Portas foi ver os aviões com Maria Luís e até Sócrates apareceu

(D.R)

No primeiro dia útil desde que começou o período oficial de campanha, Portas programou uma ação sem Passos Coelho no distrito da ministra que provocou a sua demissão irrevogável. E de quem agora é cúmplice.

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Passos e Portas têm dispensado os sms, pois andam sempre juntos. Mas no primeiro dia útil de campanha (desde a data oficial), Paulo Portas quis marcar posição e agendou uma ação sem o parceiro de coligação. Não escolheu uma feira, mas a visita a uma fábrica em Setúbal e fez questão de demonstrar que não há cisões na maioria.

Sem Passos por perto, Portas recusou encenar um one-man show e chamou sempre para junto de si a cabeça de lista do distrito, Maria Luís Albuquerque. Cúmplices, Portas e a ministra das Finanças já colecionavam sorrisinhos ainda mal a manhã tinha começado, mostrando que a causa da demissão irrevogável se desvaneceu. É tempo de novos voos e, para isso, nada melhor do que uma empresa de peças aeronáuticas: a Lauak Portuguesa.

Logo à porta da sala de reuniões da empresa, destacava-se uma foto do ex-primeiro-ministro José Sócrates, do antigo ministro da Economia Manuel Pinho e do ex-primeiro-ministro francês François Fillon. O assessor Miguel Guedes apontou para o retrato como que a alertar o líder centrista, mas o nome do socialista passou a ser aquele-que-não–se-pode-pronunciar na coligação e, por isso, Portas procurou uma saída airosa: “François Fillon, hã?” Maria Luís esboçou um sorriso envergonhado.

Antes de o diretor-geral da Lauak, Armando Gomes, começar a apresentação, Portas ainda fazia o balanço do dia anterior. “Muito giro o jantar de ontem”, clássico Porto-Benfica. O diretor de campanha da coligação, Matos Rosa, retorquiu: “Estavam todos satisfeitos: era tudo sportinguistas.” Portas era um deles.

Maior entusiasmo do que com as cores clubísticas, só mesmo com as cores partidárias. Quando Armando Gomes fazia a sua apresentação apontou para uma série de post-its coloridos na parede e lamentou: “O problema ali é que há muitos cor-de-rosa. Temos de acabar com os cor-de-rosa [referentes a atrasos].” Matos Rosa não perdoou: “Nunca falou tão bem, amigo.” Mais tarde, o secretário-geral do PSD voltaria a ser implacável com o cabeça de lista do CDS no distrito, Nuno Magalhães, durante a pausa para café: “Gosto muito de o ver a beber um sumo de laranja.”

Chalaças à parte, Portas foi interrompendo a apresentação do diretor-geral sempre que via uma barra maior em 2015. “O que significa?”, perguntava Portas. “Que estamos a crescer”, respondia o responsável da empresa. E era isso que o primeiro-ministro queria ouvir. Além, claro, de perguntas técnicas: “Quem ganha o saldo de encomendas, a Boeing ou a Airbus?”, questionou o governante.

Ao lado da ministra das Finanças, Portas seguiu pela fábrica a cumprimentar os operários, forçados a tirar as luvas para cumprimentar os políticos.

No final da visita, é tempo de tirar uma fotografia de recordação para que na parede não fique apenas a de Sócrates (e uma da Cavaco, que a Lauak também exibe). Os responsáveis da empresa tiveram até de tirar a gravata de uma forma apressada para não destoarem do vice-primeiro-ministro, que em campanha prefere o colarinho aberto.

Antes que alguém entendesse o episódio como uma apologia a Tsipras, Portas só demorou dez minutos a atacar o Syriza: “Portugal e Grécia têm situações diferentes. A Grécia está no terceiro resgate, Portugal só teve um; tem a troika, nós não; está em recessão e Portugal está a descolar para o crescimento.”

E se durante a visita procurou demonstrar o total entendimento com a ministra das Finanças, Portas apelou no fim a que o PS se junte para o “diálogo” com PSD e CDS. Isto, claro, aproveitando para voltar a criticar Costa sobre o chumbo anunciado do Orçamento. “Não faz sentido nenhum um partido político dizer eu voto contra o Orçamento [do Estado] sem sequer o conhecer.”

Portas acusou assim os socialistas de “sectarismo”, defendendo que “não faz sentido nenhum para o futuro do país dizer eu não me sento à mesa com aqueles senhores para discutir o futuro de algo que interessa a todas as gerações – aos atuais trabalhadores, que descontam, aos atuais pensionistas, que recebem, os futuros trabalhadores e aos futuros pensionistas”.

O centrista considera que a discussão sobre a Segurança Social “é demasiado importante para poder ser vítima do sectarismo”, repetindo o que Passos já tinha dito no debate com Costa: “Não faz nenhum sentido que, ganhe quem ganhar, as pessoas não estejam disponíveis para se sentar à mesa.”

E foi assim a primeira experiência de Portas sem Passos na campanha. Seguem-se mais cinco: três já programadas e uma por força das circunstâncias: vai substituir o cabeça de lista da coligação quando Passos Coelho for ao Conselho Europeu sobre refugiados amanhã.

Portas saiu da fábrica já perto do meio-dia para voltar para junto do seu novo gémeo: Passos Coelho, que o esperava em Beja. Mas deixava um “até já” a Maria Luís, lembrando: “Amanhã [hoje] regresso a este distrito fantástico.” (DN)

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