A verdade chinesa

RUI MALAQUIAS Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
RUI MALAQUIAS Economista e Docente universitário (Foto: D.R.)
RUI MALAQUIAS
Economista e Docente universitário
(Foto: D.R.)

De facto, hoje, a China é mesmo aqui ao lado, e aquela frase isto é um negócio da China, no último mês, já não passa aquela sensação de que estamos a falar de um negócio extremamente rentável, mas sim de um negócio igual aos outros, com uma equação complexa em que as variáveis risco e retorno devem ser bem estudadas.

Estamos a assistir ao estremecer da segunda maior economia do mundo, mas, como defendem os especialistas, é um ‘abanão’ esperado, pois já se estava à espera de que a ‘bolha’ rebentasse some day some how.

A bolsa chinesa, de 2013 a 2014, cresceu, em termos de capitalização, à volta de 150%, devido ao mercado de acções compradas e vendidas entre os próprios chineses, pois estima-se que, dos accionistas das empresas chinesas cotadas, apenas 5% são estrangeiros. Nos últimos tempos, temos assistido a uma queda constante dos preços das acções e, como o mercado nunca mente, estas acções estão a cair, porque há muito mais pessoas a vender do que a comprar, e claro para nós é importante entender o porquê e as consequências deste fenómeno.

A China, durante estes anos, tem crescido, porque possui um mercado interno muito forte e consumista, onde as empresas têm de fazer um esforço enorme para cobrir a procura interna, mas o país conseguiu isto mediante uma política monetária apoiada em juros baixos e na facilidade na obtenção de financiamentos que, até hoje, resultou na criação de um sector empresarial público e privado forte, criação de empregos, aumento do rendimento nacional e maior arrecadação de impostos para o Estado, levando ao ponto de o governo ter liquidez suficiente para ser o maior credor da dívida titulada dos Estados Unidos da América.

Portanto, a China continua a ser o ‘oásis’ para o empresariado mundial, pois detém os custos de mão-de-obra mais baixos do mundo, o facto de ter a sua moeda desvalorizada artificialmente (pelo governo) faz com que suas matérias-primas e outros bens e serviços sejam mais baratos que os seus concorrentes, induzindo assim um crescimento regular das suas exportações.

Claramente que os rendimentos dos cidadãos chineses têm crescido ao longo dos anos e, com isso, as suas poupanças também, levantando-se outra questão central: “Onde aplicar ou que investimentos fazer?” O facto de as taxas de juro serem baixas faz com que os depósitos a prazo, e os títulos de dívida corporativa e pública sejam pouco atractivos, portanto, os chineses procuram investimentos mais vantajosos mas com um nível de risco mais acentuado.

Por este motivo, os chineses preferiram aplicar no que restava da economia as acções de empresas cotadas em bolsa. O facto de o Estado chinês incentivar a aplicação em acções mantendo a taxa de juro baixa e aumentando a maturidade dos empréstimos fez com que a ‘bolha’ crescesse e os investimentos em acções se mantivessem até ao momento.

A verdade chinesa não é a música de Emílio Santiago, mas a verdade da bolsa chinesa revela que é chegado o momento de os empréstimos serem pagos e as aplicações serem desmobilizadas. Por este facto, os investidores estão a ‘livrar-se’ das acções, fazendo cair o seu preço e, automaticamente, o valor das empresas (que é ditado pelo cumulativo do valor das suas acções em bolsa) está a cair, o que faz com que o balanço das pessoas e empresas que compraram estas acções emagreça também. Se, antes, os portefólios estavam avaliados em, por exemplo, 10 milhões Kz dispersos em 100.000 acções, o que perfaz um preço de 100 Kz por cada acção, e se em um mês a cotação desta mesma acção cai para 65 Kz, no balanço destas entidades terá apenas em activos um total 6,5 milhões Kz em acções.

O governo chinês, apercebendo-se de que chegava o momento da verdade, está a encetar uma série de medidas administrativas, entre elas proibir accionistas com mais 5% das empresas, de venderem as suas acções e impedir as empresas estatais de venderem as suas acções em bolsa. Tais medidas assustaram mais o mercado, e mais investidores estão a tentar sair das suas posições.

O que pensamos que vai acontecer é que a bolsa chinesa deverá continuar a cair para corrigir os ganhos artificiais dos últimos anos, e os investidores vão ter de encontrar alternativas de investimento. Ainda que aparentemente a queda do mercado de acções chinês não pareça estar ligada ao arrefecimento da economia chinesa ou a problemas de gestão daquelas empresas, os investimento em acções vão deixar de ser preferenciais entre os investidores chineses.

A economia real chinesa não deve ser atingida por agora, pois as empresas estão a perder valor de mercado, mas a nível operacional conseguem ter acesso a créditos a baixos custos, e o mercado interno chinês continua a consumir o normal para manter as empresas a funcionarem, sendo que as exportações do país estão bem e recomendam-se. (expansao.ao)

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