Pedro Neto, considera ‘mediocre’

Quais são as expectativas de Angola no Campeonato Sénior Masculino de Basquetebol?

Como é óbvio, em função do his­tórico da selecção de Angola, por ser a mais titulada com 11 campeonatos nos últimos 30 anos, é a principal candidata ao título. Mas, sendo entre­tanto a principal candidata ao título, há sempre que contar com a oposição tenaz das outras equipas. Refiro-me nomeadamente ao Senegal, Nigéria e à própria Tunísia, que joga em casa. Como sabemos, nos últimos anos, há aqui aspectos que ressaltam fortemen­te: o Senegal é das poucas selecções em África que nos últimos anos, quase sempre, bateu a selecção de Angola, mesmo sendo a selecção de Angola campeã. A Tunísia só conseguiu uma vitória, no penúltimo Afrobasket, mas a Nigéria, neste momento, um bocado mais organizado, com alguns joga­dores que actuam na NBA, também é um forte obstáculo para a marcha da nossa selecção rumo ao título. Porque a Nigéria é das equipas a nível mundial com a maior média de altura, depois tem jogadores muito bom do ponto de vista mundial. Se eles consegui­rem formar um grupo coeso, uma equipa mesmo, para além dos valores individuais, acho que é uma grande candidata à conquista deste título. Portanto, acho que vai ser dos campe­onatos mais difíceis para a selecção de Angola.

Tendo em conta a composição da se­lecção angolana, podemos acreditar em mais um título?

Eu ouvi várias vezes o treinador a falar, o que me pareceu é que ele identifica-se muito com aquilo que é o nosso modelo de jogo. Um modelo de jogo que, durante muitos anos , fez-nos ganhar muitos títulos. É um treinador que valoriza muito a defesa e, como sabe, as defesas normalmente ganham os campeonatos. Os ataques ganham alguns jogos, mas as defesas é que ganham os campeonatos. Em basquetebol é crucial saber defender. Por aquilo que é a filosofia do treina­dor, e que tem dado a ver, parece-me que ele está a investir muito neste capítulo. Por outro lado, nesta altura já não temos alguns jogadores muito importantes, mas essa é a própria lei natural da vida. Uns saem porque já têm idade avançada e outros porque não têm condição física para continu­arem. Os que ficam têm que disputar o campeonato e a obrigação de trazer o título para Angola, até em função daquilo que é o histórico de Ango­la. Desde 1987, há exactos 28 anos, Angola joga sempre para o título. Pode não ganhar, mas joga sempre para o título. Desde este período, só perdeu em três ocasiões. Em 1987, ‘perdeu’ porque ainda não tinha sido campeã. Depois de ter sido campeã em 1989, até agora só perdeu dois campeonatos. Isso é muito significativo. Acho que, em função deste cenário, Angola é a principal candidata ao título. Não quer dizer que vá ganhar porque não vai jogar sozinha. Tem muitos adversá­rios e de muito peso. Por outro lado, é preciso também reconhecer que, apesar de Angola não ter hoje indi­vidualmente valores deslumbrantes, ainda é do ponto de vista colectivo das melhores equipas e das mais discipli­nadas do ponto de vista táctico. Penso que é uma grande vantagem mesmo em relação àquelas equipas que têm jogadores que actuam na NBA. Na ver­dade, não é a primeira vez que Angola vai enfrentar selecções com jogadores da NBA, não é novidade, porque é algo que vem já de há muito tempo. An­gola sempre enfrentou equipas muito mais altas do que elas e vai sempre vencendo. Por exemplo, no histórico dos jogos com a Nigéria, que é uma selecção muito forte, que conseguiu o apuramento para os jogos olímpicos de 2012 de maneira brilhante, diante de uma Grécia, mas que tradicionalmente nunca consegue ganhar a Angola. Mesmo tendo os jogadores que tem e, provavelmente, a média de altura mais alta do mundo. Por exemplo, no torneio pré-olímpico de Caracas, em 2011, a selecção era a mais alta de todo o torneio. Ainda assim, a Nigéria sempre encontra muitas dificuldades porque o jogo colectivo de Angola é muito forte.

Em termos individuais, por exem­plo, a selecção de Angola inspira muita confiança?

Foi o que disse: individualmente hoje não temos os valores que tivemos antes, porque o próprio basquetebol há muito tempo que não cria grandes talentos. Creio que, em rigor, o último grande talento que o basquetebol angolano criou é eventualmente o Carlos Morais e agora aparece também o Yannick Moreira. A componente individual é muito relevante, mas nem tanto numa equipa como a de Angola, onde a componente colectiva é mais importante. Angola vale-se essencial­mente pelo seu jogo colectivo. Com esse jogo colectivo, Angola consegue, mesmo que tenha debilidade numa ou noutra posição. Se reparar, Angola normalmente não joga com jogadores muito altos. Vê, por exemplo, que Eduardo Mingas é um poste que tem 1 metro e 98/99 cm e joga com adver­sários com 2 metros e 10/13 cm e por aí adiante. Muitas vezes leva vantagem porque o jogo colectivo de Angola é muito forte. Acho que aí é onde está o grande segredo, apesar de, do ponto de vista individual, hoje não termos grandes jogadores.

Há alguns receios em relação aos bases. A escolha de Braúlio Morais para o terceiro nesta posição foi a mais acertada?

Normalmente, em basquetebol as escolhas e as convocatórias são feitas em função dos números. Saberás que o Bráulio joga no Libolo e foi finalista do nacional de basquetebol. Portanto, o Libolo perdeu por apenas um jogo na diferença. Acredito que ele tenha números bastantes ou suficientemen­te bons para merecer a convocação. Quando um treinador faz uma convo­catória – e acho que isso que isso não é motivo de pretexto ou de receios –fá-lo em função daquilo que é o modelo de jogo que quer aplicar ou daquilo que é a táctica ou os conceitos que vai aplicar. Se ele tem um modelo de jogo, uma determinada forma de aborda­gem de jogo, ele tem de convocar os jogadores em função disso. Acho que é isso que ele terá feito. Esta é a minha forma de estar no desporto e normal­mente não contesto convocatórias, porque o treinador sabe o quer fazer. A única coisa que ele tem a obrigação de fazer, como fizeram os outros, é trazer o título para Angola e nada mais do que isso, independentemente de quem sejam os jogadores. Eu acredito que o Braúlio para o terceiro lugar é suficientemente bom e acredito que dê garantias para o grupo. Normalmente, numa competição desta natureza, há 12 jogadores que vão para a equipa, mas nem jogam todos. Há aqueles que vão ter muito mais minutos. Vão ter à volta de 20 e tal minutos ou quase 30. Outros vão ter uma média de cinco, sete ou 10 minutos por jogo. Acho também que esta chamada do Braúlio tem muito já a ver com o futuro, porque é preciso preparar. O Armando Costa, daqui a mais um tempo, creio, acaba a carreira. Nos bases temos o Armando, o Braúlio e o Hermenegildo Santos. O Hermenegil­do Santos já esteve num Afrobasket. Quantos minutos jogou? Ele jogou muito pouco. Portanto, isso também se enquadra naquilo que é a filosofia do nosso basquetebol e da nossa selec­ção. Muitos jogadores entram novos essencialmente para ambientarem-se à selecção, para terem contactos internacionais mais intensos, visando essencialmente o futuro. Quando o Hermenegildo Santos foi convocado no último Afrobasket também houve um bocado essa estória e contestação. Mas o Hermenegildo não foi para ser o primeiro base. Do mesmo modo que o Braúlio não vai para ser o primeiro base. Há outra questão que é também importante não perder de vista: se por qualquer razão o primeiro e o segundo base ficarem impedidos, haverá sem­pre um jogador da posição dois que pode assegurar quando se tratar de um jogo mais difícil ou de risco. Acho que não é por aí que a selecção vai perder ou não. O caminho não será eventual­mente este.

O técnico Mocho Lopez vem de Espanha e acredita-se que não conheça minimamente o basque­tebol africano. Poderá ter algumas dificuldades?

Eu não vejo as coisas desta forma. Conhecer o basquetebol africano é o quê em termos concretos? É ter este tipo de contactos. Ele vai ter pela primeira vez. Nós também já tivemos treinadores que não tinham grande conhecimento do basquete­bol africano e conseguiram. Aqui o importante é o que ele pensa do jogo? Qual é a filosofia ou o modelo do jogo? Isso é determinante para se resolver o assunto. Há muitos treinadores que têm muito conhecimento do basque­tebol africano, mas chegam aqui e não ganham. Por exemplo, o treinador que vários anos treinou o Senegal chega aqui e não ganha. O treinador da Tunísia anda há muito tempo nisto, conhece o basquetebol africano, mas não ganha. Portanto, o facto de ter chegado agora não é razão bastante para ver que possamos não ganhar. Se não ganharmos, eventualmente, o problema não será porque o treinador não conhece o basquetebol africano. A competição do basquetebol africano é muito limitada. O que um indivíduo vê nas taças dos campeões de África dos clubes é completamente diferen­te do que vai ver no Afrobasket. Os jogadores são diferentes. Apesar de termos essa competição anualmen­te, a taça dos clubes campeões não é uma prova que dê para aferir de um modo mais assertivo aquilo que são as competições em África. Tratando-se do Afrobasket, que se disputa de dois em dois anos, acho que o técnico tem condição sim, porque também terá visionado imagens, recolhido outro tipo de informação e deve conhecer muito bem os jogadores que actuam na NBA e que vão ser adversários de Angola nas outras selecções. Portanto, acho que o facto de ele não ter esse contacto com o basquetebol africano não é relevante para o caso vertente.

Houve críticas pelo facto de Angola ter defrontado o Senegal no torneio de Santander. Parece que o técni­co não queria defrontar ainda esta equipa. Qual é o seu ponto de vista?

Creio que a selecção angolana de basquetebol não tinha outra alternati­va. Não iria faltar ao torneio. Parece-me que para esse tipo de evento as federações recebem um cachet. Acre­dito que terão recebido e, em função disso, a Federação Angolana não tem condição de dispensar isso. Eu vejo a coisa de outra forma: não é um mal de todo, até porque tendo defrontado já o Senegal o treinador tem uma opinião devidamente formada. Provavelmen­te, se não tivéssemos defrontado já o Senegal, iria acontecer o que ocorreu no torneio. Foi bom ter acontecido agora, porque acredito que o treinador estará na posse de todos os elementos que lhe permitem fazer um estudo exaustivo de como anular e ganhar o Senegal.

O modelo de competição, todos contra todos na primeira fase, vai ajudar também o treinador a conhe­cer os adversários?

Sim. Todas as competições da FIBA de um modo geral são assim. Mas o estudo não apenas é feito antecipa­damente, como é natural neste tipo de provas, apesar de, em termos de basquetebol, haver muito pouca infor­mação em África. Há poucas imagens. Normalmente, o que os treinadores têm mais são estatísticas. Então, esta primeira fase é essencialmente para isso. É lógico que, durante a primeira fase, o treinador vá fazer a avaliação das outras equipas, ver os vídeos, inclusivamente do Senegal, com quem fez um jogo e teve a oportunidade de observar noutros desafios durante o torneio. Acho que o modelo não vai determinar nada em termos de re­sultados. Vai permitir ao treinador ter mais pormenores do seu adversário. Numa primeira abordagem, pode ser até que Angola perca com o Senegal como aconteceu noutras ocasiões, mas ganhou o campeonato. Aliás, no último Afrobasket acho que perdeu com o Senegal, mas mesmo assim ganhou. O Senegal depois ficou com o Egipto. Portanto, tinha-me esquecido de dizer que o Egipto também é uma selecção muito forte, está com uma média elevada de altura e, nos últimos anos, trabalhou muito os escalões de formação. É outra selecção que pode dar trabalho durante a competição.

A nossa selecção tem um líder?

Eu acho que sim. Neste momento, o líder é o capitão Mingas, que é prova­velmente a pessoa com mais anos de selecção.

Diz-se que é ‘indisciplinado tactica­mente’?

Eu não estou em condições de fazer leituras tácticas. Primeiro, não sou um especialista e não me vou advogar a isso. Há pessoas não que estudaram, o campo deles de actuação não é este e gostam de dar opinião. Neste sentido, não vou dar opinião. Não sei quem diz isso, mas a verdade é que nos momen­tos essenciais Mingas tem sido um dos melhores jogadores nossos. Aliás, o Mingas esteve na última selecção ideal do Afrobasket. Quem faz a selecção ideal não são os jornalistas. É a comis­são técnica da FIBA-África. Se uma comissão técnica coloca o Eduardo Mingas no cinco ideal do campeona­to, que foi extremamente disputada, com selecções muito competitivas, quem sou eu para dizer que o Mingas é indisciplinado tacticamente? Isso é trabalho dos técnicos.

Não se está a depositar muita con­fiança em Yannick Moreira?

É um jogador muito bom, mas ainda não entrou na NBA. Só o facto de ter feito os testes da NBA é porque alguém acredita nele. É um jogador que, do ponto de vista mental, parece ser mui­to forte. Não o conheço pessoalmente, mas, pelo pouco que vi no mundial do ano passado, pareceu-me ser um jogador muito forte mentalmente. É esse tipo de jogadores que nós preci­samos. Faz-me lembrar um bocado o Jean-Jaques mentalmente falando. Acho que é uma mais-valia para a nossa selecção. Se não o tivéssemos, as dificuldades provavelmente seriam maiores. Nunca tivemos jogadores com essa altura. Acho que o máximo que tivemos na nossa selecção parece que foi com 2 metros e quatro mas, do ponto de vista produtividade eram quase nulos. Esse jovem Yannick pode ser uma mais-valia para a nossa selecção. É um sujeito que não tem medo de abordar a cesta. Fá-lo sempre com muita determinação. Há, por exemplo, jogadores do tamanho dele que em determinada abordagem do cesto podem ir com toda a força para fazer um smash e há os que preferem fazer um lançamento e depois aparece alguém que faça um tampão ou coisa do género. Portanto, ele é muito forte em termos de atitude e vai ser uma unidade muito prestativa para a nossa selecção.

A experiência do Kikas não devia ser ainda utilizada neste campeonato africano?

Acho que o Kikas poderia ir. Mas não falei com o treinador e não sei qual é a ideia dele em relação a isso. Infeliz­mente, porque a federação falha muito neste capítulo, também não cheguei a ver os elementos estatísticos do campeonato. Não tenho exactamente noção de quais foram os números do Kikas no campeonato, mas é impor­tante também dizer que, em regra no basquetebol, quando o treinador con­voca é sempre na base das estatísticas. Provavelmente, não falo com certeza porque não tive os números, Kikas não terá ido por isso. Acredito que seria um elemento valioso na selecção, sobretudo em termos de balneários. Passar a experiência que ele adquiriu ao longo destes anos todos, mas estão lá também outros jogadores expe­rientes que podem fazer este trabalho e essa passagem de testemunho. Até para termos garantia de perpetuar a hegemonia da selecção de Angola no futuro é sempre bom ir colocando um ou outro jovem para ambientarem-se já à selecção. A selecção de Angola sempre trabalhou assim desde os tempos memoráveis. Se sai um ou dois veteranos, entram sempre jovens que vão se ambientando. São poucos os jovens que entraram e nas primeiras chamadas pegaram destaques. Nor­malmente, os jovens entram, têm um Afrobasket, no seguinte já são muitas vezes, digamos assim, segunda opção e, quatro ou três anos depois, acabam por ser opção.

Reegie Moore parece ser o único estrangeiro naturalizado na selecção angolana. O que se pode esperar dele?

Ele é um jogador de eleição. Só por isso é que foi naturalizado do modo como foi, com toda a presteza porque precisavam dele. Ele é um jogador que pode agregar muito a esta selecção, apesar de que eu particularmente não concorde com esse tipo de naturali­zações. Se não estou em erro, a lei diz que precisa de viver 10 anos em Ango­la para ser naturalizado ou então tenha prestado serviços relevantes à pátria.

Não é o caso do atleta em questão?

Que serviços relevantes é que ele prestou? Serviços relevantes tens que prestar antes da nacionalidade. Na minha avaliação, não me parece que antes tenha prestado serviços rele­vantes, mas isso é coisa do passado, o que importa é que ele está na selecção e pode ser um elemento muito útil porque tem muita experiência. É um sujeito que, por aquilo que vejo, sabe fazer leitura do jogo, é muito forte neste sentido e parece-me ser tam­bém do ponto de vista mental muito equilibrado.

Moçambique é o adversário de estreia de Angola. Acredita que a selecção vai vencer o jogo?

Angola tem esta obrigação. Acho que ninguém no seu perfeito juízo e nem todos os moçambicanos devem estar a pensar que Angola vá perder. Em basquetebol é muito difícil. Se fosse no futebol, é normal uma equipa pequena pregar uma partida à equipa mais forte. Mas no basquetebol é mui­to difícil, acontece uma vez em 100 jo­gos. Veja, por exemplo, que a selecção de Angola uma vez bateu a da Espanha em plena casa dos espanhóis por 20 pontos de diferença. Quantas vezes Angola já jogou com a Espanha e nós conseguimos isso? Foi um acidente de percurso e não sei se nos próximos 80 jogos vamos conseguir vencer a Espanha. Por isso, nem sequer cogito a hipótese de a selecção perder com a Espanha.

O que acha do campeonato sénior masculino de basquetebol?

Ainda acho a nossa competição muito fraca, sobretudo do quinto lugar para baixo. Mas isso tem tudo a ver com o próprio país, a economia, as empresas não investem no basquete­bol e no desporto de um modo geral. Não há grandes incentivos, nem serviços de apostas desportivas que poderiam eventualmente servir para potenciar e melhorar o nosso despor­to. Sabemos que, do ponto de vista competitivo, o nosso campeonato é muito desequilibrado. É um campe­onato macrocéfalo, tens três equipas neste momento, o Libolo, 1º de Agosto e Petro de Luanda, em condições de lutar pelo título. Os outros não repre­sentam quase nada. Mesmo o Inter de Angola que, do ponto de vista fi­nanceiro ,é muito saudável, ainda não conseguiu chegar lá. Particularmente, ainda não consegui perceber quais são as razões, porque com os recursos que tem poderia fazer um bocado mais em termos do basquetebol masculino.

Investe-me muito nos jogadores. Fala-se em contratos chorudos. O que sabe disso?

Há jogadores que ganham muito bem. Mas a maior parte dos jogadores ganha muito mal.

Quais são as informações que tem?

Não tenho informações porque ninguém passa aqui. Infeliz ou infe­lizmente, o nosso sistema financeiro ou desportivo não obriga as entidades desportivas a fazerem declarações de contratos. O que vão pagar ou como vão pagar? Nem sei se os jogadores pagam imposto. Aliás, o que sei é que, durante muitos anos, não pagavam imposto. Há pessoas que tinham um salário e nem sequer foram registadas na segurança social. Não conheço bem os números, mas por aquilo que oiço, de forma oficiosa, os jogadores de topo ganham muito bem.

Falou-se que os contratos de Olím­pio Cipriano e Carlos Morais terão sido elevados. Sabe disso?

Não sei. Não tenho os elementos.

Eles valem, por exemplo, quase um milhão de dólares?

Estamos num país em que, durante muito tempo, as coisas tinham mais valor monetário do que de uso. Num país em que você alugava um apar­tamento no centro da cidade a 10 mil dólares, quando na verdade não valia aquilo, é normal que isso aconteça. Mas eles são jogadores de topo e de se­lecção que eventualmente poderiam ir a clubes medianos das ligas espanho­las ou a grega, e iriam ganhar a mesma coisa. Portanto, acho que a qualidade é para ser devidamente recompensada, desde que quem paga isso não deixe de ter um centro de treinamento em condições. Porque não vale a pena pagar um milhão a um jogador e não tens um centro de treino em condições ou um pavilhão. Quando para fazer os seus jogos em casa pagas um outro recinto. Acho que os bons jogadores devem ser bem pagos, isso é inques­tionável, mas também é verdade que para se chegar até estes extremos é preciso que os clubes que fazem estes pagamentos tenham estruturas e infraestruturas em condições. Que possam dar resposta, por exemplo, para a formação e que, no futuro não muito distante, em vez de pagar estes milhões, ter gente que saia da formação. Mas, para ter este resultado da formação é preciso ter infraes­truturas adequadas e ao desporto de alto rendimento. O que infelizmente muitos clubes aqui não têm apesar de os orçamentos dos clubes de Angola serem razoavelmente bons por aqui que ouvi em diversas ocasiões.

Não é contraproducente as equipas ganharem um valor no campeonato muito inferior àquilo que investem?

girabolaNão é. Normalmente é assim que as coisas acontecem. Eles não recebem o dinheiro da Federação Angolana de Basquetebol, mas sim do patrocina­dor do campeonato. Por exemplo, a Liga dos Campeões ou Euroliga de basquetebol, qualquer Real Madrid, Barcelona ou Galatasaray investe muito mais do que aquilo que a FIBA Europa depois dá. Parte-se do prin­cípio de que os clubes depois vão po­tenciar o seu desempenho desportivo com potencial para buscarem outras valências. Dinheiro na publicidade e noutros tipos de acções, merchan­dasing. Agora é o que temos de fazer aqui para termos um campeonato equilibrado, como já tivemos noutras circunstâncias ou contexto. Em 1982 tivemos um campeonato muito mais equilibrado do que temos hoje. Chegavas à fase final com quatros equipas, mas todas extremamente equilibradas, porque o momento era diferente e havia outro tipo de políticas. Lembro-me de que houve uma época em que, para os grandes clubes não engolirem os pequenos talentos dos clubes mais frágeis, não estavam permitidas transferências de um jogador para outro clube. Isso criou equilíbrios muito grandes, o que levou com que o Sporting de Luanda, que eram chamados de Leões de Luanda, vencesse o campeonato em 1982 e 1984. É óbvio que hoje o contexto é diferente e não se pode cercear o direito de o jogador escolher o clube em que quer jogar. Mas temos que procurar formas de equilibrar um bocado mais a competição.

Como é que seria?

Isso não me compete. Há pessoas na federação que foram eleitas e ganham dinheiro para tratar disso. Eu não tenho salários para tratar. Não é um assunto que me compete tratar.

Mas tens algumas ideias?

Tenho ideias, mas não vou aflorá-las aqui. Não sou pago para isso. Quem é pago para isso está aí e não está a buscar não sei por que razão. Vou-lhe dar um exemplo: veja o caso da NBA. Quando há o draft normalmente as primeiras escolhas são para os clubes mais fracos, de modo a potenciá-los e garantir algum equilíbrio competitivo.

Como são feitas as coisas aqui?

Aqui não sei. Se calhar têm que bus­car mais patrocínios e recursos finan­ceiros para tentar encontrar pontos de equilíbrio na competição. É muito desequilibrada a nossa competição. Vê, por exemplo, a tabela classificativa é macrocéfala, tens três lá em cima que ganham todos os anos e já houve tempos em que só ganhavam dois. Não estou a ver num futuro próximo que tenhamos uma quarta equipa a lutar para o título.

A tendência é os mais fortes levarem os atletas dos clubes mais fracos depois destes os formarem. Como se pode travar isso ou causar menos prejuízos aos clubes formadores?

Isso é elementar e, em todo o mundo, se faz isso. Você tem um jogador que é talentoso, assina um acordo com ele, digamos assim altíssimo, de modo a inibir que venha um sujeito com 50 mil dólares e leva-te o jogador. Isso existe há muito tempo e não sei porque é que os clubes de menor di­mensão não fazem isso. Provavelmen­te, se o fizerem vão ter que arcar com outras despesas para que seguramente não terão condições. Mas essa é a lei natural do movimento desportivo. Os melhores jogadores são sempre puxados para as equipas com mais recursos financeiros. Não tens como evitar isso, por mais que estrebuches e tentes segurá-los, não consegues.

Porque é que o campeonato feminino resume-se mais a Luanda?

Isso aí é um bocado mais compli­cado, talvez por razões sociológicas e por aí adiante. Tanto quanto sei já se está a fazer um trabalho em Benguela, onde o Sporting é dos clubes que mais trabalha na formação, tanto em mas­culino como em feminino. Deveria merecer um pouco mais de atenção das forças vivas da própria província de Benguela. Sei que o Benfica do Lu­bango também tem estado a trabalhar muito, e não sei se saberão, mas nas últimas selecções femininas dos esca­lões de formação têm aparecido muita gente de meios desportivos que não apenas Luanda. Parece-me que maio­ritariamente são unidades que vêm do Lubango, Huíla, e essencialmente Benguela. É o tal problema: feminino fica muito difícil porque depois as mo­ças acabam desposando, casam-se e depois para voltar à competição já fica um bocado complicado. Umas voltas e outras não. Então, isso é um proble­ma que não sei se a nossa geração vai conseguir ultrapassar.

Qual tem sido o contributo das uni­versidades no meio disto?

Eu acho que tudo isso deveria carecer de legislação. Neste sentido, tenho um carinho muito especial pela figura do Dr. Rui Mingas. Neste sentido, ele conseguiu criar um clube dentro da sua universidade. Em regra, as universidades e isso é um bocado o objecto delas, buscam o lucro. Nisto muitas nem investem. Se reparar há muitas que nem sequer têm instala­ções desportivas ou não têm ligação nenhuma com o desporto. Isso pode ter um bocadinho a ver com a letargia da nossa federação nacional dos des­portos universitários, porque deveria haver competições universitárias mais regulares de modo a se criar um pouco também este espírito do desporto na academia. Uma coisa que já existiu. Temos por exemplo o caso dos Estados Unidos em que a base do desporto americano é a universidade. O susten­to do desporto de alta competição ou de alto rendimento nos Estados Unidos é a universidade.

E qual é a base do desporto angolano?

Não temos base nenhuma.

Já não vem nada dos bairros?

Hoje, no bairro já não há nada. Conheces mais algum clube de bairro tirando o Progresso do Sambizanga, que já não é bem do bairro? Antes havia muito clubes de bairro. Hoje também já não há porque os próprios espaços onde podiam praticar o tal desporto recreativo também foram eliminados. Isso também tem a ver um pouco com a dinâmica de cresci­mento da própria cidade.

Acompanhou os play-off do campe­onato sénior masculino de basque­tebol?

Sim. Vi alguns jogos e sei que houve muitas queixas em relação a arbitra­gem. Particularmente constatei que em alguns desafios a arbitragem errou muito, mas os árbitros estão sujeitos a isso.

O vice-presidente do 1º de Agos­to chegou mesmo a suspeitar da existência de corrupção e se possível ‘importar-se’ árbitros estrangeiros para ajuizarem no nosso campeona­to. O que pensa disso?

Importar não resolve. A cor­rupção existe desde que o homem é homem e há-de existir sempre. Numa sociedade em maior escala e noutras em menos.

E no desporto angolano?

É óbvio que existe. Então porque é que não há-de existir no desporto se existe noutras esferas da socie­dade? Isso existe em todo o lado do mundo. Por exemplo, a FIFA como organismo era supra sumo e de gente muito séria. O que é que se descobriu agora? Que há corrupção. Estamos a falar de gente que tem estatuto financeiro muito melhor do que muita gente que está aqui. Não vale a pena tapar o sol com a peneira, aqui existe sim.

É tão natural a ponto do presidente do Progresso do Sambizanga, de que és sócio, diga que o campo tem estado inclinado a favor dos seus adversários?

É verdade. O que eu sei é que há clubes que pagam. E eu sei que há um grupo de quatro clubes no fute­bol que não paga.

Quais são os clubes que não pagam?

Isso não digo.

E os clubes que pagam?

Também não digo. Há pessoas que têm a obrigação de tratar desse as­sunto. Há uns cinco anos, se não es­tou em erro, antes do início da época de futebol, houve uma assembleia ou reunião em que um clube sugeriu que os árbitros fossem monitorados e que houvesse mais controlo nisso. Simplesmente não se fez nada. Acho que não há vontade política aqui de resolver esse assunto.

Porquê?

Não sei. Mas acho que não há von­tade política. É verdade que não vais acabar com a corrupção, mas tem condição, se fizeres um esforço mui­to grande, diminuíres ao máximo ou minimizares ao máximo os efeitos.

O que pensou das declarações de Horácio Mosquito?

Acho que não faz sentido suspen­derem o senhor por esta razão. Nú­mero um: ninguém sabe se as decla­rações correspondem à verdade ou não. O mais sensato seria levantar-se um inquérito e tentar apurar-se a veracidade dos factos. Agora não vão me dizer que não há corrupção. Que há corrupção todo o mundo sabe. Há alguns anos, o Sagrada Esperança perdeu um campeonato em casa, em que o árbitro teve de sair escoltado pela polícia dentro de um carro de assalto, um blindado. Sendo assim, há aquelas situações em que se percebe que o árbitro equivocou-se e outras em que quem anda nisso há muito tempo percebe não foi só um equívoco normal.

Ainda se lembra do jogo em que uma equipa que precisava de ganhar para ascender ao girabola venceu por mais de 20 bolas o seu adversário?

Lembro-me. Já foi há alguns anos. E isso não deveria ter sido inves­tigado? E a própria nossa justiça deveria envolver-se um pouco mais. Devem estar a pensar que isso é um problema do futebol ou do basquetebol, mas não. Quem levantou o problema da FIFA até foram as autoridades norte-ameri­canas. Porque perceberam que faz sentido moralizar e credibilizar. Eu acho que é um bocado por isso que os nossos estádios andam um bocado vazio, porque muita gente não acredita nisso. Se o futebol fosse credibilizado, se houvesse seriedade e não houvesse campo inclinado, a situação seria outra.

O presidente do Kabuscorp disse que a batota existe no futebol. O que acha?

Risos.

Bento Kangamba pensa que uma coisa é batota e outra é corrupção?

Então a corrupção e a batota não é a mesma coisa.

Eu não sei. O jornalista Silva Can­dembo é desta opinião?

Quem batota está a viciar o jogo. Quem corrompe também está a viciar o jogo. Qual é a diferença que há nisso? O que eu acredito é que ele quisesse dizer que uma coisa é o equívoco de um árbitro e outra é um árbitro que é pago para falsear um resultado. Eu acredito que o espírito do discurso dele era esse.

Silva CandemboParticipou do encontro nacional sobre o futebol?

Não.

Não gostaria de participar?

Não.

O que sabe do que ocorreu?

Não sei nada porque até agora não vazou nada para aqui. Normalmente, este tipo de situações ou produzem um documento final, que é colocado na internet, ao qual as pessoas têm acesso, mas não vi nada.

O empresário Artur de Almeida disse que nem sequer se tocou na situação levantada por Horácio Mosquito. Quer opinar?

É um dos grandes problemas do nosso futebol, a qualidade. Um dos problemas candentes do nosso futebol que não devíamos ter medo de abordar. O que ‘estamos’ a fazer, ou a sociedade desportiva, é colocar a cabeça na areia como a avestruz. É um problema para encararmos de frente e procurarmos debater. Não vamos resolver nada se fugirmos à realidade. Antes pelo contrário, só vamos piorar. Vamos ter os campos cada vez mais vazios, porque o indivíduo já sabe que o clube X ou Y tem poder e vai ganhar o jogo.

Disse há pouco que não poderia expor as suas ideias em relação ao basque­tebol. O que acha que deve mudar no futebol?

O dirigismo desportivo. O principal mal do nosso desporto de um modo geral. Acho que, em termos técnicos, não estamos num patamar muito elevado, mas num nível razoável. No andebol temos um nível muito bom. No basquetebol também bom e o fu­tebol por aí razoavelmente bom. Mas acho que o dirigismo desportivo não acompanha essa evolução. Para mim, o dirigismo desportivo enferma de problemas muito sérios. Eu costumo dar um exemplo para esta situação: quando um dirigente ganha mais que as estrelas que fazem os espectáculos é porque alguma coisa não está bem.

Onde é que isso acontece?

Isso acontece aqui em Angola. Em alguns clubes, federações.

O que acha das constantes chicotadas psicológicas que se dão no girabola?

Isso é natural. As pessoas buscam resultados imediatos. Em todo o fute­bol, mais ou menos como o nosso, isso acontece com muita frequência. As pessoas vêem o imediato e não o futu­ro. O futebol brasileiro, por exemplo, é a mesma coisa: sete jornadas e sete treinadores afastados. Veja a Inglater­ra. É uma questão que também tem a ver com os valores culturais e a forma como as pessoas encaram o desporto. Na Inglaterra isso não acontece porque tem a ver com a cultura desportiva de­les e a forma como encaram as coisas. No nosso caso todo o mundo busca resultado imediatos, ninguém está a pensar no futuro.

Ainda pára ao fim-de-semana para assistir a um jogo do girabola?

Quando estou distraído sim. Mas é assim: hoje a oferta é tão grande nos canais de televisão que temos e é mui­to difícil um indivíduo parar para ver um jogo do girabola. Por uma razão muito simples: acima de tudo sou um consumidor. Eu, enquanto especta­dor de futebol, sou um consumidor. E o consumidor quer qualidade. Meu amigo, se poderes comer uma baguete francesa enquanto consumidor, hás-de preferir a baguete francesa ao pão burro. O consumidor quer qualidade e no desporto é a mesma coisa. Eu gosto de qualidade vou ver a liga inglesa ou espanhola.

Mas a diferença entre o nosso girabola e os outros é assim tão grande que nem uma baguete francesa e um pão burro?

Então não é muito grande? A dife­rença é abissal. Há um jogo ou outro. Há aí uns clássicos ou dérbis razoa­velmente bons. Mas, na maior parte dos casos, os nossos jogos são pobres do ponto de vista táctico e técnico. Se tenho a possibilidade de ver um outro jogo, acho que as pessoas têm que ver na perspectiva de um consumidor. Por razões afectivas ou sentimentais há clubes que eu acompanho.

O Progresso do Sambizanga?

Sim. E todo o mundo sabe porque isso é público. Por razões afectivas acompanho, mas não vou deixar de acompanhar um Valência-Real ou outro para ver um jogo do girabola.

Há estrelas no Girabola?

À nossa dimensão, no nosso micro­cosmos há. O Gelson, que tem sido das figuras mais mediáticas. Há algumas, mas são apenas deste nosso micro­cosmos.

O que pensa do facto de as equipas tradicionais terem perdido terreno para outras como o Kabuscorp e Libolo?

Eu sei quais são as razões. Isso seria motivo até de uma tese. Por exemplo, estes jovens estudantes das faculdades de motricidade humana ou de sociolo­gia poderiam fazer uma boa tese.

Com alguma polémica?

É óbvio que com polémica. Mas o grande problema é que para se fazer determinadas abordagens é preciso haver muitos elementos, que em condições normais não vão aparecer. Como disse há bocado, temos muitos problemas aqui e um dos problemas maiores é o dirigismo desportivo. Não acredito que estes tradicionais, o Petro e o 1º de Agosto, sejam inferiores aos seus rivais que agora assumem a pri­mazia e a liderança do nosso futebol. Não acredito que sejam. Eventual­mente, numa ou outra circunstância, terá havido más decisões que ditaram, por exemplo, a perda de um título ou o insucesso numa determinada tem­porada. O problema é muito mais do que esse. Há muito mais por debaixo do tapete.

Quer dizer que não há transparência no nosso desporto?

Um desporto onde há batota há transparência? Onde dizem que há batota não pode ter transparência. Ninguém pode assumir a batota como sendo normal. Eu acho que houve aqui um equívoco, ele quis falar em enganos e erros da arbitragem que são normais.

Como é que está a selecção nacional?

Fico com alguma tristeza quando falo disso. Tivemos num deter­minado período da nossa história recente condições para de uma vez por todas sermos muito mais do que apenas medianos ou medíocres, como temos sido. Não conseguimos a classificação para o último CAN num grupo em que do ponto de vista teórico poderíamos ter feito alguma coisa mais. Acho que perdemos a oportunidade maior de ter um fute­bol competitivo e um pouco maior. Acho que depois do Mundial de 2006, era o momento de darmos um salto qualitativo. O que foi que acon­teceu? Continuamos na mesmice e na mediocridade de sempre. Quando a selecção tivesse de jogar pegavam em adversários pequenos e sem expressão absolutamente nenhuma. Se virmos a selecção de Angola hoje e a do Gabão, a selecção do Gabão é superior. Há 30 anos, a selecção do Gabão levava quatro ou mais. Sempre que cruzava com Angola estava eliminado, mas hoje a realidade é diferente.

Não será que o Gabão terá investido mais?

No nosso futebol entra muito dinheiro. Para aquilo que é a nossa realidade, no nosso futebol entra muito dinheiro. Só que esse dinheiro não serve todo ele o futebol.

Os erros que a FAF cometeu, por altura do apuramento do CAN-2015, em não ter tratado da situação de alguns atletas, são perdoáveis?

Isso é imperdoável. As pessoas estão lá, trabalham e são pagas para isso. O mais grave é que não houve ninguém que tenha sido castigado ou chamado à pedra por causa disto. Eles que não pensem que o dinheiro que a FAF usa é apenas da FAF. A maior parte deste dinheiro é público e é dos contribuintes. Eles têm necessidade de nos dar satisfação sobre isso.

Joaquim Dinis disse, recentemente, que se Oliveira Gonçalves estivesse no comando do CAN 2010, Angola teria sido campeã. Quer comentar?

Eu não digo campeões, mas havia possibilidade de termos uma classifi­cação muito melhor. Eu tenho quase a certeza que teríamos uma posição melhor. A que tivemos, em termos comparativos, foi pior que a de 2008 no Ghana. Apesar de termos chegado aos quartos- de-final, mas foi pior e jogámos em casa. A selecção de An­gola foi das que fez pior classificação entre as anfitriãs. Em minha opinião, Oliveira só sai porque as pessoas aqui misturam relações pessoais com as de trabalho. Veio um outro treinador que até conhecia o futebol africano, mas precisa de um tempo de adaptação. Foi um treinador que impôs um sistema mas que, em minha opinião, deveria trabalhar com o sistema com o qual os jogadores estavam habituados. Tinha muito pouco tempo para fazer vingar a filosofia de jogo dele.

O que pensa do desempenho do general Pedro Neto enquanto pre­sidente da Federação Angolana de Futebol?

Para mim, muito sinceramente, é medíocre. Poderia ter feito mais. O desempenho é tão medíocre que An­gola não conseguiu qualificação para o CAN 2015 e saiu do G 12 das afrotaças, ficando apenas com duas represen­tantes, em vez de quatro.

Escreveu a ‘Breve História de Angola nos Afrobasket de 1980-2005’. Pensa continuar?

Tenho muita coisa escrita. Provavel­mente este ano vou lançar o primeiro volume da História do Basquetebol em Angola. Tenho escritas mais de 700 páginas, que é de um período que vai de 1930 no primeiro jogo, até 1975 no primeiro campeonato disputado antes da Angola independente. Depois disso, tenho também quase em fase de con­clusão um livro sobre a ‘História da São Silvestre – 1954 até à última edição’. Provavelmente, se não lançar este ano vou incluir a edição de 2015. E tenho em execução uma outra obra sobre o basquetebol, que tem a ver com as principais figuras do basquetebol desde 1960, altura em que começaram as competições oficiais, até aos dias de hoje. Portanto, está a dar para escrever algumas coisas. É preciso que as próxi­mas gerações saibam e entendam um bocado da génese do nosso desporto. Lá mais adiante, se tiver um bocado de saúde, vou continuar a trabalhar nesta perspectiva.

O que pensa do jornalismo des­portivo e do leque de analistas que existem?

São os tempos modernos. Fazemos aquilo que é feito noutros países, ape­sar de que a qualidade baixou muito. Isso também é reflexo do desenvol­vimento da nossa própria sociedade. Se você não tem escolas boas, ensino de excelência, não vai ter profissionais de excelência. Se o nosso ensino fosse bom e tivéssemos escolas excelen­tes, provavelmente muitos cidadãos não teriam mandado os filhos para estudar na Namíbia, África do Sul, Zimbabué e por aí adiante. A tal ponto que não vês ninguém a mandar o seu filho para vir estudar em Angola. Se não está bom isso vai-se reflectir na formação dos jornalistas e de quase todos os profissionais. Não é sem razão que um diploma de uma instituição estrangeira conta mais que o de uma universidade angolana. (opais.ao)

Por: Dani Costa e Sebastião Félix

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