Fineza Teta: Do sonho do pai, à afirmação no mundo das artes plásticas

"Quando falo em investimento, estou a referir-me ao facto de os empresários aproveitarem os benefícios da Lei do Mecenato. Sabemos que a partir do momento em que alguém dá mostras de que está a fazer algo para determinado segmento cultural tem a princípio alguns benefícios, consubstanciados na isenção de alguns impostos".
Fineza Teta: "Para quem cresceu no mundo artístico sabe que o Ensa-Arte é, digamos, a joia da coroa. Portanto, ganhar este concurso é a cereja em cima do bolo." (Foto: Lino Guimarães)
Fineza Teta: “Para quem cresceu no mundo artístico sabe que o Ensa-Arte é, digamos, a jóia da coroa. Portanto, ganhar este concurso é a cereja em cima do bolo.”
(Foto: Lino Guimarães)

 

A arte de pintar, desenhar, cortar e costurar vem desde pequena. Fineza Teta “Fisty” recorda, em entrevista à Angop, que o gosto pelas artes começa enquanto criança, por influência da mãe que era costureira.

Angop – Fineza Teta, quando e como começou a sua caminhada pelo mundo das artes?

Fineza Teta (FT): O dom nasceu comigo, mas a desenvoltura ocorreu na Escola de Artes Plásticas, onde conheci alguém que me apresentou ao mestre que tinha a sua oficina no ex-Jika que me ajudou a desenvolver as minhas tendências artísticas.

Angop – Sabe-se que a sua entrada no mundo das artes não contou, a princípio, com o apoio e abertura dos pais. Como conseguiu depois convencê-los de que era realmente a profissão escolhida. Ou seja, onde se sentia realmente bem?

FT: No princípio, foi um dilema daqueles, porque temos que reconhecer que as artes plásticas em África não têm grande projecção. O meu pai era enfermeiro e a minha mãe costureira. Portanto, cada um deles puxava a brasa para a sua sardinha. A tendência era para a moda, devido à influência da minha mãe.

Quando apareço com um dom artístico, digamos, deixou-lhes um pouco baralhados. Quando entrei no Puniv começo por fazer Ciências Biológicas, para a satisfação do meu pai, que viu aí a oportunidade de me levar a fazer medicina, apesar de em casa praticar com a mãe, que dizia que não tinha deixado de lado a minha veia artística.

Infelizmente para o meu pai, no final do curso, o meu irmão mais velho descobriu uma escola de artes, onde me matriculou como forma de me tornar profissional. Com o andar do tempo, fui marcando o meu espaço, a minha posição e definindo o caminho que pretendia seguir.

Os meus pais conheciam as artes. Tinham um amplo conhecimento do mundo artístico, mas só na vertente musical, porque tínhamos na família pessoas ligadas a este segmento. Artes plásticas eram um universo desconhecido para eles. Contei para esta batalha também com o apoio dos meus irmãos para convencê-los de que era o ideal para mim.

Angop – Quando pintou a primeira obra, o que fez com ela?

FT: Lembro-me vagamente de algumas. Duas ou três. A terceira está comigo, mas as duas primeiras ficaram no atelier do mestre. Mas a que eu considerei mesmo como a minha primeira obra, com o título “Casamento”, foi a que levei para participar no primeiro Ensa-Arte e com a qual ganhei uma menção honrosa. Esta obra infelizmente não está em minha posse, porque foi levada, a pedido do Ministério da Juventude e Desportos, a ser incluída numa colecção de exposição realizada em Portugal e já não voltou. Até hoje ninguém consegue me explicar o que aconteceu. Simplesmente a obra desapareceu.

Angop – Venceu preconceitos e os maus dizeres para concretizar o sonho. Foi a primeira mulher a vencer o Grande Prémio de pintura Ensa-Arte 2014. Sente-se já realizada profissionalmente?

FT: Realizada não, mas reconhecida. É um grande mérito. Para quem cresceu no mundo artístico sabe que o Ensa-Arte é, digamos, a joia da coroa. Portanto, ganhar este concurso é a cereja em cima do bolo. Participei no concurso não convencida de que ia ganhar, mas com o intuito de mostrar que tinha talento e veia criadora para lá estar.

Trabalhei com afinco e com amor e felizmente consegui atingir um objectivo que qualquer artista plástico persegue. O prémio significa maior credibilidade ao meu trabalho. Faz-me sentir que tenho valor e que posso dar passos mais largos ao longo da minha carreira. Acredito que servirá/serviu para acordar outras mulheres que têm talento e apostar na carreira artística, deixando de trás o receio que não está em condições de rivalizar com os homens no mundo das artes. Preconceitos, guerras, intrigas há muitas, mas acreditar que basta querer que vamos lá.

"Acredito que sou surrealista. Uso os dois mundos no meu trabalho diário. Gosto de pôr os pés em terra firme, mas também gosto de voar ou de partir para a imaginação em lugares vagos, mas sentada num bom lugar". (Foto: Lino Guimarães)
“Acredito que sou surrealista. Uso os dois mundos no meu trabalho diário. Gosto de pôr os pés em terra firme, mas também gosto de voar ou de partir para a imaginação em lugares vagos, mas sentada num bom lugar”.
(Foto: Lino Guimarães)

Angop – Acredita que a conquista deste prémio vai abrir mais portas?

FT: De certa forma sim, mas principalmente abrir portas para exposições. É realmente um trampolim para outros voos.

Angop – O que lhe veio à alma quando ouviu o seu nome a ser anunciado como vencedora do Ensa-Arte 2014?

FT: Uma grande emoção. Cheguei tarde na cerimónia e já não havia lugares. Portanto, tive que ficar por detrás dos jornalistas para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos. Depois de ver anunciado o prémio juventude e eu não estava lá fiquei desmoralizada. Disse dentro de mim mesma que não tinha sido desta vez.

Na altura do grande prémio, a organização anunciou o terceiro colocado e depois o segundo e nada da Fineza Teta. O meu estado de espírito foi mesmo abaixo. Para surpresa minha, passam depois uma imagem do meu quadro “Inquietações Culturais”, que é retirado logo de seguida devido a um problema técnico.

Fiquei na expectativa e tão logo é anunciado o meu nome como vencedora. Podem não acreditar que não consegui me pronunciar. Eu lá no fundo só gritava estou aqui, mas devido ao barulho ninguém ouvia.

Por fim, disse aos jornalistas que estavam a minha frente que necessitava de passar, porque tinha que receber o meu prémio. Foi uma grande emoção. Estava extremamente emocionada, porque não contava sair do Centro Cultural Português com o prémio maior. Devo felicitar a Ensa pela aposta e por reconhecer e incentivar a veia criadora dos angolanos.

Angop – Onde se inspira para o trabalho que realiza diariamente?

FT: No dia-a-dia. Nas vivências que tenho nas comunidades. É essencial, pois se não tivermos bases não vamos conseguir atingir os objectivos preconizados. A arte é divergente. O importante é o que você expressa numa tela. Realidade ou abstracto, o importante mesmo é o artista conseguir transportar numa tela o que vê no seu dia-dia.

Angop – Quanto tempo leva para pintar um quadro?

FT: Depende. Depende do que se quer. Como título de exemplo, a obra com a qual ganhei o Ensa-Arte levou três dias para ser produzida. Foi um recorde em termos das minhas produções. Mas também tem muito a ver com o trabalho feito. Se for para o realismo e principalmente a base do óleo, levo mais tempo para produzir uma tela, pois demora mais para secar. Os acrílicos são os que levam menos tempo. Em dois/três dias, se calhar numa manhã ou tarde bem inspirado temos um trabalho feito com perfeição.

Angop – O que representa para si as artes plásticas?

FT: Representam Fineza, o que sou em termos culturais. Às vezes, digo que não sei o que seria se não fosse artista plástica. Neste mundo, cada um tem o seu espaço, o seu valor e eu aperfeiçoo as minhas habilidades nas artes plásticas. As artes plásticas significam o começo de tudo, porque é o princípio da criação. É a génese, é o princípio de todas as coisas que rodeiam o meu mundo.

Angop – Entre a realidade e o imaginário, o que mais prazer lhe dá pintar?

FT: Os dois. Acredito que sou surrealista. Uso os dois mundos no meu trabalho diário. Gosto de pôr os pés em terra firme, mas também gosto de voar ou de partir para a imaginação em lugares vagos, mas sentada num bom lugar.  Acredito que sentada num bom sítio tenho a oportunidade de levar a mente até as profundezas. Portanto, a combinação dos dois é perfeita.

Angop – O mercado angolano não possui matéria-prima para o trabalho que desenvolvem. Onde recorre para ter em dia o seu stock de trabalho?

FT: Setenta porcento do material que tenho é importado. Sempre que posso, consigo carregar as malas cheias de material para o meu trabalho e quando não posso, a primeira oportunidade que me surge, isto é, basta descobrir alguém que vai para o estrangeiro procuro mandar vir o que necessito para o meu trabalho. Infelizmente o nosso mercado ainda não consegue dar-nos o que pretendemos, porque não há uma aposta neste segmento. Entendemos que é caro investir nas artes e principalmente nas artes plásticas, mas alguma coisa deve mudar, caso contrário continuaremos a viver os problemas que temos hoje.

Angop – Quanto custa uma obra de Fineza Teta?

FT: Depende. Tenho obras que custam 10 mil kwanzas e outras que estão avaliadas em dois milhões de kwanzas. Viver das artes plásticas é complicado, porque o mercado é cheio de incertezas. Num dado momento podes fazer um grande contrato, dando dinheiro que te aguentará por cinco/seis meses, mas depois tens que virar as baterias para outros objectivos. Dos benefícios da venda de quadros, em Angola, de certeza que ninguém vive. Fazer arte para mim é uma adição. Não vou pelo valor, mas sim porque gosto. Tenho fé que um dia poderei viver dos benefícios da nossa arte.

Angop – Mas o que falta para que os artistas plásticos angolanos vivam realmente do resultado das suas criações?

FT: Investimento e educação cultural. Repara que nas escolas existe a disciplina de Educação Visual e Plástica (EVP) e é muito básica, isto é, a sua estrutura e forma de apresentação não traz nada de novo para incentivar o poder criativo das crianças. Quando falo em educação cultural, estou a falar do facto de existirem pessoas que não conseguem entender o valor da arte. Chegam a uma galeria/atelier e querem comprar um quadro a 80 mil ou 100 mil kwanzas, porque viu o mesmo valor no Mercado do Artesanato. Estas pessoas acham que uma peça de artesanato tem o mesmo valor que uma obra de arte. Esquecem que a obra de arte é única e o artesanato é uma reprodução. A própria forma de apresentar/arrumar o material, bem como a preparação de uma galeria ou uma exposição nada tem a ver com o que é visto no Mercado do Artesanato.

A falta de educação cultural influencia bastante na percepção que as pessoas podem ter sobre o valor de uma obra de arte. Para se ser um bom apreciador de artes deve-se conhecer a arte, estar dentro da arte. Em Angola, infelizmente temos compatriotas que compram uma obra de arte só para impressionar alguém e não porque considera que esta obra tem um certo valor artístico/cultural.

Quando falo em investimento, estou a referir-me ao facto de os empresários aproveitarem os benefícios da Lei do Mecenato. Sabemos que a partir do momento em que alguém dá mostras de que está a fazer algo para determinado segmento cultural tem a princípio alguns benefícios, consubstanciados na isenção de alguns impostos.

Infelizmente as nossas obras têm sido adquiridas por cidadãos estrangeiros que conhecem e dão valor à produção dos criadores angolanos, fazendo com que não tenhamos um arquivo do que produzimos. A UNAP não tem capacidade para um trabalho neste sentido sem o devido apoio. Ainda estamos mentalizados de que o Governo deve fazer tudo, mas é sim uma acção que deve envolver a classe empresarial angolana. Se continuarmos à espera que o Governo faça um papel que nos cabe, então, não vamos conseguir nada.

Angop – As artes plásticas em Angola: presente e futuro. Que analise faz?

FT: O presente é prometedor. A abertura do Complexo das Escolas de Artes (Ceart) dará um grande impulso ao processo de formação dos criadores angolanos, factor que poderá contribuir para o salto que se pretende no mundo das artes plásticas.
A formação profissional é essencial, pois ajudará os criadores a melhor conceber as suas obras.

"Quando falo em investimento, estou a referir-me ao facto de os empresários aproveitarem os benefícios da Lei do Mecenato. Sabemos que a partir do momento em que alguém dá mostras de que está a fazer algo para determinado segmento cultural tem a princípio alguns benefícios, consubstanciados na isenção de alguns impostos".
“Quando falo em investimento, estou a referir-me ao facto de os empresários aproveitarem os benefícios da Lei do Mecenato. Sabemos que a partir do momento em que alguém dá mostras de que está a fazer algo para determinado segmento cultural tem a princípio alguns benefícios, consubstanciados na isenção de alguns impostos”. (Foto: Lino Guimarães)

 

Angop – O produto dos criadores angolanos tem qualidade suficiente para se impor no mercado internacional?

FT: Tem muita qualidade. A maior dificuldade é mesmo a escassez de material de trabalho no mercado nacional. Apesar disto, o que colocamos ao dispor do público em nada fica a dever ao trabalho por criadores estrangeiros. Pelo que vi em diversos países por onde passei, cheguei a conclusão que um pouco mais de oportunidade estaremos em condições de mostrar trabalho. A prova da qualidade é o facto de, por exemplo, termos ido, em 2013, a Bienal de Veneza, pela primeira vez, e termos saído de lá com o Leão de Ouro. Com o apoio necessário vamos longe. Quem pode e quem tem condições pode e deverá também apoiar os criadores do mundo das artes plásticas.

Angop – Fineza Teta, Angola 40 anos de independência, 40 ano de arte livre. O significa para si?

FT: São 40 anos de liberdade em todos os domínios e significa bastante para o povo angolano, em geral, e para os criadores culturais, em particular. Sabem que dois anos depois da proclamação da independência, o presidente Agostinho Neto, no domínio da cultura, orientou a realização do Carnaval da Vitória, cuja primeira edição teve lugar em 1978. Para o mundo cultural, 40 anos de independência significa liberdade de pensamento, liberdade de criação e liberdade de expressão.

PERFIL

Filha de Arménio Sebastião Teta, Fineza Teta nasceu e iniciou a sua formação académica em Luanda. Posteriormente, concluiu a licenciatura em Artes Visuais e Design, na África do Sul. Em menos de uma década, participou em diversas exposições colectivas e angariou alguns prémios. É natural de Luanda e tem 37 anos.

Prémios
1998: Menção Honrosa do Prémio Ensa-Arte
2000: Troféu de teatro na igreja, na África do Sul
2006: Prémio Juventude Ensa-Arte
2014: Primeiro grande prémio em pintura Ensa-Arte

Há dez anos nas artes, Fineza Teta já venceu cinco prémios, três pela Ensa, menção honrosa, prémio juventude e o grande prémio de pintura na 12.ª edição  Em 1998, recebeu uma Menção Honrosa no Prémio Ensa-Arte, com a obra “Casamento” na qual procura lançar um olhar crítico sobre algumas realidades discriminatórias da mulher, que ainda marcam as sociedades contemporâneas. (portalangop.ao)

(Por: Venceslau Mateus)

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