D. Januário. “António Costa não é Deus mas já o vi governar”

Bispo pode vir a inaugurar figura do provedor do Doente, prevista desde 2013 (Rodrigo Cabrita)
Bispo pode vir a inaugurar figura do provedor do Doente, prevista desde 2013 (Rodrigo Cabrita)
Bispo pode vir a inaugurar figura do provedor do Doente, prevista desde 2013 (Rodrigo Cabrita)

Aos 77 anos, bispo resignatário das Forças Armadas entra de rompante em duas campanhas.

D. Januário Torgal Ferreira foi ontem apresentado como um dos pilares de uma das candidaturas à direcção nacional da Ordem dos Enfermeiros, um feito inédito para um clérigo que assumirá, caso a lista “Enfermagem Acredita” seja eleita, o papel de “provedor do Doente”.

Se a participação na corrida eleitoral dos enfermeiros é uma surpresa, na mesma tarde, o bispo resignatário das Forças Armadas entrou de rompante também na campanha das legislativas e disse estar impressionado com a omissão no debate do sofrimento das pessoas – de que considera os enfermeiros os principais ouvintes e espelho, sempre que perguntam aos doentes o que lhes dói.

Em entrevista ao i, esclarece que a crítica é só para a coligação e revela que vai votar em António Costa.

Quem tem omitido o sofrimento dos portugueses?
O arco da governação. Fico escandalizado, como cidadão, com a maldade e o analfabetismo de políticos que esquecem que as pessoas a quem agradecem os sacrifícios são as pessoas que calcaram. Riem--se do passado, mas o passado já foi julgado, e bem, nas últimas eleições. E, em vez de se deixarem julgar agora, tentam iludir dizendo “nós fizemos, nós salvámos”. Quem salvou fomos nós. É muito fácil governar com o dinheiro dos outros. É muito fácil governar fazendo as contas a dividir por todos. Vivi numa casa com colegas e o administrador, se quisesse, comprava só produtos de qualidade e dava 500 euros a cada um ao final do mês, quando outro poderia fazer por menos e dar 20. A coligação governou à nossa custa.

Centra as críticas na postura da coligação. E o PS?
Costa não é Deus, pode ter as suas debilidades, mas já o vi governar na Administração Interna e, como cidadão, vi-o em Lisboa. Não há aqui nenhum favor de amizade, mas respeitabilidade pelo que pode fazer. Não posso é continuar a assistir a este banho de ilusão e mistificação por parte da coligação, com tanta gente que continua com salários baixíssimos e os problemas no mundo da saúde, da justiça, da educação. Quem trate de ouvir o discurso de Passos e Portas acha que entrou no eldorado.

Vai votar em Costa?
Claro. Não tenho dúvidas de que tem toda a razão nas críticas. Estaríamos perdidos se a coligação continuasse à frente deste país. Melhor dizendo: pobres dos pobres se a coligação se mantiver.

Que balanço faz dos partidos mais à esquerda no debate?
Agrada-me ver uma Catarina Martins ou Mariana Mortágua, gente que estuda e vê com humildade e intelectualidade os seus projectos.

Gostaria de as ver no governo?
Não me escandalizaria nada. O que me escandaliza é ter gente no governo que tratou pessoas que podiam ser seus pais ou avós como estes trataram. Não lhes sinto sensibilidade social. Não queria miserabilismos nem beatismos, mas respeito pelo que é real. Como é que pessoas que nunca falaram de desigualdades sociais em quatro anos, e ficavam aterrados quando se falava de fome, vêm agora dizer que vão lutar contra as desigualdades?
O processo Sócrates não fragiliza o PS?
Sócrates já foi julgado.

Não na justiça.
Foi julgado politicamente. E digo mais: do ponto de vista jurídico, muita água há-de correr debaixo da ponte no processo José Sócrates.

Diz isso porquê?
Esperemos.

A sua presença nesta corrida dos enfermeiros foi uma surpresa. Sente-se usado como um trunfo?
Não. Já trabalhei numa associação de serviço aos presos e numa associação católica internacional.

É mais uma missão?
É mais um tacho [risos]. Um serviço, com a condição de não receber nenhum euro.

Vai ter muito trabalho?
Acho que qualquer português devia ser obrigado a entrar num hospital, a ver aquelas urgências. Tal como a ir a casas onde estão mães solteiras, vítimas de violência doméstica, mulheres torturadas. Por isso é que fico revoltado. Só agora vêm dizer que não vão permitir desigualdades sociais. É uma vergonha.

Havia alternativa?
A partitura musical pode ser a mesma, mas a interpretação de uma música depende sempre daquele que rege a orquestra.

Com o PS não teria sido um requiem como descreveu, mas a sinfonia que deseja para o país, como disse na apresentação?
Creio que não. Mas se caírem, também o direi. Agora, quanto a estes sinto-me escandalizado. Não nego que tenha havido melhorias e comece timidamente a melhorar; agora, eles estão a tentar ficar no poleiro. Acho um insulto à inteligência, isto do Passos Coelho. Ora vá, agora? Não sabia que havia desigualdades sociais?

Sente-se com energia para ser a voz dos doentes, caso a lista seja eleita?
Sim. É uma função humanitária. Sempre tive esta energia vocal e cívica. Talvez tivesse dado para ser político.

Não o desafiaram?
Não. (JornalI)

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