Moçambique: Povo moçambicano deve exigir explicações sobre persistente tensão política – Reitor Católico

BANDEIRA DE MOÇAMBIQUE (Foto: Angop)

Beira – O reitor da Universidade Católica de Moçambique (UCM), Alberto Ferreira, defendeu, em entrevista à Lusa, que os moçambicanos precisam reagir à instabilidade do país e exigir explicações aos principais atores sobre a persistente tensão política.

BANDEIRA DE MOÇAMBIQUE (Foto: Angop)
BANDEIRA DE MOÇAMBIQUE (Foto: Angop)

“Os moçambicanos não têm nenhuma ideia do que está a acontecer. E não há reacção por parte dos moçambicanos, para dizer, ‘por favor nós somos cidadãos deste país e vocês [Governo e Renamo] estão a discutir os problemas que têm a ver com as nossas vidas, digam-nos lá do que estão a falar e porque é que não se chega a nenhuma conclusão'”, disse Alberto Ferreira.

Considerando que o nível de cidadania e de conhecimento dos direitos é crucial, Alberto Ferreira acusou o Governo e a Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), principal partido da oposição, de negarem informação aos moçambicanos sobre o que está por trás das repetidas derrapagem do diálogo político e os avanços e recuos na aproximação entre as partes.

“Faltando isso, ficamos cá só à espera que se chegue ao consenso de que vale a pena resolver o problema de casa por meios pacíficos, ou então não vale a pena e vai eclodir de novo uma guerra civil”, observou Alberto Ferreira, insistindo que a reacção natural dos moçambicanos seria exigir explicações.

O reitor da UCM prefere não vaticinar o futuro de Moçambique, mas receia que a falta de aproximação das partes possa conduzir o país ao extremo, se uma das partes entender que não há mais espaço para diálogo e recorra às armas.

“Espero que haja um pouco de racionalidade daqueles que têm o poder na mão e os que têm o poder nas armas”, disse Alberto Ferreira, lembrando que “as guerras trazem luto e sofrimento a pessoas indefesas”.

O reitor disse que Moçambique experimentou vinte anos de paz, desde o fim do conflito civil, e depois mais um incidente de quase dois anos de guerra não declarada e agora o país vive “uma situação de tensão político-militar e não se sabe qual a situação real”.

Para Alberto Ferreira, a classe académica moçambicana precisa ser interventiva, “até de inventar vias para reconciliação e pacificação” do país, assinalando que a UCM tem vindo a trabalhar na promoção das liberdades individuais e desenvolvimento, além da consolidação da paz.

“Se as universidades não fazem isso, fica uma brecha, e depois os académicos tornam-se pessoas obsoletas, que só sabem fazer academia porque deram aulas e apresentaram um livro, mas na prática não contribuíram tanto para reconciliação”, precisou.

A UCM assinalou na segunda-feira 20 anos com uma conferência, na qual estiveram presentes o antigo presidente moçambicano, Joaquim Chissano, e o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, à semelhança do que aconteceu na sua fundação.

A universidade nasceu na Beira, segunda cidade moçambicana, três anos após o Acordo Geral de Paz, assinado em Roma a 04 de Outubro de 1992 por Chissano e Dhlakama, sob a mediação da organização católica Comunidade de Santo Egídio, e que terminou com 16 anos de guerra civil em Moçambique.

A UCM tem 20 mil e 680 alunos em nove faculdades e duas extensões, em sete províncias do país.

O reitor moçambicano disse que, com a redução das assimetrias no acesso ao ensino superior e a introdução de cursos que respondem às necessidades do país, a UCM pretende criar um cidadão mais activo na luta pela justiça e democracia, “olhando para o esforço de Moçambique em ascender a um patamar considerável de afirmação dos direitos essenciais”. (Angop)

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