Dom Viti defende boa convivência entre governantes e governados

Dom Viti (OPAIS)
Dom Viti (OPAIS)
Dom Viti (OPAIS)

O prelado disse haver distanciamento entre os dirigentes e o povo

O arcebispo emérito da Arquidiocese do Huambo, Dom Francisco Viti, apelou esta Quarta-feira, 9, em Luanda, a reconciliação entre os angolanos para permitir uma sã convivência e ultrapassar, definitivamente, as divergências ideológicas que os dividiram no passado.

Dom Francisco Viti lançou este apelo quando dissertava sobre o tema “ Paz e Reconciliação Nacional”, nas jornadas Parlamentares Conjuntas, realizadas de 8 a 9 de Setembro e promovidas pela UNITA, CASA-CE, PRS e FNLA .

Falando para um concorrido auditório, onde, para além de deputados, estiveram presentes líderes dos partidos sem assento parlamentar, membros da sociedade civil e do corpo diplomático acreditado em Angola, Dom Viti considerou a reconciliação como um imperativo para a pacificação dos espíritos. Segundo o prelado, a reconciliação significa “o retorno dos corações ontem desavindos”, por isso, reforçou a fonte, cada angolano deve fazer a paz com o outro.

“ A Paz é a aceitação recíproca”,

Durante o seu pronunciamento, que foi ovacionado várias vezes , Dom Francisco Viti aconselhou os políticos no sentido de evitarem acusações entre si, pois, disse, elas não ajudam o país a se reencontrar. “Enquanto estivermos a tratarmo-nos de culpados e inocentes, nunca Angola será unida e reconciliada”, alertou.

A fonte avançou que a reconciliação resume-se no amor e no perdão, tendo em seguida recorrido a um adágio popular, na língua umbundu, segundo o qual “a formiga forma fila sobre as águas violentas”, cujo exemplo deve ser seguido também pelos homens (angolanos).

Dom Viti disse que os benefícios da paz alcançada entre os angolanos, através do diálogo devem ser partilhados com todos os filhos desta terra, mas sem olhar para a cor partidária, raça ou credo religioso. “ A paz é como o batuque. Ninguém dança o batuque sozinho na aldeia, mas todos ”, sublinhou.

Diálogo

Durante a sua intervenção, o arcebispo aconselhou os políticos a primarem pela via do diálogo para dirimirem eventuais querelas que possam surgir entre si, sem recorrer a qualquer acto de violência, como, supostamente tem acontecido em alguns casos.

Segundo Dom Francisco Viti, “é preciso cultivar o diálogo na busca da verdade. Por vezes a verdade dói, mas sem ela não há boa convivência”, tendo acrescentado que o diálogo é a única via pacífica para se resolver conflitos.

O prelado deplorou a forma como algumas pessoas e/ou instituições resolvem os conflitos sem ter em conta o amor à pessoa humana. “É preciso respeitar as pessoas. Os angolanos por vezes são cruéis e desrespeitam os outros”, apontou.

Dom Viti disse existir no seio de alguns governantes o argumento deaautoridade, arrogância e exagero no trato com a pessoa humana. “Ninguém pode se arrogar saber tudo. O génio é aquele que aceita a crítica dos outros”, aconselhou.

Sinais dos tempos

Conhecido pela frontalidade como aborda os assuntos dentro e fora da igreja, o sacerdote de 83 anos, nascido no município da Ganda, em Benguela, convidou os políticos e governantes angolanos a interpretarem os sinais dos tempos no que concerne à governação do país.

O palestrante disse que a política não deve dividir os “governantes e governados”, mas deve haver uma coabitação pacífica, realçando que cada angolano é chamado a fazer uma intervenção política.

Acrescentou que o poder não é trunfo dos políticos, mas uma luta para o bem da humanidade.

A fonte referiu ainda que “na política não está em jogo somente a qualidade de vida, mas a vida é o centro da política”. Comedido nas suas declarações, Dom Viti sublinhou que a “igreja não intervém em termos políticos, mas lança princípios de paz e justiça”, concluiu.

Governação e Corrupção

Sob o lema: “Juntos por um Parlamento Democrático ao Serviço dos Angolanos”, as Jornadas Parlamentares Conjuntas da Oposição abordaram vários temas, destacando-se “A situação Económica e Financeira versus Governação Responsável e Transparente; O Crédito Chinês; A Postura dos órgãos de Comunicação Social; A Lei Geral de Trabalho e A Gestão do Erário Público”.

Sobre esta última matéria, o economista Vicente Pinto de Andrade começou por falar sobre a aprovação da Lei nº 3/10, Lei da Probidade Pública, que considerou como tendo sido o reconhecimento para a protecção dos bens públicos, embora tenha sido aprovada tarde.

Segundo o palestrante, a aprovação deste diploma visa combater a apropriação ilegal de recursos colectivos (públicos ou organizacionais), ou seja, o crime de “colarinho branco”. Ele reforçou que a corrupção é um problema com uma tripla dimensão. Essa dimensão circunscreve-se em económica, cultural e política, acrescentando que a corrupção é um fenómeno tão velho quanto o mundo. Aliás, segundo o académico, este fenómeno alastrou-se durante a década de 90.

Explicou que este alastramento deveu- se às reformas políticas e económicas registadas em 1990, depois das profundas mudanças que se operaram na Europa do Leste, que consistiram no surgimento do sistema multipartidário.

Blackout à comunicação social pública

Os deputados insistem que a Televisão Pública de Angola (TPA) e a Rádio Nacional de Angola (RNA) devem dar tratamento igual na abordagem das matérias de todas as forças políticas do país, assim como exigem a transmissão em directo das plenárias da Assembleia Nacional.

Estas recomendações constam do comunicado final produzido no final dos trabalhos destes dois dias. O comunicado diz ainda que caso a situação prevaleça, as forças políticas na Oposição optarão por um “blackout” a toda a comunicação social pública, como medida de reivindicar esse direito consagrado na Constituição da República de Angola (CRA).

Num documento distribuído à imprensa, refere-se ainda a necessidade da concertação de ideias entre os grupos parlamentares na Oposição na IV Sessão Legislativa da III Legislatura com vista à dignificação do papel da Assembleia Nacional. Os deputados recomendam ao titular do Poder Executivo para que preste melhores esclarecimentos a todos os cidadãos angolanos sobre as relações China-Angola e os meandros do crédito contraído recentemente. Sobre os direitos humanos em Angola, os deputados dizem, no comunicado, estarem preocupados com as “violações e prisões arbitrárias e extra-judiciais”.

Na mesma nota encorajam a juventude para a prossecução da luta pelos seus direitos inalienáveis e exigem a libertação de todos os “presos políticos”.

Na nota que temos vindo a citar os deputados recomendam a necessidade de, para as próximas eleições gerais em 2017, a CNE assegurar a contagem manual dos votos, entre outras modalidades possíveis. (OPAIS)

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