EUA: Por que é hora de levar a candidatura de Donald Trump a sério

(Getty Images)
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Desde que foi anunciada, a campanha pouco ortodoxa do magnata tem sido ridicularizada pela imprensa e tratada com cepticismo por analistas. Três meses depois, ele lidera a corrida republicana e norteia debates no partido.

Ridicularizar Donald Trump como um palhaço, como parte da imprensa faz, ou como um bilionário excêntrico de ideias políticas sem sentido, como fez a também pré-candidata presidencial republicana Lindsay Graham, é compreensível.

No caso de Graham, porque o magnata informou seu número de telefone em um programa de televisão ao vivo e foi chamado por ela de “idiota”. Mas, de um modo geral, porque o incessante e chocante discurso inflamado de Trump contra imigrantes, mulheres, heróis de guerra ou qualquer coisa da qual ele discorde põe seriamente em dúvida a sua qualificação para se tornar presidente.

Além de seu comportamento estranho, há o fato de ele, no passado, nunca ter ocupado um cargo electivo e ter brincado com a possibilidade de concorrer à presidência. Com as primárias republicanas a meses de distância, a relutância em levar sua candidatura a sério não é apenas compreensível, mas explicável.

Porém, é errado menosprezá-lo como uma piada. Em primeiro lugar, porque, desta vez, analistas políticos dizem que Trump está realmente empenhado em sua campanha.

“Para prosseguir com a sua candidatura presidencial, Trump já sacrificou alguns relacionamentos comerciais significantes, incluindo seu bem-sucedido programa de televisão”, afirma Barry Burden, director do Centro de Pesquisa de Eleições da Universidade de Wisconsin-Madison. “Ele deveria ser encarado como um verdadeiro candidato, que está competindo para ganhar. É uma campanha pouco convencional, mas real.”

Independência financeira

A riqueza pessoal de Trump faz dele – ao contrário de todos os outros candidatos republicanos ou democratas – totalmente independente de doadores externos para financiar a sua campanha. Seja em baixa ou em alta nas pesquisas, o magnata é o único que decide o destino de sua corrida presidencial.

A independência financeira também faz de Trump um candidato atractivo para muitos eleitores desiludidos com a crescente influência de corporações no processo eleitoral.

“Ele realmente acredita que será um grande presidente”, diz Jeffrey Berry, cientista político da Universidade Tufts.

Com Trump, além disso, a retórica anti-imigrante virou tema central no Partido Republicano

O fato de Jeb Bush – que é casado com uma mexicana e defende uma reforma migratória abrangente – ter se sentido compelido a usar o termo “bebé âncora” para se referir a crianças nascidas de imigrantes ilegais nos EUA mostra como Trump mudou para a direita o panorama do que é considerado aceitável na corrida republicana.

“Ele já empurrou o Partido Republicano para uma ‘esquina demográfica'”, afirma Bob Shrum, veterano estrategista do Partido Democrata. Para ele, a retórica anti-imigrante de Trump só agravou os problemas do tradicional Partido Republicano em atrair os votos dos eleitores hispânicos.

Mais do que isso, a mistura curiosa de populismo indisfarçável, anti-intelectualismo fanático e linguagem grosseira lhe permitiu explorar um segmento de eleitores desprivilegiados, em sua maioria brancos, do sexo masculino, como nenhum outro candidato tem conseguido ou ousou fazer.

“Especialistas estavam errados, porque eles esqueceram do humor negro do eleitorado ultraconservador do Partido Republicano”, afirma Shrum, que assessorou os democratas Al Gore e John Kerry em suas campanhas presidenciais.

Padrões diferentes

Nada disso significa que Trump vai ganhar a candidatura republicana, muito menos se tornar presidente. “A campanha vai assumir uma dinâmica diferente quando a disputa ficar restrita a Trump e a outro pequeno número de candidatos mais convencionais”, afirma Burden. “Nesse ponto, ele vai ser pressionado sobre questões e seu histórico de um modo mais sério que poderá colocá-lo de fora da corrida presidencial.”

Mas, mesmo que eventualmente a sua estrela comece a se apagar, Trump teve um grande impacto sobre o discurso político nos EUA, mais do que qualquer outro candidato republicano. Além do mais, Trump pode decidir participar das eleições como candidato independente, caso ele não conquiste a indicação republicana – apesar de sua promessa de não o fazer.

“Promessa ou não, caso seja rejeitado nas primárias, um Trump ‘independente’ pode quebrar as costas do elefante”, destaca Shrum, fazendo referência ao símbolo do Partido Republicano. (DW)

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