Cantor Tata Ngana prepara novo disco

(Foto: Dombele Bernardo)

Durante a noite, em Kimbele, Tata Ngana sentava-se à volta da fogueira para  aprender com os mais velhos os passos de dança, vocalização, celebração dos mitos e ouvir estórias do imaginário fantástico da cultura kikongo.

(Foto: Dombele Bernardo)
(Foto: Dombele Bernardo)

Depois raiava o sol, período em que o cantor recebia os ensinamentos da pesca, colheita no campo,  e os métodos de contrução  dos engenhos destinados à caça dos animais.Para além de estar dotado pelos ensinamentos da sua cultura de origem, Tata Ngana começou a cantar em 1973, com apenas seis anos, influenciado pelos rituais litúrgicos do coro da Igreja Kimbanguista, instituição religiosa onde aprendeu a tocar “Matambulo”, espécie de batuque, e “Matutu”, sopros.
Ainda no mesmo ano, aquando da cerimónia de circuncisão, Tata Ngana aprendeu com vinte jovens de dez a doze anos de idade, várias tipologias de danças, que foram depois  fundamentais para a sua posterior apresentação em palco: “Ndembo”, dobra dos pés, “Tchatchumuna”, dança com os quadris, e “Ibuetila”, que  se caracteriza por movimentos tremidos de todo o corpo.
Tata Ngana, enquanto vocalista, tentou a criação do “Nero kidi”, em 1976, um pequeno grupo musical em Kimbele,  com Xi Mutu (voz), Sikidila (voz), Manguana (guitarra), Kinsona (guitarra e voz), Zorro (guitarra e voz), e Bengo (guitarra e voz).
Em 2005,  durante uma curta estadia na Holanda, em férias, Tata Ngana recebeu de oferta uma guitarra do seu primo, Kimpuanza, ocasião em que renasceu o sonho de prosseguir a sua carreira como cantor. De regresso a Luanda, Tata Ngana contactou os serviços de produção dos Estúdios T,  do cantor  João Alexandre, e começou a gravar o CD “Tata Ngana”.
Filho de Gabriel Ngana e de Maria Luvunga, Amério Gabriel, Tata Ngana,  nasceu no dia 2 de Maio de 1967 no Município de Kimbele, Província do Uíge.

Formação

Tata Ngana fez os estudos primários até a primeira classe na Escola do Bairro Kiambula, em 1975, e a segunda até a terceira classe, na Escola do Bairro Kimassabo, em 1980, no Município de Kimbele. Frequentou de 1979 a 1980, a 5ª e a 6ª classe, na Missão Católica, igualmente em Kimbele. De 1983 a 1984 estudou a 7ª e 8ª classe na Escola Juventude e Luta, tendo concluído o ensino médio de Economia do Trabalho, em 1993. Frequentou ainda a Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.

Consagração

A consagração de Tata Ngana começou com o surgimento do CD homónimo, em 2005, que inclui o sucesso “Nluta”,  tendo arrebatado o prémio de melhor disco folclórico do concurso Top Rádio Luanda, edição 2005. Na sequência  surgiu o “Grande Show Tata Ngana, realizado no Cine Tivoli, com as participações de  Beto de Almeida, Sabino Henda, Claudeth Tchizungu, Versáteis, Afro-Man, Virgílio Fire, Dalú Roger, e o Ballet Tradicional Kilandukilo. Em 2007, Tata Ngana um dos seleccionados dos dez do Top dos Mais queridos, da Rádio Nacional de Angola, emparceirando com Maya Cool, Matias Damásio, Paulo Flores, Os Lambas, Ary, Yuri da Cunha, Tony Amado, Calô Pascoal, e Tungila Tuajopkota, ocasião em que venceu na categoria de melhor música folclórica. Em 2010, Tata Ngana participou no Festival Mundial da Juventude e Estudantes, em Pretória, África do Sul, onde estiveram presentes 118 países do mundo.

Discografia

Depois de “Tata Ngana” (2004), seu primeiro disco,  e “Mondu” (percussão, 2006), Tata Ngana regressou aos discos com “Ntumbu” (recipiente para o trasporte água, mel e maruvo, 2010), um CD que confirma o empenho do cantor na recolha do cancioneiro tradicional, baseado fundamentalmente em estórias e contos da sua terra.  No primeiro CD, a canção “Tata Ngana”, uma homenagem ao seu pai, conta a história do seu prematuro desparecimento. Em   “Sadia-mbongo”,  o seu pai é novamente referenciado como pastor, e trabalhador que lutou pela felicidade dos seus filhos. Surgem depois as canções: “Seka, seka”, que conta a história de um seu irmão doente mental, “Ihangi”, aborda saudades da infância, “Lumbakidiko”, homenagem ao seu avô, e “Nluta”, tema que fala da paz e do amor ao próximo.  No CD “Ntumbu” estão alinhadas as canções: ”Maxita”, “Leitão” e “Ntumbu”, com participação de Nazarina Semedo, “Zeza”, com Sissa,  “Luzolo e “Luvovamo”,  com o cantor Deputado, “Talamaku”, com Dalton e Nzarra,  “Nsenga”, com Zorro, “Meu marido”, com Karina Gonçalves e Deputado, “Mamawe”, com Deputado,  “Ukangala”, “Ua”, África, com Beto de Almeida, e  “Mpoma”. No CD “Mondu”, Tata Ngana gravou as canções: “Matoko” (jovens), uma alerta ao bom comportamento das gerações mais jovens, “Delfina”, sucesso que narra a história de um pai que deu a casar a sua filha ao seu compadre, “Linda”, uma alerta às mulheres para terem mais  cuidado com a beleza, e ouvirem os conselhos dos mais velhos, “Mbele” (catana), de notar, disse o aotor, que em África a catana, para além de arma branca, é um meio de subsistência,    “Moio”, é uma celebração à vida pela definição de objectivos  quando se é jovem, “Muenetu”, é uma canção de agradecimento à Banda Versáteis, e ao Luaty dos Estúdios Criativa, e “Nkumba”, tema que relata o desparecimento de uma jovem do mesmo  nome.

Concertos

Ao longo da sua carreira, Tata Ngana participou em vários concertos, em Angola e no estrangeiro, dos quais destacamos: o realizado na União dos Escritores Angolanos, em 2005, aquando do lançamento do livro biográfico,  do Ex-Presidente de São Tomé, Aristides Prereira, Cine Turismo, em Malanje e Uíge, a convite da FESA, em 2005, Club Restinga no Lobito, a convite da UNAC, em 2007, “Grande Show Tata Ngana, realizado no Cine Tivoli, em 2007, e Campo do Dundo, dia da Cultura Nacional, na Lunda Norte, Dundo, em 2008. Digressão pelo Huambo, Ndalatando, Bengo, Uíge, Cabinda, Sanza Pombo, Kimbele, Maquela do Zombo, e Negage no Grande Show das Massas do MPLA, em 2008, e Feira  Internacional do Livro e do Disco, Luanda, em 2015. No estrangeiro, Tata Ngana esteve presente no Mundial de Futebol,  Alemanha, em 2006, no Egipto Cairo, em 2007, inserido no programa alusivo ao dia da independência, Dia da Cultura Nacional na Namíbia, em 2008.

Literatura

Tata Ngana tem como projecto a edição do livro “Hábitos e costumes da cultura Kimbele”. Sobre a obra, o autor deu algumas pistas sobre o seu conteúdo: “ O livro retrata a minha cultura de origem , ou seja, o  modo, a convivência, a “Nkanda”, cerimónia de circuncisão, algumas plantas medicinais e aspectos de carácter filosófico.
A obra conta igualmente a história de quarenta e dois pastores da igreja Kimbanguista, dos quais faz parte o meu pai, que foram levados pela PIDE-DGS, em 1972, provenientes do Município de Kimbele, e que nunca mais foram vistos. É um livro escrito com base na minha história pessoal, e recolha de informação que me foi dada pelos mais velhos. Julgo ter algum intertesse histórico, cultural e antropológico”. (Jornal de Angola)

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