Quando a incerteza é a única certeza

(Expansao)
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Na actual conjuntura económica internacional, todos os caminhos vão dar a Pequim.

Que a economia chinesa está em abrandamento é um facto que não só não surpreende como até era desejado por (quase) todos. Sobre o que vem a seguir é que ninguém se entende. A dúvida é se a segunda maior economia do mundo terá uma aterragem brusca ou suave.

Em meia dúzia de anos, os BRICS, acrónimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passaram de bestiais a bestas. Na sequência da crise financeira de 2008, os BRICS foram apresentados como os salvadores da economia mundial, face à letargia em que se encontravam as principais economias.

A crise teve epicentro nos EUA, mas rapidamente atravessou o Atlântico, contagiando a Europa, e chegou ao Pacífico, nomeadamente ao Japão. Volvidos pouco mais de seis anos, com algumas feridas da crise de 2008 ainda por sarar, os mesmos BRICS são apontados como os principais culpados da degradação da situação económica mundial. Em termos de dinâmica de crescimento, só Índia e África do Sul, as duas economias mais pequenas do quinteto, se salvam.

O crescimento indiano vai acelerar 0,3 pontos percentuais (pp), para 7,5%, e o sul-africano, 0,5 pp, para 2%. As duas primeiras letras do acrónimo, Brasil e Rússia, registarão recessões este ano com recuos de 1% e 3,8% dos respectivos PIB (produto interno bruto). A China vai desacelerar de um crescimento de 7,4% no passado para 6,8% este ano.

Apesar do (ainda?) apreciável crescimento que vai registar este ano – praticamente o dobro da média das previsões para Angola – é na China que todos os olhos estão postos. O índice Shanghai Stock Exchange (SSE) Composite perdeu 12% em Agosto, depois de ter perdido 14% em Julho.

O crash chinês contagiou outras praças em especial emergentes, mas não só. De acordo com a Bloomberg, no mês passado a capitalização dos 31 maiores mercados emergentes recuou 2 biliões USD, para 14 biliões USD, contra 23,1 biliões do mercado norte-americano, que também perdeu 2 biliões USD, mas em apenas seis sessões de Agosto.

A desaceleração da segunda maior economia do mundo não só constitui surpresa como era esperada e até desejada. “A economia chinesa está em transição para um novo padrão, com crescimento mais lento mas também mais saudável e sustentável”, resume o Fundo Monetário Internacional (FMI) no comunicado de imprensa datado de 14 de Agosto que anuncia a conclusão das consultas com o governo de Pequim no âmbito do artigo iv dos estatutos da organização.

Depois de ter caído para 7,4% no ano passado, o crescimento chinês deverá desacelerar de novo este ano, para 6,8%, de acordo com as projecções da instituição. O “novo padrão” deverá situar- se “bem abaixo” dos 7%, prevê, por seu turno, a agência de notação Fitch numa nota que classifica como “exagerado” o pessimismo sobre as perspectivas macroeconómicas de curto prazo do gigante asiático.

Os indicadores da oferta e procura não apontam para uma desaceleração da economia “rápida, desordenada e generalizada”, consideram os analistas da Fitch. Se é verdade que os dados sobre exportações, investimento e indústria foram “fracos”, não é menos certo que os indicadores de consumo e mercado de trabalho continuam “robustos”, exemplificam.

Abrandamento é para durar

Para a agência de rating, a evolução da economia chinesa está em linha com as políticas visando a transição “deliberada” de um crescimento baseado no investimento e nas exportações para um crescimento baseado no consumo interno.

O abrandamento está a ser “liderado” pela indústria e pela construção como é desejo do governo central, reforça. As perspectivas da Fitch apontam para um “longo período” de menor crescimento “bem abaixo” dos referidos 7%.

“A enorme dívida acumulada após a crise financeira de 2008 e o sobreinvestimento no imobiliário residencial têm de ser enfrentados, o que exercerá algum travão na economia durante vários anos”, justificam os analistas da agência. “O investimento baseado no crédito após a crise financeira criou uma série de vulnerabilidades”, concorda o FMI. “O desafio do governo é corrigir essas vulnerabilidades, evitando um abrandamento excessivo da economia, e avançar com as reformas estruturais”, considera a instituição.

“Desde a crise financeira internacional o crescimento baseou-se num mix insustentável de crédito e investimento, o que conduziu ao aumento do endividamento governamental e empresarial, ma financeiro e à redução da eficiência do investimento”, reforça o Fundo. “Transitar para um modelo menos arriscado e mais sustentável requer reverter as tendências recentes. Mas fazê-lo vai reduzir a procura e inevitavelmente o crescimento no curto prazo”, alerta, acrescentando que “gerir o abrandamento é o principal desafio”.

Em matéria de redução das vulnerabilidades, os responsáveis do FMI apresentam três sugestões concretas: cortes adicionais no investimento imobiliário, plano plurianual de redução do endividamento e consolidação orçamental de médio prazo. “Caminhar muito devagar significa que as vulnerabilidades vão aumentar, enquanto caminhar demasiado rápido aumenta os riscos de um ajustamento desordenado. A chave são as reformas estruturais para aumentar o crescimento potencial”, garante o FMI.

Nesta capítulo as recomendações de Washington vão no sentido da adopção “de um sistema financeiro e uma política monetária mais baseados no mercado, incluindo a liberalização das taxas de juro e taxas de câmbio efectivamente flutuantes, reforma das empresas públicas e reforço do quadro orçamental, nomeadamente ao nível das relações entre os governos central e locais segurança social e impostos”.

Saberão os cozinheiros da política económica chinesa usar os ingredientes sugeridos pelo FMI na dose certa. As vendas maciças de acções sugerem que os mercados ou pelo menos uma parte deles desconfia do savoir faire de Pequim. Entre os mais pessimistas está Clare Howarth, da Oxford Economics.

Hard landing…

“Há já algum tempo que estamos abaixo do consenso do mercado sobre a China. Entretanto, a probabilidade de materialização do cenário pessimista aumentou consideravelmente, e este é já quase o nosso cenário base”, afirma a chefe do departamento Ásia-Pacífico da consultora especializada em economia internacional ligada à universidade britânica com o mesmo nome citada pelo canal de televisão CNBC.

“Isso significa um crescimento da economia chinesa perto dos 4% nos próximos cinco anos em vez da previsão base de 5,8%”, precisa Clare.

A Oxford Economics diz que há sinais claros de um forte abrandamento na China, com quebras nas vendas de bens de consumo, nomeadamente automóveis e smartphones, bem como maus dados ao nível do comércio e da produção industrial.

“As autoridades estão a responder mas até agora não anunciaram um pacote de estímulos à economia semelhante ao da crise de 2008. Se a China não for capaz de prevenir o abrandamento rápido da sua economia, as consequências serão sentidas em todo o mundo”, alerta a economista.

O pessimismo de Clare encontra eco em outra prestigiada universidade, mas localizada do outro lado do Atlântico, mais precisamente em Harvard, nos Estados Unidos. “Definitivamente estamos em presença de um abrandamento. Existem definitivamente muito mais chances de acontecer o pior, ou seja, de termos uma aterragem forçada”, considera o economista Ken Rogoff, da Universidade de Harvard, também ouvido pela CNBC, embora reconheça que “é difícil dizer até que ponto a economia chinesa está doente, devido à falta de transparência”.

“A China acumulou biliões de dólares em reservas, julgo que para resgatar o país de uma eventual crise, mas não é certo que tenha flexibilidade suficiente para dar esse passo”, afirma o especialista em crises financeiras que previu a crise da dívida da zona euro.

… Ou soft landing?

A tese de hard landing da economia chinesa não é subscrita por todos. Longe disso. “A economia chinesa está a abrandar mas não estamos em presença de uma crise ou de hard landing”, garante Brendan Ahern, chefe de investimento da KraneShares, gestora de fundos de índices, citado pelo site MarketWatch da Dow Jones. Torsten Slok, economista-chefe do Deutsche Bank, assina por baixo: “Em meados dos anos 90 trabalhei no departamento Ásia Pacífico do FMI, na divisão que fazia a cobertura da China, e participei em longos debates sobre as estatísticas chinesas. Quando vi os últimos números sobre o consumo de electricidade, não detectei nenhum sinal de que a economia chinesa está em hard landing”.

Jon Carnes, gestor da Eos Funds, vai mais longe ao declarar que o hard landing chinês é impossível: “O governo chinês vai estimular a economia independentemente dos custos e imprimirá o dinheiro que for necessário para manter os seus bancos a funcionar.” No final de Julho, o Banco Popular da China cortou as taxas de juro em 2,5 pontos percentuais (pp) e a taxa de reservas obrigatórias (TRO) em 5 pp, passando a mensagem de que tem “flexibilidade” para apoiar a economia num quadro de abrandamento económico e baixa inflação.

“Ainda assim, o impacto desta medida poderá ter sido mitigado pela saída de capitais”, considera a Fitch. Com a taxa de referência de liquidez nos 4,6% e a TRO para os grandes bancos nos 18%, existe margem de manobra para novos alívios da política monetária, defende a agência de rating. Além disso, a desvalorização do yuan em pouco menos de 5% desde 10 de Agosto também foi modesta, tendo em conta que a moeda chinesa valorizou-se mais de 20% em termos reais desde 2012, acrescenta a referida nota da Fitch.

A margem de manobra de Pequim não se esgota na política cambial. Do lado orçamental, depois de restrições ao financiamento dos governos locais no primeiro semestre, o governo chinês está a reverter em parte a situação, prevendo-se que os efeitos na procura interna se façam sentir nos próximos meses, considera a agência.

E como fica Angola?

Face às relações estreitas com a maioria dos BRICS, Angola corre mais riscos do que outros países? Foi a pergunta que o Expansão fez a Salim Valimamade, entrevista deste destaque. “Para todos os países exportadores de petróleo, existe o risco de se ter um impacto negativo quando os importadores de petróleo, tais como a China e a Índia, começam a diminuir a sua procura e, eventualmente, produzir eles mesmos o petróleo, ou mesmo ter uma outra alternativa em termos de fonte energética”, analisa o professor universitário.

“Desse modo, é recomendável que os países produtores petróleo, incluindo Angola, encontrem novos modelos económicos que permitam que a sua economia tenham outros sectores económicos mais fortes e competitivos. Ou seja, é premente diversificar a economia para outros sectores que possam ser competitivos.”

“No caso particular de Angola, tendo grandes potencialidades noutros sectores, especialmente, na agricultura, poderá aproveitar estes mercados dos BRICS para exportar os seus produtos”, conclui. (Expansão)

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