Mouraria: A casa de muitos moçambicanos de origem indiana em Lisboa

O bairro da Mouraria, em Lisboa (DW)
O bairro da Mouraria, em Lisboa (DW)
O bairro da Mouraria, em Lisboa (DW)

Moçambicanos de origem indiana e goesa chegaram à Mouraria, coração de Lisboa, nos anos 60 e 70, forçados pela guerra, e após a independência. A maioria é comerciante no pitoresco bairro da capital portuguesa.

O bairro da Mouraria, no coração de Lisboa, é um ponto de confluência de várias culturas. Segundo o Centro português de Estudos Geográficos, vivem aqui mais de 50 nacionalidades, entre as quais os moçambicanos de origem indiana e goesa.

Nita Amrutlal é natural de Moçambique. Vive em Portugal desde 1988.

“Havia guerra em Moçambique e, na altura, levavam também as raparigas para a tropa. Os meus pais não queriam. Por isso, mandaram-nos para a Índia. Ficámos lá a estudar durante 12 anos. Depois, voltámos para Moçambique, mas, vendo aquela situação, decidi vir para Portugal – o meu irmão estava aqui e eu sempre quis vir para aqui”, recorda.

Foi em Lisboa que Nita conheceu Kotecha Amrutlal há 28 anos. Após o casamento, iniciaram negócio como comerciantes, em busca de melhores condições de vida.

Nita conta que, no início, foram tempos difíceis. Mas, com o tempo, isso mudou. “Agora estamos estáveis. Graças a Deus e graças a Portugal”, afirma.

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Vocação para o comércio

O casal, com dois filhos nascidos portugueses, fez parte da primeira leva de comerciantes indianos que veio de Moçambique, depois da independência do país.

Muitos instalaram-se na Rua do Benformoso, então conhecida por rua dos indianos. Até hoje, Nita e Kotecha têm uma das suas lojas num centro comercial, no pitoresco bairro da Mouraria, na capital portuguesa, onde vendem produtos alimentares oriundos da Índia, igualmente importados da Inglaterra.

“A nossa loja é a primeira aqui na Mouraria. Em 20 anos, já abriram mais de 20 lojas na mesma zona”, conta Kotecha.

Na altura, diz Nita, foi uma opção acertada.

“Não havia muitas lojas desse nosso comércio. Agora já há muitas. Há muita concorrência.”

Nova geração

Khalid Aziz, 35 anos, também diz que tomou a opção certa ao deixar a Inglaterra para dar continuidade ao negócio da família, iniciado nos anos 80 pelo pai Aziz Aboo, natural de Moçambique, originário da Índia. Na altura, já havia aqui radicada uma pequena comunidade moçambicana.

“O meu pai juntou-se a esta comunidade. Começou a trabalhar num restaurante moçambicano. Mas como ele era também muito vivo e muito dado com as pessoas, diziam-lhe sempre: ‘Aziz, tens que abrir o teu próprio restaurante’. Houve esta oportunidade de abrir aqui o restaurante Cantinho do Aziz e fomos ficando”, revela o jovem.

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Nascido na Beira, Aziz Júnior veio para Portugal com os pais, praticamente com um ano de idade.

“Entretanto, já sabe, quando você é filho de comerciante, comerciante vai ser, provavelmente. E foi o que aconteceu comigo. Estudei, formei-me, mas sempre fiquei com a ideia de voltar aqui para o restaurante, porque foi aqui que cresci”, diz.

Número reduzido

Ligado à Associação Renovar a Mouraria, o historiador Pedro Santa Rita, geógrafo de formação e guia turístico há cerca de 10 anos, destaca o papel que os indianos de Moçambique tiveram na reabilitação e renovação da atividade comercial, devido à decadência do comércio tradicional português.

“Estes indianos de Moçambique, com origens ancestrais goesas, ainda existem, mas em pequeno número,” destaca Santa Rita.

“Houve uma integração plena desses indianos que vieram de Moçambique, não só através da nacionalidade, como cultural também. A essa integração seguiu-se uma certa ascensão social. Os filhos destes primeiros comerciantes, muitos deles provavelmente com estudos universitários, já não querem continuar o negócio dos pais”, explica.

Nacionalizados portugueses, Nita e o marido, assim como Aziz Júnior, não têm razões de queixa do bairro. Para aqui trouxeram os seus hábitos e costumes, e partilham a sua cultura com os portugueses. Neste espaço de acolhimento praticamente secular, Aziz Júnior diz sentir-se em casa.

“Temos muitos clientes que vêm cá e digo-lhes: para mim, o meu Moçambique é esta rua, é aqui a Mouraria. Conheço isto como a palma da minha mão”, conclui. (DW)

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